Menos emprego, mais trabalho

Denise Juliani

30 de julho de 2012 | 16h47

O emprego formal, com carteira assinada, está acabando. E não se trata simplesmente de um reflexo da crise iniciada em 2008 e que abateu milhares de postos de trabalho (principalmente nos Estados Unidos e na Europa). É uma tendência mundial que vem se desenhando há pelo menos 30 anos. Desde a década de 1970, economistas e estudiosos abordam essa perspectiva, que se acentua à medida que se popularizam os meios digitais.

Não significa necessariamente que faltará trabalho. Afinal, o emprego é bem mais recente que o trabalho. O trabalho existe desde que o homem começou a usar ferramentas e utensílios e a transformar a natureza. Já o emprego é um conceito recente na história da humanidade, da época da Revolução Industrial. O emprego “é a relação estável, e mais ou menos duradoura, que existe entre quem organiza o trabalho e quem realiza o trabalho. Uma espécie de contrato no qual o possuidor dos meios de produção paga pelo trabalho de outros, que não são possuidores dos meios de produção”, define o Dicionário do Pensamento Social do Século XX (Editora Zahar).

O fato é que o emprego com carteira assinada e no qual o funcionário atua por longos anos até se aposentar vem se retraindo e dando lugar a novas relações entre contratante e contratado, como o trabalho temporário, o desenvolvimento e a execução de um projeto e também a atividade autônoma. Mais ou menos como aconteceu nos últimos 30 anos, com o processo de terceirização: era uma novidade e encontrava grande resistência entre os sindicatos e hoje é parte normal do cenário econômico.

As grandes fusões e aquisições de companhas tendem a se intensificar, ampliando a concentração em vários ramos e, com isso, as vagas vão se enxugando no grande processo de ‘sinergia’. Com isso, perdem-se empregos, mas a expectativa é que se criem ‘trabalhos’. Especialistas dizem que, assim como aconteceu com a terceirização, as empresas cada vez mais repassarão funções alheias a suas operações para indivíduos e empresas de menor porte.

A crise financeira internacional iniciada em 2008 foi um divisor de águas e, segundo especialistas, as companhias agora enfrentam o desafio de se reinventar e uma das características dos novos tempos é a descentralização, favorecida pela queda nos custos de comunicação. Mas, além de abrir espaço para que funcionários trabalhem mais em casa, reduzindo custos de ambos os lados, a tecnologia favorece a ampliação de novas formas de relacionamento entre empresas e seus vários tipos de parceiros.

Nos próximos anos, as carreiras se tornarão cada vez mais flexíveis e se sairão melhor pessoas que também tiverem maior versatilidade para atuar em várias frentes. Além disso, qualificação será uma necessidade permanente e não apenas voltada para atividades dentro da estrutura hierárquica das companhias, mas também para o desenvolvimento de empreendimentos individuais.

Denise Juliani

(publicado no Jornal da Tarde em 30/07/2012)

Tudo o que sabemos sobre:

empregoqualificaçãotecnologiatrabalho

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.