É hora de fazer lobby no Congresso americano

Raquel Landim

17 de junho de 2011 | 17h21

O Congresso americano foi palco ontem de duas importantes votações envolvendo diretamente interesses brasileiros. O Senado aprovou uma emenda para eliminar os subsídios ao etanol de milho, concorrente do etanol brasileiro de cana. E a Câmara votou pelo fim dos pagamentos aos cotonicultores brasileiros, concedidos para compensar o setor pelo apoio aos produtores de algodão americanos.

Na avaliação do blog, são duas ótimas notícias. As emendas ainda estão longe de virar lei, porque terão que ser aprovadas em outras instâncias e sancionadas pelo presidente Barack Obama. Mas são o primeiro sinal de que os Estados Unidos estão dispostos a rever seus subsídios agrícolas, um bandeira antiga do Brasil.

Isso não está ocorrendo por acaso. Os Estados Unidos enfrentam um enorme processo de ajuste fiscal, depois de derrubar trilhões de dólares na sua economia, para tentar reagir à mais grave crise desde 1929. Logo, foi preciso quase um “cataclisma” para desafiar os poderosos lobbies agrícolas americanos.

Os interesses brasileiros nos dois casos são evidentes. O Brasil é o maior produtor de etanol de cana do mundo. É bem verdade que não estamos em condições de aproveitar uma abertura do mercado americano agora – basta mencionar o estrago provocado no mercado interno pela falta de etanol na entressafra – mas é preciso pensar no futuro.

O caso do algodão é um pouco mais complicado de entender. Depois de oito anos de disputa e um processo vencido pelo Brasil na Organização Mundial de Comércio (OMC), os americanos se recusaram a retirar seus subsídios aos cotonicultores. O Brasil foi autorizado pela OMC a aplicar uma retaliação milionária contra os produtos americanos, mas suspendeu o processo depois de selado um acordo com os EUA.

O acordo prevê um fundo de compensação financeira para os cotonicultores brasileiros até que o tema volte a ser discutido na renovação da Lei Agrícola americana (Farm Bill). Se o Senado referendar a decisão da Câmara e acabar com esse fundo, o acordo Brasil – EUA cai por terra e o governo brasileiro será forçado a retaliar os americanos.

Mas, como já disse anteriormente, considero a decisão da Câmara uma boa notícia. Como ninguém quer a retaliação, vai forçar uma discussão mais profunda no Congresso americano sobre os subsídios aos produtores de algodão. E o objetivo final do Brasil sempre foi acabar com esses subsídios, que distorcem os preços globais.

Os Estados Unidos enfrentam um momento muito particular após a crise e são nessas épocas que grandes transformações podem ocorrer. É hora de o setor privado brasileiro fazer um lobby pesado no Congresso americano, para derrubar de vez os subsídios agrícolas. Hoje são poucas as empresas e entidades de classe que têm representantes em Washington. É preciso reforçar esse time e aproveitar o momento histórico.

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