Uma reserva para a aposentadoria

Denise Juliani

18 de outubro de 2010 | 18h35

Dois eventos recentes envolvendo o tema aposentadoria chamam a atenção. Um deles é a onda de protestos dos cidadãos franceses contra a reforma na previdência social proposta pelo governo. Desde setembro, os franceses estão realizando greves e passeatas contra a intenção do governo de elevar de 60 para 62 anos a idade mínima a partir da qual o cidadão pode se aposentar.

No pacote também está a ampliação de 65 para 67 anos da idade em que ele, já aposentado, passe a receber seu benefício pelo teto da remuneração. E piora mais um pouco: o trabalhador francês, que atualmente contribui por 40 anos para a previdência, terá elevado seu tempo de recolhimento para 41 anos e três meses.

Na opinião de especialistas, a luta dos franceses será em vão. A França é praticamente a última nação da Europa que ainda não mexeu nesta questão – a idade mínima de 60 anos foi definida há quase 30 anos. Seus vizinhos de continente se aposentam bem mais tarde. No Reino Unido, Alemanha, Holanda e Dinamarca é de 65 anos e já se estuda nova alta.
Tudo por causa do aumento na expectativa de vida dos trabalhadores, que pressiona o sistema de previdência social e ameaça comprometer o pagamento dos benefícios no futuro.

No mundo todo, o discurso é o mesmo. Os governos querem cortar benefícios sociais para equilibrar as contas. No caso dos países europeus, a crise que começou em setembro de 2008 aumentou essa pressão.

Já viu este filme antes? Eu também. No Brasil, as tentativas de mudança na previdência social vem de longe e as motivações são de diferentes ordens.

Mas outro ponto que me chamou a atenção foi a afirmação da técnica de planejamento e pesquisa do Ipea, Ana Amélia Camarano, que reproduzo aqui: “o envelhecimento da população brasileira deve levar o País a aumentar a idade mínima para a aposentadoria e acabar com a aposentadoria compulsória”.

A afirmação foi feita na semana passada, durante a divulgação de um estudo sobre as tendências demográficas, do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. O estudo mostra que a população idosa (60 anos ou mais), que era 7,9% da população brasileira em 1992, passou a ser 11,4% em 2009.

Ana Amélia afirmou que o envelhecimento da população vai requerer medidas como a revisão da idade mínima para aposentadoria. “Estamos vendo isso na França, que está praticamente parada, e também é uma tendência para o Brasil”, explicou.

Ou seja, é uma questão de tempo para que as condições dos aposentados mudem por aqui, e para que a conta feche, com certeza a mudança será para pior. Para não ficar nas mãos do governo, é importante pensar na previdência social apenas como um complemento e investir na formação de uma boa reserva financeira ao longo da vida.

Que tal usar o 13º salário ou a restituição do IR para começar a formar este patrimônio?

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