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O pecado da importação

Raquel Landim

16 de abril de 2012 | 20h03

No fim do ano, completo uma década de cobertura do comércio exterior brasileiro. Dei sorte. Foi um período de “boom”. A corrente de comércio do Brasil, que é a soma das exportações e das importações, quase quadruplicou, saindo de US$ 121 bilhões para US$ 482 bilhões. Com a ajuda da alta dos preços das commodities, as exportações brasileiras cresceram 250%. E, graças ao forte crescimento da economia local, as importações avançaram 370%.

Durante esse período, todas as vezes que fiz matéria sobre as importações brasileiras foi um tormento. As empresas não gostam de dar entrevista. Não admitem publicamente que estão importando. Se a companhia for multinacional, é ainda pior. E, quando dão entrevista, as assessorias de imprensa sempre frisam que é momentâneo e que a empresa tem um plano para incrementar o conteúdo produzido no Brasil.

“A importação sempre foi o patinho feio. Parece que importar é pecado”, disse ao blog Alfredo De Goye, presidente da Sertrading, uma das grandes tradings brasileiras. No Brasil, realmente parece que é pecado importar. E o governo Dilma Rousseff está tornando essa imagem ainda mais arraigada ao implementar uma série de medidas protecionistas.

Em matéria publicada no Estadão de hoje, mostramos que os importadores estão se organizando para reforçar seu lobby. Mas o movimento é reativo e essas empresas só mostraram a cara porque seu negócio está ameaçado. Recentemente conversei com um grupo de grandes tradings sobre algumas medidas do governo Dilma. Em 10 anos de reportagens, era a primeira ou a segunda vez que falava com boa parte dessas pessoas.

Ao observar o nome das associações de importadores, dá para perceber que é uma defesa envergonhada da atividade. A associação mais forte hoje se chama Associação das Empresas Comerciais Exportadoras (Abece). E seus representantes gostam de frisar que o comércio exterior das tradings é superavitário para o país – graças, provavelmente, ao bom desempenho das vendas de commodities.

O grupo de lobby dos importadores de tênis passou a se chamar Movimento pela Livre Escolha (Move). A própria entidade reconhece que só ganhou força depois que passou a contar com empresas brasileiras entre os seus sócios. Outro grupo de lobby se chama Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), e representa as grandes varejistas de roupas, como Marisa, Renner, Riachuelo, que contam com vários produtos importados no seu portifólio.

Pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que um em cada cinco produtos consumidos no Brasil são importados. O País ainda continua sendo relativamente fechado, mas os produtos importados ganharam espaço. A visão da indústria nacional – e que parece ser compartilhada pelo governo – é que os produtos importados tiram empregos dos brasileiros.

O comércio exterior é uma via de duas mãos. Nenhum país é capaz de ser autosuficiente. Ter uma economia aberta é uma forma de permitir a entrada de novas tecnologias, forçar as empresas a inovar, e balizar os preços no mercado interno, não permitindo reajustes escorchantes. A importação, portanto, traz vantagens.

É claro que, se não for um comércio justo, também há desvantagens. Para combater práticas desleais, existem regras de defesa comercial. Também é verdade que o câmbio brasileiro está fora do lugar por conta das políticas adotadas pelos países ricos para reanimar suas economias. Mas ceder aos lobbies protecionistas e fechar o Brasil não vai ajudar em nada.

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