Fuga de fábricas

Raquel Landim

18 de abril de 2011 | 16h00

Maior fabricante de calçados do Brasil, a Vulcabras terá uma unidade na Índia. A empresa fechou na sexta-feira a compra de uma fábrica de tênis em Chennai, no sudeste do país asiático, e o negócio será assinado daqui 40 dias após uma “due diligence”. A Vulcabras vai produzir na Índia 60% dos cabedais – parte superior do tênis feita de couro, tecido e materiais sintéticos – que utiliza. Os cabedais chegarão prontos a Brasil e Argentina, onde apenas serão coladas as solas.

A empresa está transferindo para a Ásia  a parte mais intensiva em mão de obra de sua produção, porque é a costura dos tênis que exige a maior quantidade de operários. Somando sua própria fábrica e a produção que pretende adquirir de empresas terceirizadas locais, a Vulcabras vai gerar 8 mil empregos direitos e indiretos no país asiático. Com a estratégia, espera reduzir seus custos pela metade e, com isso, manter os 40 mil empregos que gera no Brasil. Vale ressaltar, no entanto, que é só uma expectativa. Não há garantias.

A Vulcabras não é a única. É apenas o sintoma mais emblemático da fuga de fábricas e de empregos do Brasil para outros países. Os vilões são os de sempre: real forte, carga tributária, custo trabalhista, burocracia, deficiências logísticas. Outras empresas brasileiras já fizeram o caminho da internacionalização – um fenômeno positivo, quando ocorre por uma expansão natural da companhia, que parte em busca de novos mercados. E não por falta de competitividade para produzir no Brasil.

A notícia também chama a atenção por causa do compromisso histórico da Vulcabras com a produção no Brasil. A empresa possui 27 fábricas no País, especialmente na região Nordeste. O presidente da Vulcabras, Milton Cardoso, também é presidente da Associação Brasileira da Indústria Calçadista (Abicalçados) e é o primeiro a defender os interesses do setor junto ao governo. A Vulcabras foi uma das principais apoiadoras de um processo antidumping, que culminou em uma sobretaxa contra o sapato chinês.

Mas a barreira praticamente não ajudou. As gigantes globais de tênis passaram a atender o Brasil de plantas que possuem em outros países de baixo custo, como Vietnã e Malásia. Algumas empresas chegaram a infringir a lei e apenas “fingir” que embarcavam seus produtos desses países, praticando “triangulação”. Os fabricantes brasileiros entraram com um pedido de processo no Departamento de Defesa Comercial (Decom) contra a “triangulação”, mas desistiram por conta das dificuldades técnicas.

Com a fábrica na Índia, a Vulcabras emite o primeiro sinal de que “jogou a toalha” e “vai se juntar aos inimigos”. A decisão da empresa deveria provocar muitas discussões internas no governo brasileiro e no setor empresarial. O Brasil pode enfrentar as indústrias chinesas intensivas em mão de obra? O governo deve proteger e incentivar esses setores? Ou vale a pena apostar as fichas em áreas que o País possui mais competitividade? A transferência de empresas intensivas em mão de obra para países de baixo custo é uma tendência natural a medida que os países se desenvolvem. Mas o Brasil pode abrir mão desses empregos?

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