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Chávez e um presente de Ano Novo

Raquel Landim

31 de dezembro de 2010 | 15h25

No último dia do ano, o presidente Hugo Chávez deu um presente para os cidadãos da Venezuela, ao unificar as taxas de câmbio do país em 4,3 bolívares por dólar. A medida reduz um pouco as distorções do mercado cambial, que tanto atrapalham a vida dos habitantes do país. A Venezuela convivia com duas taxas oficiais de câmbio: 2,6 bolívares por dólar para a importação de comida, remédios e outros itens essenciais e 4,3 bolívares por dólar para todo o resto. Além de petróleo, o país não produz quase nada e importa praticamente tudo que consome.

É apenas um primeiro passo, porque a Venezuela também convive com um mercado negro de câmbio movimentadíssimo, em que cada dólar vale 8 bolívares. É com esse câmbio que os venezuelanos efetivamente compram a maior parte das coisas que precisam. A rotina dos moradores de Caracas lembra o Brasil dos anos 80, em que as pessoas guardavam dólares embaixo do colchão. Os venezuelanos passam ainda pelo vexame de ver seu cartão de crédito ser recusado no exterior, não porque não tenham dinheiro, mas porque o governo se recusa a liberar as divisas.

De acordo com o ministro de Finanças e Planejamento da Venezuela, Jorge Giordani, o governo decidiu acabar com o câmbio duplo para “simplificar as transações” financeiras e ajudar o país a atingir um crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011. Só que ninguém acredita que Chávez esteja tomando essa decisão pelas razões corretas. O objetivo da desvalorização é  tentar controlar as finanças públicas e o rombo nas contas externas. Com a desvalorização, os dólares obtidos com o petróleo representam mais bolívares.

Os admiradores do coronel fora e dentro do país se recusam a admitir, mas a economia venezuelana está a beira do colapso. Em 2010, o PIB do país recuou 1,9%, após diminuir 3,3% em 2009. Detalhe: ao lado do paupérrimo Haiti, que sofreu um terremoto e passa por intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), a Venezuela foi o único país cuja economia encolheu na América Latina. Com os preços das commodities nas alturas, o ano que termina hoje foi de bonança para o continente.

O problema é que Chávez optou pelo intervencionismo e só tomou decisões erradas. As estatizações de empresas privadas retiraram o vigor da economia. Os gastos públicos desenfreados destruíram as finanças da Venezuela, apesar da entrada maciça de dólares com as exportações de petróleo.  Quando visitei o país alguns anos atrás, cadeiras de roda eram vendidas a preços subsidiados nos mercados bancados pela estatal PDVSA ao lado de murais de fotos de Chávez.

A inflação está descontrada e atingiu 26,9% em 2010 – a taxa mais alta do mundo. Embora vá no caminho certo, o fim do câmbio duplo vai jogar mais água nessa fervura, porque encarece os preços de alimentos e remédios. Segundo analistas políticos, Chávez tomou a medida agora para que o impacto seja diluído até 2012, quando ocorrem as eleições presidenciais nas quais ele vai se candidatar novamente…

Essa é a segunda desvalorização do ano e a quinta desde que o coronel assumiu o poder há mais de uma década. Foi uma medida acertada, porque simplifica a economia, mas como veio pelos motivos errados representa pouca esperança de normalidade para a população local. Chávez brada que melhorou os indicadores sociais e prega o socialismo do século XXI, mas insiste em manter seu país parado no século passado. Pobre Venezuela.

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