Obama e o livre comércio

Raquel Landim

30 de julho de 2010 | 15h14

O presidente Barack Obama está visitando hoje, pela primeira vez, o coração da indústria automotiva americana: Detroit. Os contribuintes americanos gastaram bilhões de dólares para salvar empresas como General Motors e Chrysler na crise, mas esse não é hoje o principal foco de atenção da população local. Eles estão preocupados com o comércio.

No mês passado, Obama anunciou que pretende retomar as negociações para um acordo de livre comércio com a Coreia do Sul, paralisadas desde 2007. O objetivo é selar o acordo em novembro, quando o presidente americano estará em Seul para o encontro do G-20. Detroit é a sede da principal opositora da negociação, a United Auto Workers.

Os poderosos sindicatos americanos são a base do Partido Democrata e foram fundamentais na eleição de Obama, que enfrentou primárias complicadíssimas contra Hillary Clinton, hoje sua secretária de Estado. Desde que assumiu o Salão Oval em meio a uma crise econômica comparável com a Grande Depressão da década de 30, Obama cautelosamente deixou o tema do livre comércio de lado.

A iniciativa de retomar as negociações com a Coreia do Sul foi o primeiro passo importante do mandatário americano em comércio. A Coreia do Sul é um aliado estratégico do país na Ásia – vizinho da problemática Coreia do Norte e da China. Mas não é só a questão política que está em jogo. A comunidade empresarial dos EUA não concorda com a falta de liderança do seu país no livre comércio.

O advogado Jon Huenemann, do escritório Miller & Chavalier Chartered, em Washington, trabalhou por mais de 10 anos no USTR (US Trade Representative, uma espécie de ministério de Comércio). Ele explicou ao blog que a falta de foco de Obama em acordos de comércio não se deve apenas à resistência dos sindicatos. Huenemann afirma que a equipe econômica americana não está convencida que as negociações de comércio valem o sacrifício.

Larry Summers (ex-secretário do Tesouro e um dos principais assessores do presidente) é um exemplo de economista que não acredita que os acordos de livre comércio serão um grande impulso ao ambiente macroecônomico, contribuindo para a criação de empregos. Os benefícios gerados por um acordo são restritos quando comparados com o tamanho da economia americana. Logo, seria melhor gastar capital político com outros temas também espinhosos, mas mais eficientes.

Por outro lado, os acordos são parte de uma estratégia econômica internacional de integração que pode fazer diferença para a competitividade americana no longo prazo. Com sua larga experiência em negociações, Huenemann avalia que a disposição de Obama em seguir em frente como pelo menos um acordo de livre comércio é uma indicação de que o presidente está pronto a dar maior atenção aos anseios da comunidade empresarial e não apenas aos sindicatos. Mas não será facil. “Não é uma situação preto no branco, como você já deve ter imaginado”, disse Huenemann.

 

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