Petrobrás, o preço da incerteza

Denise Juliani

23 de agosto de 2010 | 16h10

As ações da Petrobrás, uma das mais importantes e queridas do investidor brasileiro, caem 25,38% desde o começo do ano. É o preço da incerteza.

A fonte de insegurança do investidor é a indefinição em torno da capitalização da empresa. Prevista inicialmente para julho, foi transferida para setembro e até agora não saiu do papel. Na sexta-feira, o ministro da Fazenda Guido Mantega garantiu que o novo prazo será mantido. O mercado acha que não dá mais tempo e as ações da empresa patinam. O que ninguém duvida é que as ações da companhia são um ótimo investimento, mas o momento não é bom.

A Petrobrás precisa de US$ 224 bilhões nos próximos cinco anos para investir na exploração do petróleo da chamada camada pré-sal. As reservas de petróleo das profundezas do oceano, estimadas em 50 bilhões de barris, são a senha para transformar o Brasil em um gigante da exportação de petróleo e a Petrobrás na maior empresa de capital aberto do setor no mundo. Isso tudo vai render muito dinheiro ao País e aos acionistas da companhia.

Mas para alcançar esse tesouro escondido no fundo do mar a companhia precisa investir aqueles bilhões de dólares. E quer levantá-los com a capitalização, operação na qual a empresa emite ações que são compradas por seus acionistas.

Aí a coisa começa a complicar, pois o Tesouro Nacional, que detém 32% das ações da Petrobrás, não tem o dinheiro necessário para entrar com sua parte no aumento de capital. Assim, decidiu-se que em vez de dinheiro, o Tesouro entraria com o petróleo (aquele que ainda está no fundo do mar).

Para driblar entraves burocráticos e legais, o governo apelou para um recurso chamado cessão onerosa. Em vez de dinheiro, a União pagaria as novas ações com títulos do Tesouro ancorados em 5 bilhões de barris de petróleo. Conforme o petróleo fosse sendo produzido e vendido, a Petrobrás devolveria ao Tesouro os títulos. Os demais acionistas (inclusive os investidores dos fundos FGTS Petrobrás) entrariam com a diferença, só que em dinheiro.

Acontece que a operação empacou porque a quantia a ser desembolsada pelos demais acionistas depende da cotação destes 5 bilhões de barris de petróleo. Para chegar ao valor dos barris, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) contratou a uma empresa e a Petrobrás outra. A primeira disse que cada barril vale pelo menos US$ 10. A segunda estimou em US$ 5 no mínimo.

Essa divergência criou um impasse. A US$ 5 por barril, a parte da União é US$ 25 bilhões e os minoritários entrariam com US$ 50 bilhões, mas com o barril a US$ 10, o desembolso dobra. Em qualquer lugar do mundo US$ 100 bilhões é muito dinheiro. Pelas estimativas do mercado, US$ 5 por barril estariam mais próximos da capacidade de o minoritário participar da capitalização.

Os analistas se perguntam se haverá dinheiro e interesse suficientes para que a operação de fato ocorra e a Petrobrás possa fazer os investimentos sem os quais o sonho de ser um grande produtor mundial ficará mesmo embaixo d’água.

Denise Juliani

(Publicado no Jornal da Tarde)

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