Cuidado com essas duas enganações do mundo dos investimentos

Sílvio Guedes Crespo

27 Setembro 2017 | 00h00

[Veja meus conteúdos também no YouTube]

Caro leitor, para estrear minha volta como blogueiro do Estadão, escolhi falar de uma coisa que me incomoda muito: as propagandas enganosas sobre investimentos.

Elas têm proliferado na internet em um ritmo que eu não conseguiria imaginar.

Uma vez alguém começou, ganhou muito dinheiro, e agora os concorrentes não querem ficar para trás. Parece até uma disputa entre quem vai oferecer o investimento mais milagroso para as pessoas.

Acredito que muita gente bate o olho nessas promoções e já saca que é roubada. 

No entanto – e é isso que me incomoda mais – a linha entre a propaganda enganosa e a honesta está deixando de ser clara.

Em outra ocasião, já falei sobre a pegadinha dos investimentos acima de 120% do CDI. Inclusive neste vídeo eu explico quais perguntas você deve fazer ao seu gerente ou assessor de investimentos para saber se um investimento acima de 120% do CDI é vale a pena ou não para o seu caso. 

Mas não é disso que vou tratar neste post. Aqui, vou explicar outros dois tipos de enganações sobre investimentos que tenho visto na internet.

E se você recebeu algum e-mail ou propaganda que achou suspeito e não sabe se tem alguma pegadinha escondida, mande para mim!

Vou escolher um ou mais casos de leitores para comentar, não sei se neste espaço, ou se no meu blog pessoal, o Dinheiro pra Viver.

E se você não tem nenhum caso para me mandar, mas quer receber um e-mail quando sair, basta preencher este cadastro e deixar a parte da mensagem em branco.

Então vamos lá. Seguem dois tipos de enganações sobre investimentos que recebi recentemente – e que você também pode ter recebido.

Enganação 1

Produtos ou cursos para “garantir a aposentadoria”, “garantir uma renda passiva” ou “garantir” qualquer tipo de retorno

Se você receber um e-mail desse tipo, ou se vir no Facebook ou em qualquer lugar uma propaganda dizendo de um curso que vai “garantir” uma aposentadoria ou qualquer coisa, tome cuidado.

Em casos desse tipo, sugiro que você envie um e-mail para o vendedor, perguntando: “Se eu seguir todas as suas instruções e não tiver o retorno previsto, você me pagará a diferença?”

Caso o vendedor responda que pagará e que isso estará em contrato, aí, sim, ele estará garantindo a sua aposentadoria, a sua renda passiva ou o que for.

Do contrário esta será apenas uma promessa sem compromisso. Primeiro, porque se a promessa for investir em ações, o grau de risco (ou seja, de imprevisibilidade) é alto demais para se garantir qualquer coisa.

Em segundo lugar, mesmo se a promessa for aplicar em papéis de risco mais baixo, como o Tesouro Direto, o resultado não é garantido.

Por exemplo, o título Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 está pagando um rendimento de 5,05% acima do IPCA, ou seja, acima da inflação. Isso quer dizer que esse título com toda a certeza vai te pagar, até 2045, um retorno acima da inflação, certo? Errado!

Está errado porque o Imposto de Renda que você pagar não incidirá sobre os 5,05%, e sim sobre o rendimento total do papel, que é a inflação e mais os 5,05%. Dependendo de como a inflação se comportar no período, o IR pode comer a maior parte do seu rendimento, ou mesmo todo ele.

Veja, não estou dizendo que o Tesouro Direto é ruim, nem que ele não possa fazer parte de uma carteira de aposentadoria. Ao contrário. Eu uso Tesouro Direto na minha carteira. O que está errado é dizer que qualquer investimento, mesmo o Tesouro, vai “garantir” a aposentadoria de alguém. No máximo, vai aumentar as chances de se ter uma aposentadoria razoável.

Enganação 2

Propaganda de um produto travestida de “recomendação”

Isso tem sido muito comum em blogs que parecem ser “independentes”.

Vários deles usam um esquema chamado “marketing de afiliados”. Esse tipo de marketing funciona da seguinte maneira: um blogueiro ou youtuber “indica” o produto de um terceiro e dá um link para você clicar e comprar.

