O esvaziamento da proposta francesa no G-20

Raquel Landim

27 de abril de 2011 | 12h54

No início do mês, o blog esteve em Paris com um grupo de jornalistas brasileiros, a convite do ministério das Relações Exteriores da França. Em discussão, os temas relevantes para a presidência francesa no G-2o: prevenção de catástrofes climáticas, economia verde e regulação dos preços das commodities agrícolas. O G-20 se tornou a nova instância máxima de discussões econômicas do planeta, reunindo os países mais ricos e os grandes emergentes.

Conversamos com diversas autoridades francesas e, por e-mail, falei também com fontes no Brasil. O balanço foi surpreendente: a polêmica proposta francesa de regular os preços das commodities está sendo esvaziada, para conquistar o apoio de países como Brasil, Estados Unidos e até mesmo de outras nações da Europa. A formação de estoques reguladores globais praticamente foi descartada, enquanto ganha força o estabelecimento de um mecanismo menos ambicioso de troca de informações para tornar os mercados mais transparentes.

Segundo fontes do governo brasileiro, depois de mensagens iniciais ambíguas, os franceses se comprometeram nas conversas preparatórias dos técnicos a descartar a formação de estoques reguladores ou qualquer controle de preços. O porta-voz do ministério das Relações Exteriores da França, Bernard Valero, disse ao grupo de jornalistas brasileiros que o objetivo não é trazer uma proposta pronta, mas incentivar a discussão sobre a necessidade de reduzir as mudanças abruptas nos preços dos alimentos para que os países cheguem a um consenso até novembro, quando ocorre a reunião do G-20 em Paris.

O recuo dos franceses é estratégico, porque o tema é muito polêmico e a proposta corria o risco de naufragar se não fosse flexibilizada. Negociadores dos Estados Unidos reclamam que a criação de estoques reguladores é uma prerrogativa de cada país. A União Europeia apoia formalmente a proposta, mas um negociador europeu confidenciou que a UE não acredita que a criação de estoques reguladores seja eficaz.  O governo brasileiro é contra a formação de estoques reguladores, mas não tem dificuldade em discutir instrumentos de regulação do mercado futuro de commodities.

Extraoficialmente três opções são as mais citadas em Paris para resolver o problema: criar estoques reguladores, regular os mercados de derivativos agrícolas e aumentar a transparência das informações de oferta e demanda dos produtos. A primeira opção já foi praticamente descartada, a segunda é alvo de controvérsia e não está claro com que mecanismos a França pretende fazer isso, enquanto a terceira encontra maior respaldo entre os outros países, inclusive dentro da UE.

A França está empenhada em transformar sua presidência do G-20 em um sucesso por questões domésticas. Com a popularidade em baixa, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, corre o risco de ficar fora do primeiro turno das eleições de 2012, conforme as pesquisas mais recentes. Ao contrário do Brasil, onde as questões externas ficam em segundo plano nas eleições, o fortalecimento de Sarkozy como líder internacional pode angariar o voto dos indecisos.

“A redução da volatilidade dos preços agrícolas se tornou a única proposta nova e concreta da França na presidência do G-20”, diz Patrick Messerlin, professor da prestigiosa Universidade Sciences Po. Ele acredita que Sarkozy aproveitou a alta dos preços agrícolas para transformar uma preocupação interna e antiga dos franceses com segurança alimentar em uma questão internacional.

O cenário doméstico explica a insistência das autoridades francesas com o tema. O discurso da França é culpar a especulação pelos aumentos recentes dos preços dos alimentos e do petróleo, apesar do crescimento da demanda dos países emergentes. “Você pode especular sobre o preço de um carro, mas não tem o direito de especular sobre uma tonelada de trigo”, disse Valero.

Tudo indica que essa será mais uma discussão internacional que começa com uma retórica inflamada, mas termina alcançando poucos resultados práticos. Para o Brasil, que é um grande exportador de commodities agrícolas, é uma boa notícia.

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