Mercado de decoração está bombando

Mercado de decoração está bombando

Claudio Marques

29 de julho de 2013 | 08h07

Sabrina Arini, dona da Jaya!, com o premiado banco infantil em papelão serigrafado para ser pintado pelas crianças

Cris Olivette
O mercado brasileiro de decoração vive uma fase de grande expansão nos últimos dez anos. Segundo a Associação Brasileira de Decoração (ABD), o setor cresceu 500% no período, representando um movimento de R$ 60 bilhões. Para Maurício Queiroz, conselheiro da ABD, o bom momento está relacionado ao aumento da oferta de crédito e ao boom imobiliário.

Queiroz afirma que o aumento do acesso ao crédito no País elevou a venda de imóveis e gerou uma mudança no perfil do público. “Como esses apartamentos são menores, as pessoas recorrem a designers para obter projetos que compensem a falta de área. O mercado de design de interiores nunca foi tão valorizado nem esteve tão aquecido”, avalia.

Idealizadoras da feira semestral Craft Design, que terá a segunda edição de 2013 entre os próximos dias 14 e 17 de agosto, Daniela Cecchini e Elaine Landulfo concordam que o crescimento imobiliário afetou de forma positiva o segmento de decoração. “A procura por produtos para decorar os imóveis que foram comercializados nos últimos anos aumentou muito, principalmente de três anos para cá”, afirma Elaine.

Segundo ela, a feira, que começou há 13 anos com oito expositores, tem hoje 180. “Nos últimos dois anos, esse número cresceu 80%. Muitos estão percebendo que esse é um bom nicho. Além disso, o designer brasileiro tem hoje uma visibilidade muito maior, acredito que por influência dos irmãos Campana. Prova disso, é que a Craft recebe muitos compradores internacionais”, afirma.

Elaine diz que, desde o início, a principal característica da feira é manter as portas abertas para pequenos produtores. “O evento é dirigido a lojistas, fabricantes, arquitetos, decoradores e profissionais do setor em geral. Nosso objetivo é promover a integração tanto de novos talentos no mercado quanto de designers consagrados, com o setor produtivo e seus canais de distribuição”, conta. 

As empresárias Márcia e Eliana Campos, donas da Mercatto Casa e Mercatto Casinha, começaram a produzir peças de decoração em 1999 e participam da Craft desde 2004. “Entre uma feira e outra, há um aumento de 20% a 30% no número de encomendas”, diz Márcia. Segundo ela, a marca tem um portfólio com 800 itens e, em cada edição da feira, são lançados cerca de 30 novos produtos.

Márcia, no entanto, vê um outro motivo para o aumento do interesse das pessoas por objetos de decoração. “As pessoas estão gastando muito mais com decoração para deixar a casa mais aconchegante e receber os amigos. Hoje, ninguém quer sair muito de casa em função da violência”, diz.

A premiada Sabrina Arini conta que atuava como designer gráfica quando percebeu um nicho no mercado de designer de produtos – segundo ela, pouco explorado por artistas brasileiros. Em 2008, Sabrina criou a Jaya! Design e logo foi convidada pelas curadoras da Craft Design para participar do evento.

“Resolvi experimentar e gostei do resultado. A feira funciona como vitrine para divulgar meus trabalhos. É um grande negócio, dá muita visibilidade. Depois de dois ou três meses, ainda recebo encomendas.” 

A artista conta que sua criação mais premiada foi o banco infantil feito de papelão branco para as crianças pintarem. “Ele foi responsável por colocar a Jaya! no mundo, devo ter comercializado mais de 5 mil unidades.”

Em 2011, a peça entrou para a Short List de Cannes, na França. Além de fabricar objetos em papelão serigrafado, a Jaya! tem uma linha de decoração extensa, que inclui desde almofadas e porta-chaves, até luminárias de acrílico, relógios de pulso e de parede.

Com um crescimento de 40% somente em 2012, o designer de interiores Osvaldo Greghi, dono da Greghi Design, diz que participa da Craft há quatro anos. “Percebo que, se não participo de uma das edições, a demanda diminui bastante. Quando vou à feria, recebo encomendas de mais de 40 lojas.” 

Na avaliação do artista Bernardo Krasniansky, da BK Arte Design, que atua no segmento desde 1985, o mercado está aquecido mas houve redução no número de lojas. “Muitas não conseguiram acompanhar a alta de preços para continuar atuando. Produzir no Brasil é muito caro”, afirma.

Segundo ele, o mercado enfrenta concorrência pesada com o produto que vem de fora, sobretudo da China, da Índia e da Coreia. “No Brasil, produzimos poucas peças, e eles produzem em alta escala. Os produtos de massa são os que têm maior demanda”, afirma. Isso ocorre, segundo ele, porque são produtos que o cliente não tem medo de comprar: “Eles têm cores neutras, são muito pasteurizados e o público já viu algo semelhante em algum filme ou revista. Poucos ousam adquirir uma peça fora desse padrão”. 

Krasniansky afirma que, mesmo que produzisse em escala maior para reduzir o preço final, não teria público para seu tipo de arte. “Seria preciso investir em publicidade para que o grande público pudesse absorver o design da peça.”

O artista conta que é de uma época em que não existiam feiras e acredita que elas deixaram a relação entre produtores e lojistas mais impessoal. “Quando eles visitavam os ateliês, tinham uma ideia melhor sobre o conjunto de produtos. Hoje, todos têm muita pressa, e o contato é rápido, só dá para apresentar um resumo do que podemos produzir.” Como expositor da Craft, o artista afirma que as vendas que realiza na feira representam 75% dos negócios que fecha no decorrer do ano.

O mercado aquecido também ajudou a impulsionar o rápido crescimento da Clássica Design, que em 13 anos de atividade deixou a condição de pequeno negócio para figurar como empresa de médio porte. “Isso foi possível graças ao aumento do interesse das pessoas por peças de decoração”, diz o proprietário, Vitor Michelini.

Até recentemente, a Clássica produzia apenas móveis clássicos contemporâneos, mas isso está mudando.“Estamos tirando algumas peças de linha para aproveitar a boa fase do designer brasileiro, que está em alta no mundo todo. A partir de agora, também vamos fabricar móveis da Nó Designer, Estúdio Bola, Ovo, André Cruz, entre outros”, diz.

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