Produtos específicos para atender necessidades especiais

Produtos específicos para atender necessidades especiais

Claudio Marques

19 de agosto de 2013 | 08h09

Tabata (esq.) e Carolina criaram a Talento Incluir, que realiza recrutamento de profissionais com deficiência e palestras de conscientização

 

Cris Olivette

“Há alguns anos, guias rebaixadas, transporte adaptado e educação inclusiva não estavam na agenda de governantes. Hoje, o assunto tem destaque porque interessa a um quarto das famílias do Brasil”, diz a secretaria de Estado dos direitos da pessoa com deficiência, Linamara Battistella. 

Esse crescimento também provoca demanda por serviços e produtos específicos. E foi essa necessidade que inspirou a criação da Arpa – Arquitetura e Projetos para Acessibilidade. “A ideia surgiu depois de levantamento feito durante um curso de pós-graduação, no qual identificamos a falta de arquitetos especializados nesse segmento”, diz o diretor técnico, Robson Gonzales.

Criada em 2011, a empresa cresceu 400% no primeiro ano. “Até o momento, o faturamento de 2013 já superou o do ano passado. Além do crescimento exponencial, fomos convidados pela MPh-Group, a mais importante empresa de acessibilidade da Europa, a representá-la no Brasil”, afirma. Gonzales diz que os investimentos em acessibilidade e mobilidade urbana contemplados nas obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) representam um grande avanço na área.

As donas da Talento Incluir, Carolina Ignarra e Tabata Contri, também acharam uma brecha nesse mercado. “Em 2008 criamos a empresa para oferecer palestras de conscientização e serviços de recrutamento de profissionais com deficiência. Nosso atendimento se estende por todo o País e temos grandes empresas, como Ambev, Itaú, Gafisa e Vale, entre nosso clientes”, diz Carolina.

As sócias contam que se conheceram no centro de recuperação de Brasília após sofrerem acidente de moto e carro. “Primeiro nos tornamos amigas e depois, sócias”, diz Tabata. Segundo elas, as empresas estão preocupadas em cumprir a lei de cotas, o que impulsiona o crescimento da Talento Incluir. “Às vezes, temos de pisar no freio e parar com campanhas de divulgação, porque ficamos com dificuldade de atender a demanda. Temos bastante mercado”, afirma.

A Auto Escola Javarotti habilita pessoas com necessidades especiais. Segundo a gerente, Luciane Habib, 90% dos clientes são pessoas com deficiência. “Nos tornamos referência no segmento”, diz. A Javarotti possui nove unidades distribuídas na Grande São Paulo e na Baixada Santista.

Crescendo em média 20% ao ano, a Andaluz Indústria e Comércio de Produtos de Acessibilidade foi criada em 2004 com investimento de R$ 50 mil. “Hoje, somos especializados no desenvolvimento de produtos antiderrapantes e de sinalização tátil, feitos especialmente para pessoas com deficiência visual”, diz o diretor Jair Rais. De acordo com ele, a empresa atende mais de mil clientes e fechou 2013 com faturamento acima de R$ 3 milhões.

Outro empreendedor cadeirante é o dono da Turismo Adaptado, Ricardo Shimosakai, que presta consultoria de acessibilidade e inclusão nas áreas de lazer e turismo. “Fechei parceria com a Schultz Turismo e a partir de setembro seremos a primeira operadora de turismo adaptado da América Latina”, afirma. Ele conta que, inicialmente, a empresa vai oferecer cinco roteiros nacionais e cinco internacionais.

Loja virtual cria facilidades

Os empresários Renato Bueno de Camargo Laurenti e João Pacheco decidiram criar o e-commerce Como ir! depois de sentirem na pele muitas dificuldades para comprar produtos de uso frequente. “Mesmo morando em São Paulo, tínhamos de percorrer três tipos de lojas para comprar o que precisávamos, e imaginamos como seria isso em regiões mais distantes do País”, diz Neto. Os dois são tetraplégicos e viram no empreendedorismo uma oportunidade para mudar a realidade de outras pessoas com deficiência.

Antes, para comprar uma cadeira de rodas era preciso ir a uma loja especifica. Depois, para adquirir sondas e coletores para incontinência urinária, que é uma sequela da lesão medular, tinha de ir a outro local. Por último, para comprar material de ajuda como teclado em braile, lupa para aumento de tela, talher com cabo engrossado ou um auxiliar para escrita, tinha de ir a uma terceira loja. 

“Hoje, com a Como ir! é possível comprar tudo isso sem sair de casa. Somos a única loja do Brasil que tem esse mix de produtos”, afirma Neto. Eles começaram o negócio em 2008, vendendo cerca de 30 produtos. “Hoje, comercializamos mais de 400 itens de 90 fornecedores. Atendemos clientes de Norte a Sul do Brasil.” Eles dizem que a missão da empresa é comercializar produtos e serviços para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida a um preço justo.

Neto conta que eles também desenvolvem produtos. “Já criamos capa de chuva, transferidor para remoção da cama para a cadeira e da cadeira para o carro, e um capacete para digitação, que é o que eu uso. Pela experiência de cadeirante que temos, procuramos ir além e dar uma solução para cada caso. Atuamos informalmente como consultores.”

Sebrae lança cartilha

O Sebrae-SP e a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência lançaram o projeto Sebrae Mais Acessível para capacitar empresários e futuros empreendedores com deficiência em temas de gestão.

Segundo o diretor da entidade, Bruno Caetano, o projeto também incentiva que micro e pequenas empresas contratem profissionais com deficiência, mesmo não havendo exigência legal para empresas desse porte.

Vários empresários que já empregam pessoas com deficiência não têm do que reclamar. São profissionais dedicados e cuidadosos.” Ele conta que o Sebrae tornou acessível todo o seu conteúdo de capacitação, incluindo material em braile e biblioteca virtual com conteúdo em áudio. 

Outra orientação é que os empreendedores tratem o deficiente como consumidor. “Eles devem estar preparados para atender a pessoa com deficiência. Fizemos uma cartilha que orienta como receber esses clientes em seus estabelecimentos de forma adequada. Isso porque muitos ficam inseguros e não sabem agir com naturalidade e simpatia”, conclui.

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