Venezuela: é a economia, estúpido!

Raquel Landim

23 de julho de 2010 | 17h08

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, rompeu relações diplomáticas ontem com a Colômbia e ordenou “alerta máximo” na fronteira. Foi uma reação às acusações do governo colombiano de que a Venezuela dá abrigo aos guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). 

Mais uma vez, a desgastada máxima da campanha de Bill Clinton para a presidência dos Estados Unidos em 1992 é verdadeira: “É a economia, estúpido!”. As relações entre Chávez e o presidente colombiano, Álvaro Uribe, sempre foram ruins, mas dificilmente o venezuelano teria chegado a esse extremo se a economia do seu país não estivesse a caminho da ruína.

Estive na Venezuela no final de 2008 para cobrir as eleições legislativas. A crise global já era uma realidade e os prognósticos para a economia local eram sombrios, após um período de bonança garantida por cotações do petróleo acima de US$ 100 o barril.

A perspectiva era que o preço do petróleo desabasse e levasse a economia venezuelana junto. A cotação do óleo recuou significativamente, mas ainda se mantém em patamares razoáveis. Ainda assim, a economia da Venezuela vai de mal  a pior. E as expectativas sombrias da época se provaram otimistas.

Em dezembro de 2008, a Ecoanalítica, uma das consultorias mais respeitadas do País, previa que o PIB avançaria 6% naquele ano e apenas 2% em 2009. Infelizmente estavam errados. O PIB venezuelano cresceu 4,8% em 2008, caiu 3,3% em 2009 e deve despencar algo entre 4,1% e 6% este ano! O dado assusta porque a América Latina está se recuperando bem da crise e deve crescer 4,5% em 2010.

O sócio-diretor da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, publicou recentemente em sua coluna no Estado um excelente artigo sobre a economia venezuelana. Na sua avaliação, a situação da Venezuela é “fruto de deterioração em várias frentes”. A produção da petróleo caiu de 3 milhões de barris/dia em 2000 para 2,3 milhões entre fevereiro e maio desse ano – uma consequência dos baixos investimentos e da perda de foco da PDVSA, que passou a financiar a “revolução socialista” de Chávez.

Com menos petróleo a preços mais baixos, a Venezuela passou a dispor de menos divisas em moeda forte. As reservas caíram de US$ 32 bilhões em 2008 para US$ 17 bilhões hoje. As autoridades apertaram ainda mais os freios contra as importações, escolhendo o que pode ou não ser trazido ao País. Começou a faltar produto nas prateleiras, o mercado paralelo de câmbio ganhou espaço, e a moeda se desvalorizou ainda mais. A inflação do país já atinge 40% ao ano.

Na minha visita a Venezuela, presenciei o momento em que o importador  José Ramón Bargiela comunicava à gerente de uma loja de roupas infantis no Shopping Sambil (o principal de Caracas) um reajuste de 10% nos produtos, porque o fabricante peruano havia perdido a licença de importação concedida pelo governo e agora a mercadoria chegaria pelo câmbio paralelo.

Perguntei a ele quais eram suas expectativas para a economia da Venezuela. “No ano que vem (2009), vão subir os impostos, a inflação vai aumentar e quem sabe até vão desvalorizar a moeda”. Acertou na mosca, melhor que analistas renomados. Ele só não previu que essa derrocada econômica levaria Chávez a romper relações com a Colômbia em busca de um inimigo externo para desviar as atenções.

 

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