Inflação: a Argentina ensina o que NÃO fazer

Raquel Landim

08 de fevereiro de 2013 | 14h22

As notícias que vêm da Argentina são assustadoras. Parece que a cada dia o país vizinho e sócio do Mercosul dá mais um passo rumo ao abismo.  Nesta semana, o governo Kirchner anunciou que os preços de alimentos e eletrodomésticos estão congelados por dois meses.  O secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, ordenou por telefone aos supermercados e lojas de eletrônicos que deixem de fazer seus tradicionais anúncios de oferta nos jornais e na TV, relata o correspondente do Estado, Ariel Palacios.

Uma medida tão inócua quanto o próprio congelamento de preços.”O que vai mudar nos 60 dias em que os preços estão congelados? Absolutamente nada. Os problemas de fundo da economia argentina seguem sem solução”, disse ao blog Dante Sica, ex-secretário de Indústria da Argentina e diretor da consultoria Abeceb.com. Um dos mais lúcidos analistas da economia argentina, Sica põe o dedo na ferida: “o governo ataca os efeitos e não as causas”.

É dessa maneira que as administrações do casal Kirchner vem lidando com os problemas econômicos. Se faltam dólares para fechar as contas externas, é hora de restringir as importações. Não adiantou? Vamos impedir a população de comprar dólares. Se a inflação dispara, o remédio é maquiar os indicadores e forçar os setores a fazer acordos de preços, que não são cumpridos. A mais nova “inovação” argentina é um congelamento de preços.

Dante explica que a Argentina tem um problema grave em sua balança de pagamentos. Por falta de segurança jurídica, as empresas do setor de energia não investiram e hoje o país gasta “rios” de dólares para garantir a oferta de petróleo e gás. Isso drena as reservas e gera um enorme déficit fiscal. Para financiar esse déficit, o Banco Central emite  moeda, injetando dinheiro na economia. A demanda cresce e a oferta não acompanha. O resultado é uma inflação que hoje supera os 20%.

O problema é ainda mais grave porque faltam indicadores de inflação para balizar a economia por conta da maquiagem dos índices. “Simplesmente não dá para ajustar as expectativas a um número confiável”, diz Dante. O que isso significa na prática? Sem saber em que ritmo evolui a inflação do país, indústria, varejo e prestadores de serviços acabam aplicando reajustes de preços acima da inflação. É o famoso arredondamento, que é sempre para cima. Assim, a inflação realimenta a si própria. O Brasil já viu esse filme.

Por aqui, a inflação também preocupa. O IPCA está perto de 6% no acumulado de 12 meses, um porcentual alto, mas bem longe dos 20% da Argentina. O governo brasileiro também tenta “administrar o índice”, mas com medidas muito mais justificáveis, como a desoneração da cesta básica ou a redução do preço da energia. Não é o caso de defender a administração Dilma, já que a história ensinou ao Brasil que inflação é uma “onça que não se cutuca com vara curta”. Mas não dá para negar que a situação é infinitamente melhor que no nosso parceiro do Mercosul.

Há alguns anos atrás, quando a Argentina crescia em ritmo robusto, algumas vozes no Brasil defenderam o “modelo econômico” do vizinho como um exemplo a ser seguido. Felizmente essas vozes hoje emudeceram.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.