Sinais positivos na política externa

Raquel Landim

31 de janeiro de 2011 | 20h21

Desde a vitória de Dilma Rousseff, aparecem indicações de uma inflexão da política externa em relação a era Lula. São sinais tênues e confusos, mas nem por isso deixam de ser alentadores. O ponto mais concreto e bem-vindo é de defesa dos direitos humanos.

Dilma voltou ao tema esta semana, em entrevista a jornais argentinos. “Não vou negociar nos direitos humanos. Não há concessões nessa área”,  repetiu. Antes mesmo de tomar posse, ela já tinha criticado em entrevista ao Washington Post o posicionamento do antecessor e mentor, que se absteve na condenação do apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani. 

A estratégia de Dilma é dirimir as dúvidas que pairavam sob Lula, mas deixando evidente que não é uma postura de alinhamento automático com nenhum outro país. Na entrevista aos correspondentes argentinos, ela cita o caso da iraniana, mas também as torturas praticadas pelos Estados Unidos em Abu Ghraib.

E vale a pena ler com dedobrada atenção a frase final da presidente: “Muitas vezes se utilizam dos direitos humanos não para protegê-los, mas para fazer política, para utilizá-los como instrumento político. Em nome disso, não vou defender quem abusa dos direitos humanos. Mas também não sou ingênua para não ver seu uso político”.

O presidente Lula fez o contrário em várias ocasiões. Por acreditar que os EUA utilizam os direitos humanos como bandeira política para atacar os regimes de Cuba e do Irã, Lula comparou prisioneiros políticos cubanos em greve de fome a criminosos comuns e deixou de repudiar o apedrejamento a sangue frio de uma mulher. Dilma diz que conhece o jogo político, mas não vai cair nessas armadilhas. 

É muito cedo, no entanto, para concluir que a presidente vai abandonar outras bandeiras criticadas pela oposição, como a política de aproximação com os países do Sul e de conflito com os Estados Unidos. Lula utilizou a política externa como moeda de troca com as bases do PT, que engoliram uma política econômica “ortodoxa”, mas ganharam uma política externa “radical”. Ainda não dá para dizer que Dilma vai ser diferente.

Ela não aceitou o convite de Barack Obama para visitar Washington antes da posse. Agora é o presidente americano que vem ao Brasil, aparar as arestas. Os interesses dos Estados Unidos são evidentes. Os EUA estão perdendo espaço para a China na região e o Brasil é hoje o país com o qual conseguem seu maior superávit comercial. Com dificuldades para reaquecer a economia após a crise, a prioridade zero dos americanos é elevar as exportações.

Também é importante observar quem cerca Dilma na política externa. A presidente substituiu Celso Amorim por Antonio Patriota. O atual chanceler é avesso aos holofotes, mas era o braço direito do antecessor. Marco Aurélio Garcia foi mantido como assessor especial de assuntos internacionais do Planalto. Petista histórico, Garcia deu seu recado em entrevista ao colega Sérgio Leo do Valor. “Circula uma série de clichês sobre o diferencial Dilma Lula. Dilma será menos ideológica, mais gerencial, mais técnica, menos política. Balela”.

Só resta pagar para ver.

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