Para o governo de Cristina Kirchner, a Argentina é a Suécia

Raquel Landim

13 de março de 2013 | 14h19

A Vale anunciou a suspensão de um investimento de US$ 6 bilhões na Argentina. O projeto da mina de potássio de Rio Colorado, na província de Mendonza, seria o maior investimento privado no país comandado pela presidente Cristina Kirchner. Em nota ao mercado, a mineradora informou que “no contexto macroeconômico atual, os fundamentos econômicos do projeto não estão alinhados com o compromisso de disciplina na alocação de capital”.

Segundo maior da carteira de investimentos da Vale, o projeto está com 45% das obras concluídas. A mineradora já enterrou US$ 2,2 bilhões em Mendonza e, obviamente, não tinha interesse em perder esse dinheiro, embora esteja vivendo um momento de reavaliação de suas prioridades. A questão central é que não dá para investir na Argentina. Não é viável levar dinheiro ao país e nem tirar os lucros depois – as bases de qualquer investimento.

Para financiar um projeto na Argentina, as empresas têm que internalizar seus dólares na cotação oficial de  5 pesos para cada dólar. Só que os custos estão subindo no câmbio paralelo, que chega a quase 8 dólares por peso. Pelos dados oficiais, a inflação no País é de 10% ao ano. Mas, no mundo real, os custos para as empresas, inclusive salários, sobem cerca de 30%. Na hora de tirar o dinheiro de lá, é outra novela. Aflito com a sangria de dólares, o governo argentino está dificultando de todas as maneiras as remessas de lucros e dividendos.

Dado o tamanho e a repercussão do projeto Rio Colorado para o país, o governo Kirchner fez algo que não costuma ser usual: divulgou uma nota, explicando a sua visão sobre os fatos e jogando toda a culpa na empresa.  Segundo o comunicado publicado no site da Presidência argentina, foi uma decisão “unilateral” da Vale “em razão do encolhimento do negócio da empresa no mundo”, “apesar dos esforços do governo”.

Nas contas do governo argentino, as condições da Vale para manter o projeto representariam um subsídio estatal de US$ 3 bilhões. A nota detalha as medidas solicitadas pela empresa: redução dos compromissos de investimento, recuperação antecipada do IVA, pagamento em bônus da dívida externa em valor nominal e eliminação das retenções de cloreto de potássio. O que o governo argentino não diz é porque a Vale fez esses pedidos. Exatamente por conta das distorções macroeconômicas criadas por um câmbio fictício e pela taxação pesada das exportações.

O drama vivido pela Vale é o mesmo de outras empresas brasileiras que estão na Argentina. Está no centro, por exemplo, de outro grande nó das relações entre os dois países: o acordo automotivo. A Argentina já comunicou ao Brasil que não aceita o livre comércio de veículos no segundo semestre deste ano – o que ninguém que acompanha esse assunto imaginava que ocorreria. Segundo fontes do governo brasileiro, a Argentina pede que mais “etapas da produção” dos carros sejam feita no país. O Brasil solicitou que os negociadores argentinos coloquem no papel o que isso significa.

Uma fonte do setor diz que a Argentina quer, na prática, uma limitação por empresa ou por subsetor. É a mesma aplicação do draconiano US$ 1 para US$ 1 que o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, já impõe a outros setores. Para cada dólar importado, a montadora teria que exportar um dólar. Na prática, querem obrigar os fornecedores de autopeças a se instalarem no país. “Como vamos convencer uma fábrica de autopeças a ir para a Argentina se não consegue levar dinheiro para o investimento e nem tirar os lucros de lá depois?”, diz o representante de uma montadora.

Cristina Kirchner confia, mais uma vez, nos canais políticos para resolver seus problemas com o Brasil. Um encontro com a presidente Dilma Rousseff foi adiado por conta da morte de Hugo Chávez, da Venezuela, e tudo indica que será remarcado assim que possível. Mas talvez a disposição do governo brasileiro a ceder as investidas do vizinho não seja tão grande quanto parece.

Segundo apurou o blog, não haverá declarações públicas contrárias à Argentina, nem retaliações, ou qualquer atitude mais drástica. O governo, entanto, também não vai se esforçar para convencer a Vale a voltar atrás, nem pressionar as montadoras a aceitar um acordo a qualquer custo. Até agora não houve nenhuma declaração de autoridades do governo brasileiro censurando a Vale. E representantes do Brasil acompanharam de perto as negociações da Vale com os argentinos.

“Ninguém quer quebrar a Argentina, mas parece coisa de maluco. Eles negam que exista problema com a inflação ou com o câmbio. Parece que estamos negociando com a Suécia”, diz um interlocutor do governo brasileiro, que acompanhou de perto as reuniões preparatórias para o encontro das presidentes que acabou não ocorrendo. Foram mais de cinco horas de conversa, com representantes de vários ministérios, e poucos avanços. Se Cristina continuar se negando a aceitar a realidade, nem toda a boa-vontade do governo brasileiro vai conseguir ajudar a Argentina.

 

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