Um terremoto na Argentina

Raquel Landim

27 de outubro de 2010 | 20h30

A morte de Nestor Kirchner é um terremoto para a Argentina. Apesar das duas intervenções cirúrgicas enfrentadas pelo ex-presidente este ano, a notícia pegou a todos de surpresa. Kirchner evitava demostrar o estado frágil de sua saúde, temendo perder poder.

A população está consternada, mas o mercado é implacável e reagiu com euforia. Houve uma corrida para os bônus argentinos e os papéis das empresas do país listadas na bolsa de Nova York subiram em torno de 10%. A interpretação é que aumentaram as chances de vitória da oposição nas eleições do próximo ano, o que poderia significar menos intervencionismo. Será?

Dante Sica, ex-secretário de Indústria e diretor da consultoria Abeceb.com, disse que a reação do mercado foi “desmedida” e “prematura”. “O peronismo pode se reagrupar e mostrar sua força”, afirmou Sica ao blog. Na sua avaliação, muitas dúvidas estão no ar: a presidente Cristina Kirchner vai ter condições de reunir o kirchnerismo em torno de si? os governadores vão apoiar a Casa Rosada ou se voltar contra ela?

O especialista avalia que o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, tende a ganhar espaço dentro do peronismo. Por outro lado, figuras carimbadas da oposição – Julio Cobos (vice-presidente), Eduardo Duhalde (ex-presidente), Elisa Carrió (candidata derrotada da oposição à Presidência) – perdem suas bandeiras, porque lutavam contra Nestor Kirchner.

O ex-presidente comandava a economia com mãos de ferro no governo da sua mulher. Dizem que seguia a arrecadação pública e os gastos com planilhas diárias, que determinava o valor do dólar, manipulava os índices de inflação e tudo mais que se consegue imaginar.

Com a sua morte, a tendência é uma descentralização maior das decisões econômicas entre os principais ministros. Mas não dá para imaginar que isso vai significar menos intervencionismo do governo no curto prazo. Como será a Argentina pós-Nestor Kirchner? Difícil saber. O país ainda está atordoado pelo terremoto.

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