Casais apostam na dupla parceria e criam empresas juntos

Claudio Marques

27 de agosto de 2012 | 07h42

Cris Olivette
Casados há 16 anos, o médico Gerd Schreen e a estilista Miriam Schreen Aguirre são sócios há dois anos numa clínica especializada em plagiocefalia posicional, a primeira do gênero na América Latina. Na Cranial Care, o casal compartilha o desejo de ajudar famílias a corrigir assimetrias cranianas em recém-nascidos. “Se o problema não for tratado no primeiro ano de vida, torna-se irreversível e pode gerar dificuldades no fechamento da mandíbula e desalinhamento visual”, informa o médico.
A ideia de criar a sociedade surgiu depois que a filha mais nova do casal foi diagnosticada com o problema. Segundo o médico, o tratamento existe há 20 anos nos Estados Unidos e na Europa, mas no Brasil ainda é quase desconhecido. “Como não havia solução no País, tivemos de morar nos Estados Unidos por seis meses para fazer a correção.”
Embora a clínica esteja em operação há dois anos, o plano de empreender conjuntamente começou há sete. Mas para concretizar esse desejo, Schreen, que é cirurgião vascular, precisou fazer outra especialização médica e cumprir uma série de procedimentos burocráticos, além de obter registro na Anvisa para trazer dos Estado Unidos as órteses, uma espécie de capacete, usadas durante o tratamento.
“A Miriam cuida da área de marketing e mídias sociais. Ao mesmo tempo, interage muito com os pais que chegam à clínica com elevado grau de ansiedade e insegurança.” Para o médico, trabalhar junto com a mulher é um desafio. “É preciso ter bastante maturidade e saber separar muito bem a vida pessoal e familiar das atividades da clínica. E isso nós temos conseguido fazer muito bem”, afirma.
Apesar desse desafio, a atividade aumentou a interação entre o casal, diz Schreen. “Ela passou a entender mais sobre meu trabalho e pode opinar de forma saudável nos casos, o que é muito construtivo.” Segundo o médico, Miriam cumpre com rigor quase excessivo as suas atividades profissionais.
Desde que a Cranial Care foi criada, mais de 200 crianças já foram atendidas. Mas no Brasil, segundo Schreen, deve haver mais de 350 mil casos. “O número demonstra o tamanho do desafio que temos pela frente.”
Já os empresários Ana Paula Doriguelo e Bruno Ferrari, que se conhecem desde pequenos e compartilham o mesmo teto há dez anos, sempre sonharam em ter um negócio. “A oportunidade surgiu quando vim trabalhar em Florianópolis. Nós estávamos pesquisando o mercado de franquias e percebi que aqui seria um bom local para montarmos uma unidade da inFlux English School”, conta Ana Paula.
Criada há um ano e meio, a escola de inglês é administrada por Ferrari, enquanto Ana Paula cuida da área pedagógica. Segundo ela, para esse tipo de parceira dar certo, cada um deve atuar em áreas diferentes na empresa. “Trabalhamos juntos, mas na correria do dia a dia não ficamos em contato o tempo todo.”
Na opinião de Ana Paula, o relacionamento profissional não deve ser fácil para a maioria dos casais. “A não ser que os perfis se complementem, como é o nosso caso. Por incrível que pareça, é como se tivéssemos um botãozinho, porque quando vamos para casa conseguimos nos desligar completamente do trabalho.”
A história de Tiago Luz e Tânia Gomes não difere das demais. Casados há quatro anos, eles também desejavam empreender juntos. Sonho realizado há um ano, quando montaram a underDOGS, agência de marketing digital, que atende grandes empresas como Carrefour e Daslu.
“Essa experiência tem permitido um amadurecimento da relação, que talvez não ocorresse se não trabalhássemos juntos”, avalia Tânia. “Nós enfrentamos os mesmos problemas e acabamos nos conhecendo muito melhor. Acho que manter uma relação profissional tão estreita como temos, só dá certo se o casamento tiver dado certo primeiro.”
Tânia ressalta outro aspecto importante. “Temos muita confiança um no outro e isso faz toda a diferença no negócio.” A empresária revela, no entanto, que os dois possuem personalidade forte. “Tentamos sempre chegar a um consenso, porque quanto mais próxima é a relação, maior é o poder de argumentação para defender o seu ponto de vista.”

