Na briga entre governo e montadoras, perde o consumidor

Raquel Landim

20 de setembro de 2011 | 15h31

Na teoria, o plano do governo fazia sentido. Criar um regime que estimulasse as montadoras multinacionais a produzir no País e, principalmente, a desenvolver tecnologia localmente. O setor automotivo é um dos mais importantes da indústria: além de gerar bastante emprego, possui uma longa cadeia de produção, estimulando fábricas de autopeças, siderúrgicas, varejo, etc.

Só que no lançamento da política industrial, Brasil Maior, a coisa já começou errado. O governo acenou com uma redução do Imposto de Produtos Industrializados (IPI) para as montadoras até 2016. Desde o ínicio da década de 90, mexer no IPI parece ser a única arma para lidar com esse setor. É um pleito eterno das montadoras, porque afeta diretamente suas margens de lucro, mas, com certeza, existem alternativas mais criativas.

O anúncio foi feito e só então as negociações começaram – mais uma jabuticaba brasileira. O governo esbarrou então na forte resistência das montadoras a adotar qualquer contrapartida. As empresas queriam desoneração fiscal, mas recusavam a comprometer uma parcela do  faturamento com pesquisa, não aceitavam uma meta de eficiência energética, não ofereciam contrapartida aos trabalhadores, não garantiam queda de preços ao consumidor. Esse setor é uma caixa preta. Como as montadoras não revelam seus resultados no Brasil, é impossível saber com que margem de lucro trabalham.

E as empresas começaram a pressionar. Ao mesmo tempo em que negociavam com o governo, emendaram feriados e deram férias coletivas aos operários, criando factóides. Os dados da própria indústria mostram que as vendas estão acima do patamar do ano passado – que já foi recorde. Ou seja, o excesso de estoque é resultado de um planejamento incorreto das empresas, não de um mercado em crise.

Há 15 dias, o Estado já publicava que o governo devia desistir de reduzir o IPI por causa da resistência das montadoras e estudava elevar o imposto para os importados – o que de fato ocorreu. “Não querem nem reduzir os preços ao consumidor. A redução do IPI vai ser apenas para elevar as margens de lucro”, disse uma alta fonte do governo federal ao blog na época. Só que a emenda saiu pior que o soneto.

Os importadores de veículos e montadoras que agregam menos de 65% de peças locais estão pagando hoje 30 pontos porcentuais a mais de IPI – o que pode gerar um aumento de 28% nos preços desses carros (como admite o próprio o governo). Para escapar do imposto maior, foi exigido que as montadoras invistam 0,5% do seu faturamento em pesquisa. É tão pouco que não dá para acreditar que ainda não faziam isso. Nenhuma meta de eficiência energética, nenhum compromisso com os trabalhadores.

O pacote veio sob medida para agradar as montadoras instaladas há mais tempo no País e sobretaxar coreanos e chineses. Hyundai e Kia são sucessos globais, porque fabricam carros excelentes, e no Brasil não estava sendo diferente. Aumentaram suas vendas e caíram nas graças do consumidor de alta renda. Agora os chineses também começaram a chegar, com carros de qualidade duvidosa, mas um mérito: vendem barato.

Os chineses ainda representam uma fatia ínfima das vendas de carros no Brasil. Mas incomodam tanto porque balizam preços no segmento popular – até agora um feudo das grandes montadoras. As montadoras chinesas oferecem carros com todos os opcionais incluídos pelo mesmo preço ou até mais baratos que modelos “sem nada” das concorrentes. O consumidor não é bobo. Fiat, GM, Ford, Volks – todas tiveram que baixar um pouco seus preços e reduzir suas margens de lucro.

No anúncio da alta do IPI, o ministro Guido Mantega disse que as montadoras assumiram o compromisso de não elevar preços. Ontem, Cledorvino Belini, presidente da associação do setor e da Fiat,  disse que não é bem assim. “Se houver compromisso de preços é cartel, mas os preços não vão subir porque há competição”. Hum…Já dá para imaginar a ladainha para justificar os aumentos: reajuste do preço do minério de ferro e do aço, energia mais cara, dissídios para os trabalhadores – tudo menos o IPI maior dos importados.

Faz tempo que o setor vinha tentando elevar a proteção contra os carros importados. A tarifa de importação já é 35% – máximo permitido pela OMC. As montadoras chegaram a estudar se solicitavam um processo de dumping contra os coreanos, mas não encontraram evidências. Pediram a Receita Federal para investigar subfaturamento, novamente sem sucesso. Daí decidiram resolver no lobby e venceram – amparadas no discurso mais protecionista do governo Dilma. Na briga entre o governo e as montadoras, perdeu o consumidor.

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