A tal da felicidade

Denise Juliani

26 de março de 2012 | 20h27

Dinheiro traz felicidade? “Não”, diriam os românticos. “Não traz, manda buscar”, diriam os cínicos. Mas a tal felicidade pode ser medida? Este é o desafio a que se propôs a Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo ao anunciar na semana passada a criação do índice Felicidade Interna Bruta (FIB). A FGV vai desenvolver a metodologia para a apuração deste indicador considerando as diferenças sociais e culturais do território brasileiro.

A proposta faz parte de um movimento internacional que busca alternativas para medir o desenvolvimento econômico de forma mais eficiente do ponto de vista humano que o Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos valores de todos os bens e serviços produzidos em um determinado país durante um ano.

O conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) surgiu em 1972 quando o então rei do Butão declarou que “a Felicidade Interna Bruta é mais importante do que o Produto Interno Bruto”. Com o auxílio da nova ciência da hedônica (estudos sobre a felicidade), o pequeno reino desenvolveu um questionário com perguntas objetivas e subjetivas para medir estatisticamente o FIB e utiliza o levantamento para a elaboração de políticas públicas, tanto em nível nacional quanto local. O conceito foi adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, de lá para cá, foram realizadas várias conferências internacionais sobre FIB no próprio Butão e em países como Canadá, Tailândia e também no Brasil, em 2009.

O economista norte-americano Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2001, é um dos estudiosos do assunto. Em um de seus escritos sobre o tema, ele cita um exemplo dramático para evidenciar o perigo de se medir o desenvolvimento apenas pelo aspecto econômico e não incluir outros indicadores igualmente importantes na vida dos indivíduos. “Os EUA têm dez vezes mais pessoas encarceradas per capita do que qualquer outro país industrializado. Isso contribui para aumentar o nosso PIB, porque precisamos gastar dinheiro encarcerando essas pessoas. Em alguns Estados, estamos gastando tanto na construção de prisões quanto gastamos em universidades. Isso é bom para o PIB, mas qualquer métrica de bem-estar da sociedade diria: ‘não é bom ter tantas pessoas em prisões’. E é um sintoma de algo disfuncional.”

O FIB pretende substituir o PIB? Não. A intenção é que ele sirva para complementar o PIB, que há 70 anos vem sendo usado para medir o progresso social.

O mundo mudou e hoje a principal crítica ao PIB é que ele não contabiliza os custos dos danos ambientais nem outros fatores que afetam a qualidade de vida das pessoas. O professor Fábio Gallo, um dos coordenadores do projeto do FIB brasileiro, sintetiza : “sociedade feliz é aquela em que todos têm acesso aos serviços básicos de saúde, educação, previdência social, cultura e lazer”. É um bom começo.

Denise Juliani

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