Pôr divisão de tarefas no papel pode ajudar

Para a coach Tália Jaoui, o envolvimento emocional pode tornar muito difícil para o casal separar a vida pessoal da empresarial. “É preciso fazer um acordo mútuo e os dois estarem cientes do que vai acontecer nessa sociedade.” Segundo Tália, é sempre bom envolver terceiros.
“Recomendo, por exemplo, que contratem um profissional para ajudar na estruturação da empresa, definindo horários, cargos e salários, para não desandar a sociedade, nem o casamento.”
Para o professor de pós- graduação da Fundação Getúlio Vargas e fundador da Fran Systems Consultoria Ltda, especializada em estratégia e desenvolvimento de negócios Batista Gigliotti, o casal deve ter consciência de que o relacionamento deve ser diferente em cada situação. “Casais que venceram nessas duas tarefas souberam separar isso extremamente bem. Dentro do escritório não se fala de problemas com o filho, nem de supermercado. E dentro de casa não se fala de problema de trabalho.”
Outra dificuldade apontada por Gigliotti é a questão da hierarquia. “Muitas vezes uma das partes não respeita a hierarquia que naturalmente existe nestes casos, já que alguém precisa ser presidente da empresa. Para algumas pessoas é muito difícil aceitar a posição hierárquica do parceiro por problemas psicológicos”, enfatiza.
Nesse contexto, Gigliotti afirma que não adianta produzir um documento explicitando o papel de cada um na empresa. “ É preciso ter uma autodisciplina muito grande, a pessoa tem que viver e encarnar isso. Também vai depender muito do grau de maturidade do relacionamento do casal”, conclui.
Segundo o diretor presidente do Instituto de Administração (Instiad), Luiz Claudio Binato, que também é especialista em desenvolvimento humano, educação executiva e estratégias, o grande risco é a inversão de papéis. “É preciso ter cuidado para não assumir papel incorreto na instituição incorreta. Por exemplo, ser marido na empresa e executivo em casa. O mesmo vale para as mulheres.”
O especialista diz que trabalha com empresas que têm essa composição. “Algumas são bem sucedidas, outras nem tanto.” Binato concorda com Tália quanto à elaboração de um documento.
“Para prevenir problemas é conveniente fazer um plano descrevendo o papel de cada um no negócio. Assim eles terão uma visão mais clara sobre o comportamento que devem adotar.” Nesse documento deve ficar claro qual é o nível de autoridade e de responsabilidade de cada um.”
No entanto, Binato vê essa sociedade como uma vantagem se for bem conduzida. “Eles podem sair na frente num conteúdo importante para se formar uma sociedade que é a confiança.” Segundo ele, a confiança é uma argamassa importante na configuração social, seja na empresa ou no casamento. “Neste caso, eles já partem com esse elemento construído. É uma bela vantagem na minha opinião.”
Tália conclui afirmando que a cautela deve ser máxima. “Essa dupla tem de ser extremamente cautelosa e ponderada. E esses são adjetivos que não costumamos ver com frequência por aí.”

Ações anticrise

Acordo
Sob orientação de um profissional, elaborar documento definindo a estrutura da empresa, cargos, salários e horário de trabalho do casal sócio. Assim, haverá visão mais clara sobre o nível de autoridade e de responsabilidade de cada um dentro da sociedade
Hierarquia
Alguém precisa ser presidente da empresa, mas para algumas pessoas é muito difícil aceitar a posição hierárquica do parceiro. Por isso, é preciso ter muita autodisciplina. O sucesso também vai depender do grau de maturidade do relacionamento do casal
Instituição
O ponto de equilíbrio depende do entendimento que os casais têm dos vários papéis que eles desempenham nas diversas instituições das quais fazem parte. O grande risco é a inversão de papéis. É preciso ter cuidado para não ser, por exemplo, marido na empresa e executivo em casa.
Cautela
A dupla deve ser extremamente ponderada e cautelosa. Dentro do escritório não se fala de problemas domésticos. E dentro de casa não se fala de trabalho.

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