‘Adoro mudanças, a inquietação e o novo me movem’

‘Adoro mudanças, a inquietação e o novo me movem’

CRIS OLIVETTE

01 Dezembro 2014 | 14h53

OPORTUNIDADES / SECAO CONSELHOS
O faturamento de R$ 370 milhões obtidos pela multinacional brasileira Resource IT Solutions em 2013 marca a trajetória de seu fundador, Gilmar Batistela. Fundada em 1991, a empresa mantém 18 escritórios, 13 deles no Brasil, os demais estão no Chile, Colômbia, Argentina e Estados Unidos, onde tem escritório em Miami e um centro de pesquisa e inovação implantado em abril deste ano no Vale do Silício, na Califórnia.

Ele diz que nos últimos cinco anos a Resourse investiu R$ 100 milhões em infraestrutura, governança, aquisições e expansão territorial. Mas é a unidade de pesquisa que tem estimulado a todos na empresa.

“Nosso plano para gerar inovação no Vale do Silício teve aporte de US$ 5 milhões. Poucas empresas brasileiras constroem um plano de expansão voltado à pesquisa, normalmente o objetivo delas é vender”, afirma Batistela.

Ele conta que, em paralelo, foi montada uma base em Miami, onde passou a residir, para que possa gerir a expansão global. “Estamos com mais de 300 clientes globais, destes, 50 têm escritório em Miami. A empresa está vivendo um clima excepcional, porque geramos oportunidade para que os funcionários participem da construção de novas tecnologias. ”

Aos 54 anos, o empresário comanda um time formado por três mil funcionários, que recebem treinamento constante. “Não conheço nenhum negócio que não dependa das pessoas. Para crescer é preciso investir na equipe.”

Segundo ele, antes de atingir o estágio atual nos negócios, teve de superar diversos desafios. Tudo começou aos 17 anos, quando concluiu o ensino médio e veio morar na casa de uma tia na capital paulista, deixando para trás a pequena Monte Castelo, no interior de São Paulo.

“Minha classe tinha 30 pessoas. Mantive contato com quase todos que vieram para cá e o índice dos que voltaram foi alto, pois as barreiras eram grandes.” Ele mesmo teve de retornar para casa três vezes para obter mais dinheiro com o pai. “Na terceira vez, decidi que seria a última, se não encontrasse um novo rumo voltaria para casa. Mas foi quando deu certo.”

Batistela conseguiu emprego na área administrativa financeira da companhia aérea Vasp, adquirindo certa estabilidade para continuar em São Paulo e entrar na faculdade. Por ter facilidade na área de exatas, optou pela graduação em matemática, com especialização em informática. “Quando me formei, em 1982, consegui um estágio na própria Vasp, na área de informática, como programador, e lá fiquei”, conta.

O sonho infantil de ser engenheiro foi abatido pela paixão por tecnologia. Após trabalhar como programador na Vasp, foi contratado pela Alpargatas. “Acho interessante a virada que ocorreu em minha vida nessa época. Eu era um nerd muito tímido. Me dava bem com os números e tinha facilidade de fazer programas complexos.”

Em 1986, aos 22 anos, ocorreu a transformação. “Na Alpargatas, passei a ter contato com a área de negócios. Minha função era implantar sistemas e precisava falar com os usuários, além de visitar as fábricas e filiais. De repente, mudei minha maneira de ser. Enxerguei um novo mundo, o de negócios, e passei a olhar a empresa como um todo para entender o negócio e poder desenvolver os sistemas.”

Em 1991, decidiu montar uma pequena empresa para prestar serviços ao Unibanco. “Foi um movimento de grande risco, porque o contrato era de curto prazo e eu tinha um filho pequeno.” Mas o que aconteceu foi que seus antigos empregadores Vasp e Alpargatas solicitaram que fizesse sistemas para as áreas que já havia atendido. “Entre 1991 e 1995, ficava durante o dia no Unibanco e à noite atendia as outras empresas.” Com o aumento da demanda, contratou pessoas e a empresa começou a crescer naturalmente.

“Logicamente, enfrentamos momentos de crise. No comecinho de 2000, fui aos Estados Unidos e enxerguei uma oportunidade de abrir um escritório lá e transferir profissionais brasileiros para trabalhar lá.”

Ele diz que os EUA viviam a febre da internet e contratava muitas pessoas. No Brasil, passou a entrevistar pessoas que falavam inglês. Em seguida, conseguiu parceiros americanos, alugou escritório no país e passou a visitar clientes.

Torres Gêmeas. “Após um ano, já tinha tirado visto de trabalho para mais de 20 pessoas e estava fechando os primeiros contratos para começar a operar em 16/9/2001. No dia 11/9 derrubaram as Torres Gêmeas. Tinha investindo milhares de dólares lá e tive de abortar o plano. Foi a primeira pancada.”

Em 2002, novo desafio. “Desenvolvi um grande sistema para uma empresa e precisei contratar muitas pessoas. Passei quase um ano fazendo esse trabalho. Ao ser implantada, a tecnologia não rodou. Era um sistema novo que trabalhava em três camadas. Ali, pensei que a empresa tinha acabado.”

A Resource estava com 300 funcionários, quase a metade foi demitida. “Nessa hora, o mercado começou a falar que íamos falir. A situação era desesperadora e não sabia o que fazer. Então, tive uma ideia e disse ao meu sócio, que está comigo desde o início, que em vez de abaixarmos a cabeça devíamos fazer um grande evento para recuperar nossa imagem.”

Uma grande festa de final de ano foi organizada, na qual um carro foi sorteado entre os funcionários. “Com isso, o mercado mudou o discurso. Ao mesmo tempo, resgatamos a autoestima dos funcionários e superamos essa fase.”

Segundo ele, há entre os empreendedores bem sucedidos algumas características comuns. “O que percebo que tenho em comum com empresários que conheço e que têm trajetória similar a minha é que nenhum de nós criou o negócio colocado como primeiro objetivo ganhar dinheiro. Negócios criados para ganhar dinheiro acabam muito rápido. Quem faz uma coisa que gosta, na qual acredita e tem paixão, agrega valor e a consequência é ganhar dinheiro.”

Segundo ele, outro ponto comum é a coragem. “Um ponto forte é estar pronto para mudar a todo o tempo. Quem não gosta de se arriscar dificilmente trilha a trajetória empreendedora. Adoro mudanças, a inquietação e o novo me movem. A persistência também é fundamental, além de ética e respeito a individualidade das pessoas.”