O outro lado do crescimento chinês

Raquel Landim

21 de janeiro de 2011 | 14h54

O forte crescimento da economia da China foi inequivocamente positivo para o Brasil até agora. Graças ao apetite do gigante asiático pelas matérias-primas brasileiras, as exportações quase triplicaram no governo Lula. Em 2003, o País embarcou  US$ 73,2 bilhões para o exterior. Em 2010, foram US$ 201,9 bilhões. 

A China se tornou o principal cliente do Brasil no exterior. Como o país praticamente só compra commodities, os produtos básicos assumiram a liderança nas exportações brasileiras, o que não ocorria desde 1978. Os especialistas questionam a “primarização” da pauta exportadora, mas é inegável a contribuição do saldo comercial para amenizar o déficit em transações correntes (que inclui todas as trocas do Brasil com o exterior, como serviços, viagens e pagamentos de juros).

Na era Dilma, a China pode deixar de ser apenas uma “benção” para o Brasil. Ontem o governo chinês divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresceu 10,3% em 2010. Depois de um primeiro semestre forte, a economia do país asiático tinha desacelerado para “apenas” 9,6% no terceiro trimestre, mas voltou a crescer 9,8% no quarto trimestre, apesar das medidas adotadas por Pequim para conter a inflação. A notícia assustou o mercado e despertou os temores de mais medidas contracionistas na China.

No Brasil, os especialistas começaram a torcer por um “pouso suave” do dragão asiático. A economista-chefe da Galanto Consultoria, Mônica Baurgamten de Bolle, disse ao blog que o impacto da China para a inflação no Brasil deixou de ser desprezível. Explico: a forte demanda chinesa impulsionou os preços das commodities para recordes históricos. No Brasil, esse fenômeno gera um efeito duplo, porque eleva os termos de troca (diferença entre os preços de exportação e importação), mas também pressiona a inflação.

Como o mercado doméstico brasileiro está muito aquecido, qualquer inflação “a mais” é preocupante. Em 2010, o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) subiu 5,91%, bem acima da meta de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com uma contribuição significativa dos alimentos. Neste ano, “a inflação das commodities”, que assombrou o mundo antes da crise, voltou com força.

Há outros fatores que complicam o cenário de inflação no Brasil. No ano passado, o câmbio compensou boa parte da alta das matérias-primas. A medida que as commodities subiam em dólares, arrastando produtos como aço e óleo de soja, a moeda brasileira se valorizava, deixando os preços em reais praticamente estáveis. Com as medidas que o governo vem adotando para brecar a alta do real, esse efeito acabou.

Outro ponto importante: a crise elevou a capacidade ociosa em fábricas no mundo todo, derrubando os preços dos produtos manufaturados globalmente, e o Brasil “importou” essa deflação. Hoje, os países ricos ainda se recuperam devagar da crise, mas na China o cenário mudou. O gigante asiático, que é considerado o chão de fábrica do mundo, começa a enfrentar uma “inflação de salários”. Grandes províncias chinesas concederam reajustes de 20% do salário mínimo em novembro e mais 20% no início deste ano.

“A China vai começar a exportar inflação para o mundo”, prevê Mônica. E o Brasil não está imune.

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