Investir em corretora nem sempre é melhor do que em banco

Sílvio Guedes Crespo

14 Agosto 2018 | 12h05

Ontem o gerente do meu banco me ligou por volta das 9h30 perguntando se eu já tinha decidido onde iria investir um dinheiro. Respondi que ainda ia pensar, e ele me surpreendeu dizendo: “Olha, mas eu peço que não feche nada fora do banco, porque a gente cobre”.

Essa foi a primeira vez que um gerente me ofereceu para cobrir uma oferta que eu (ainda) nem sequer tinha recebido.

Ele se antecipou a um movimento que tem sido muito comum no mercado: pessoas tirarem o dinheiro do banco para investir via corretora, sem falar com o gerente.

Um aluno meu, recentemente, me disse que pediu resgate total do valor que está em seu plano de previdência.  O gerente perguntou por que, e ele disse que ia abrir um negócio. “Dei um ‘migué’ porque se não ele ia ficar tentando me convencer a ficar”.

O que acontece é que, nos últimos anos, cada vez mais pessoas começaram a entender duas coisas que as faziam perder dinheiro sem perceber (ou deixar de ganhar).

A primeira é que investir por meio de corretoras normalmente é melhor do que investir por meio de um grande banco.

Como assim “melhor”? Melhor no sentido de que, em corretoras, você encontra mais variedades de investimentos, e dentro dessas variedades, você pode encontrar aplicações que têm um risco similar ao de um banco grande, só que com rentabilidade maior.

Um exemplo clássico é o Tesouro Direto. Em um grande banco, você vai pagar uma taxa de até 0,5% para investir em Tesouro. Já em muitas corretoras, você não paga taxa nenhuma. É o mesmo investimento, mas sem taxa, o que resulta em uma rentabilidade líquida maior.

Além disso, em corretoras você encontrar fundos com taxas de administração menores do que as cobradas nos bancos grandes, além de uma variedade de fundos muito maior.

Tudo isso faz diferença, especialmente quando se investe a longo prazo.

A segunda coisa que faz as pessoas perderem dinheiro sem perceber é o conflito de interesses. O gerente do banco é um vendedor, que representa os interesses do banco, não os do cliente.

Os gerentes têm metas para bater, e “empurrando” determinados produtos eles chegam mais perto dessas metas. Por exemplo, muitas vezes eles oferecem títulos de capitalização para quem está interessado em fazer um investimento, só que título de capitalização nem sequer é um investimento.

Dessa forma, os clientes colocam o dinheiro em lugar errado e acabam perdendo a oportunidade de investir de verdade.

Mas tem uma informação de ouro que, curiosamente, muita gente ainda ignora: é que a pessoa que atende nas corretoras também estão em um conflito de interesses. Assim como o gerente do banco, o assessor “gratuito” da corretora também é um vendedor de investimentos. E nem sempre o investimento que vai dar maior “comissão” para ele é o mais adequado para o cliente.

Para o cliente investir de acordo com os seus interesses, ele precisa entender que tanto o gerente do banco como o assessor da corretora são vendedores. E o que você faz diante de um vendedor? Você aceita tudo o que ele te oferece? Não, você negocia.

Neste momento, em que as corretoras têm “roubado” cada vez mais clientes dos grandes bancos, estes também têm se mostrado mais dispostos a negociar.

Antigamente as pessoas caíam em tudo o que o gerente do banco falava e nem cogitavam migrar para uma corretora. Mais recentemente, algumas pessoas passaram a simplesmente não acreditar em nada do que o gerente fala e ir direto para a corretora.

Agora, já é o caso de levar ambos a sério: o gerente do banco e o assessor da corretora. Nenhum dos dois está do seu lado e nem contra você. Ambos são vendedores oferecendo produtos e disputando o seu dinheiro. Cabe a nós, clientes, aproveitarmos a concorrência para extrair as melhores condições para os nossos investimentos, não importa se no banco ou na corretora.