Cautela, mas sem estragar a festa

Denise Juliani

21 de novembro de 2011 | 19h28

O balanço do mercado de trabalho divulgado pelo governo na semana passada mostra um cenário menos favorável em relação aos meses anteriores: foi o pior outubro desde o início da crise de 2008. Diante disso, o governo já admitiu que não deve conseguir cumprir a meta de criar três milhões de empregos formais (com carteira assinada) este ano.

Como ocorre no universo ao nosso redor, onde tudo está relacionado em uma grande teia de interdependências, na economia não poderia ser diferente. O surgimento de novas vagas é um termômetro da atividade econômica. Não por acaso, também na semana passada, o governo reduziu de 4,5% para 3,8% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a soma da riqueza gerada no País.

Os especialistas do mercado financeiro estão mais pessimistas e acreditam que a expansão da economia este ano será ainda menor, de 3,16%.

Outro indicador desfavorável: a projeção da área econômica do governo para a inflação de 2011 foi elevada, indo dos 4,5% previstos anteriormente para 6,4%.

Para complicar mais um pouco, as famílias brasileiras estão mais endividadas que nunca. Segundo dados do Banco Central, estamos no nível mais alto de nossa história financeira: pessoas físicas devem cerca de R$ 715,19 bilhões aos bancos. Nesta conta entra todo tipo de empréstimo tomado do sistema financeiro (cheque especial, cartão de crédito e até os mais longos, como imobiliário e de veículos).

Nas contas do Banco Central, cada brasileiro deve hoje 41,8% da soma dos salários de um ano inteiro. Há pouco mais de três anos, quando começou a crise de 2008, os brasileiros deviam o correspondente a 32,2% de sua renda de 12 meses.

Esta é uma fórmula de calcular o endividamento, que é representado pelo total das dívidas de uma família em relação à sua renda somada em um ano. Seria como se, na média, hoje cada brasileiro devesse R$ 3.724 aos bancos. No início da crise de 2008, esse número era de R$ 2.093.

A dívida de longo prazo em geral envolve a compra de um bem de maior valor como casa ou carro. É um compromisso planejado e que permite a aquisição de coisas que ajudam a formar o patrimônio da família. Em caso de dificuldades, o bem pode ser vendido para fazer dinheiro. O perigo mora nas dívidas para aquisição de bens de consumo como roupas e equipamentos eletrônicos, ou pior, as causadas por descontrole financeiro.

Em resumo, queda no ritmo de criação de empregos, crescimento menor da economia, inflação em alta e endividamento maior entre os brasileiros desenha um cenário de cautela para o ano que vem. Uma péssima notícia para quem já começa a fazer a lista de compras de Natal.

Ainda não parece ser o caso de apertar o cinto e estragar a festa, mas é importante que os gastos de fim de ano sejam muito bem planejados para que não pesem demais no orçamento do ano que vem.

Denise Juliani

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