Se você comprar pelo link dele, ele recebe uma comissão. Não há nada de errado com o marketing de afiliados. O errado é o blogueiro, youtuber ou influenciador (seja lá como ele se identifique) não dizer que está ganhando dinheiro com isso.

Fica parecendo que ele de fato recomenda um produto (um normalmente um investimento, um livro, um curso ou uma palestra) quando na verdade ele está é vendendo o produto.

Pode ser que o influenciador de fato goste do produto? Pode. Mas seria mais honesto se ele fosse transparente e informasse que está ganhando comissão em cima da sua compra.

O jornalismo tradicional ganhou credibilidade quando passou a separar claramente o conteúdo editorial do conteúdo publicitário.

Muitos blogs, sites e canais do Youtube ainda não chegaram nessa fase. Você pensa que está lendo a opinião pessoal de alguém, quando na verdade está lendo os argumentos de um vendedor.

Isso vale não apenas para livros e cursos, como eu disse, mas também para produtos de investimentos.

Às vezes um site coloca no ar notícias sobre investimentos, mas não deixa claro que pertence a uma instituição financeira ou que ganha dinheiro se você, por exemplo, investir em um determinado fundo ou abrir conta em uma determinada corretora.

Como lidar com isso?

E então, como saber se você está buscando informações em uma fonte de confiança ou não?

Em relação ao mau uso do marketing de afiliado (repito: marketing de afiliado não é ruim; ruim é a forma como alguns sites o utilizam, de modo não transparente), faça o seguinte.

Sempre que algum influenciador da sua confiança indicar um produto:

> Repare se ele diz se está ganhando algo ou não com o produto;

> Se ele não disser, veja se a URL (endereço do link) que ele está indicando menciona algo relacionado e ele ou ao seu site. Exemplo: um sujeito chamado João da Silva indica a palestra do Robert Kiyosaki (autor do livro “Pai rico, pai pobre”). E aí, na URL, está escrito algo como: “http://nacbrasil.com.br/joaodasilva/”. Se estiver, provavelmente o João da Silva é um afiliado e vai ganhar comissão se você comprar por esse link.

Se encontrar uma recomendação desse tipo, vale a pena pesquisar para ver se outros influenciadores estão dando descontos maiores.

Quanto à enganação do tipo 1, acho que já expliquei como lidar: se um vendedor disser que comprando o produto dele você garante alguma coisa, pergunte se essa garantia está no contrato.

No mais, mesmo assim você pode ficar em dúvida sobre as propagandas de investimento que recebe por aí.

Nesse caso, mande para mim, por meio deste formulárioVou responder uma ou mais questões aqui neste espaço ou no meu blog pessoal, não decidi ainda.

Em tempo: e eu, como ganho dinheiro? O que eu ganho falando isso para vocês?

Resposta: eu ganho dinheiro vendendo parte do conteúdo que produzo. Uma parte do que escrevo ou posto no Youtube é de graça. Outra parte do conteúdo eu vendo, na forma de cursos ou de ebooks para quem quer se aprofundar.

Por isso, posso dizer com clareza: meu interesse é que as minhas dicas sirvam a você, leitor. Você, que é investidor pessoa física como eu. Se você investir ou não em algum produto que eu citar, não fará diferença no meu bolso. Não ganharei nem perderei comissão por isso.

E sempre que existir possibilidade de conflito de interesse, deixarei claro no mesmo post. Por exemplo, eu não opino atualmente sobre robo-advisors (um tipo de robô de investimento) porque estou fazendo um trabalho junto a uma empresa desse ramo. Também não falo sobre casas de câmbio porque também atuo com uma startup do setor.

No mais, deste espaço aqui no Estadão, espere sempre transparência total, assim como você pode esperar do meu blog pessoal (o Dinheiro pra Viver) e do meu canal no Youtube.

Desejo que esta coluna seja o início de uma relação de longo prazo com você, e que ela te ajude a tomar decisões de investimento que atendam aos seus interesses e aproximem você dos seus objetivos.

Seja bem-vindo, e um grande abraço!

Sílvio Crespo