Mercosul-UE: agora vai?

Raquel Landim

18 de outubro de 2010 | 15h04

Diplomatas do Mercosul e da União Europeia definiram um cronograma para as negociações entre os dois blocos. Serão quatro reuniões: novembro em Brasília, março em Bruxelas, abril ou maio em Assunção, junho ou julho em Bruxelas. Pode não parecer muita coisa, mas no mundo diplomático é um sinal claro de os dois lados estão comprometidos em, finalmente, fechar esse acordo. Se tudo correr bem, isso significa que a maior área de livre comércio do mundo pode surgir em meados do ano que vem.

As negociações entre o Mercosul e a União Europeia começaram em 1999, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. No início, eram apenas uma reação dos europeus a investida dos Estados Unidos com a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Em 2003, primeiro ano do governo Lula, o acordo esteve muito perto de ser fechado, mas esbarrou na resistência de franceses e argentinos, que não queriam abrir seus mercados agrícola e industrial, respectivamente.

Ficou tudo em banho maria por mais de seis anos. Com a “morte” da Alca, os europeus perderam a motivação.  O Itamaraty também ficou desinteressado e preferiu jogar todas as fichas na Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Em maio deste ano, as negociações foram retomadas. O acerto da semana passada é o primeiro sinal objetivo de que o acordo pode sair do papel. O que mudou?

O mundo foi atingido pela maior crise desde a década de 30. Países como Alemanha e Reino Unido precisam desesperadamente elevar suas exportações se quiserem voltar a crescer e, para isso, parecem dispostos a enfrentar a resistência da França. O interesse aumenta ainda mais se o prêmio é o mercado brasileiro, um dos poucos que cresce com vigor.

A dúvida que começa a surgira agora é: e o Brasil, ainda quer esse acordo?

Nos últimos anos, a indústria brasileira reclamou sistematicamente da falta de acordos de livre comércio com países ricos. Criticou duramente o Itamaraty, acusou o governo Lula de misturar política externa e política comercial, e apontou a União Europeia como um dos mercados preferenciais. Agora que a negociação realmente parece que vai andar, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) enviou uma carta aos ministros responsáveis dizendo que é preciso ter muita “cautela”. E está pressionando fortemente para que o conteúdo não seja sacrificado pelo prazo. É uma reviravolta. De novo, o impacto da crise. O real forte tornou o produto importado mais competitivo e o Brasil entrou no radar dos exportadores ao redor do mundo.

É hora de agir com calma e utilizar o poder de barganha que a situação dá ao Brasil. Primeiro: se os europeus querem esse acordo, vão ter que pagar caro, o que significa abrir significativamente seu protegido mercado agrícola para os competitivos produtores brasileiros. Segundo: a indústria brasileira vai precisar de prazos longos para a redução das tarifas de importação, ou seja, mais de 10 anos para alguns setores. Se o governo souber negociar e a indústria tiver serenidade para avaliar os ganhos futuros, pode ser uma ótima oportunidade.

p.s: Não acredito que as eleições vão influenciar nessa negociação, independente de quem ganhar. Nesse final de mandato, Lula já anunciou que o acordo com a UE é prioridade da política comercial – e um eventual governo Dilma Rousseff seria uma continuação. José Serra criticou várias vezes o governo pela falta de acordos bilaterais – não iria barrar o mais importante deles.

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