Certificação beneficia negócios no Norte do País

Certificação beneficia negócios no Norte do País

Longe dos grandes centros, produtores de pequeno porte ganham consciência e mercado

CRIS OLIVETTE

21 de maio de 2017 | 07h42

Isaque Suruí (segundo a partir da direita). Foto: Junia Karst

A picada da ‘mosquinha’ do empreendedorismo não para de espalhar o seu poder transformador, fazendo novas ‘vítimas’ até mesmo nos pontos mais distantes do País.

No final do ano passado, por exemplo, o povo indígena Paiter Suruí, que vive em Rondônia, obteve a certificação ambiental Forest Stewardship Council (FSP), com o objetivo de abrir novos mercados para comercializar produtos derivados de babaçu (tipo de palmeira).

Cacique da tribo e presidente da Associação Soenama do Povo Indígena Paiter Suruí, Isaque Mopilô Tavá Suruí conta que a certificação permite que a exploração sustentável de babaçu seja feita em 91 hectares da reserva, que possui área total de 248 mil hectares. No local, vivem 60 pessoas, metade delas envolvidas no projeto.

Segundo ele, os suruís sempre usaram o babaçu para fins medicinais e para a alimentação. “Hoje, com a fruta produzimos farinha e óleo, da casca do coco produzimos carvão e usamos a palha para cobrir malocas e fazer artesanato”, conta.

Agora, a associação busca financiamento por meio de parcerias com ONGs e fundos. “Precisamos de recursos para montar estrutura de agroindústria para, em seguida, passar por inspeção da vigilância sanitária. Só então poderemos atingir o mercado nacional e internacional.”

O cacique diz que por enquanto, a venda é feita artesanalmente com apoio da Empresa Estadual de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Rondônia (Emater). “Queremos ampliar a geração de renda para trazer benefícios para os produtores indígenas envolvidos no projeto.”

Diretora executiva do FSC, Aline Tristão conta que um dos focos da entidade é certificar pequenos produtores, seja nas florestas da Amazônia ou em outros biomas brasileiros. “Qualquer elemento da floresta pode ser certificado. Para isso, os produtores têm de cumprir uma série de exigências.”

Entre os princípios que devem ser seguidos estão questões como ausência de desmatamento e de trabalho escravo. “Organizações ou comunidades que queiram obter a certificação têm de demonstrar que tanto o manejo quanto os produtos são trabalhados de forma ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável”, diz Aline.

Alina Tristão. Foto: Rafael Stedil

A diretora afirma que só pode ser extraído da floresta o que ela tem capacidade que seja extraído. “O parâmetro é obtido por meio de planejamento integrado e holístico que inclui engajamento e treinamento das pessoas, para que saibam como investir no negócio e como colocar o produto no mercado.”

Segundo ela, o selo FSC agrega valor financeiro aos produtos e permite que sejam exportados. “A certificação possibilita que haja planejamento de longo prazo, que tem de ser auditado. Além disso, a certificação tem de ser renovada anualmente.”

No Pará, 160 membros da Cooperativa Mista da Floresta Nacional do Tapajós produzem madeira certificada pelo FSC, desde 2003. “A união em cooperativa e a certificação trouxeram melhorias para a vida dos cooperados e das mais de 4,5 mil pessoas que vivem na Floresta Nacional (Flona)”, diz o engenheiro responsável pela cooperativa, Ângelo Chaves.

Segundo ele, todos passaram a participar das discussões, da gestão e do planejamento das ações dentro da área pertencente à União. “O padrão da certificação exige que haja essa relação com as comunidades, porque todos são beneficiários dos recursos naturais.”

Com a certificação, houve fortalecimento das organizações comunitárias e todos passaram por capacitação para monitorar a fauna. “Também aumentou o número de clientes e houve valorização do produto, que agora é comercializado por um preço maior. Também aumentou o interesse de países da Europa.”

Jean Rocha (à esq.) e Ângelo Chaves. Foto: Bob Barbosa

O engenheiro diz que eles ainda não vendem diretamente para o mercado internacional por não possuírem unidade de beneficiamento da madeira. “Os europeus querem comprar chapas e deques. Mas estamos terminando projeto para pedir recursos ao BNDES.”

Assim como Chaves, o presidente da Coomflona, Raimundo Rocha, também nasceu na Flona e conta que o trabalho realizado pela cooperativa virou referência para as outras unidades de conservação.
“Hoje, damos o exemplo de como manusear a floresta e explorar os recursos naturais, melhorando a renda das famílias. Agora, todos que moram aqui têm a visão de não desmatar.”

Em Minas Gerais, o biólogo e fundador da Atina Ativos Naturais, Eduardo Roxo, produz extratos vegetais, óleos essenciais e óleo fixo extraídos de fazenda própria e de outras 150 áreas pertencentes a terceiros. “Temos contratos com os proprietários. Mapeamos a área, cuidamos do licenciamento, da obtenção das certificações e do manejo propriamente dito.”

Fundada em 2004, a empresa tem desde o início selo FSC, específico para floresta e outras quarto certificações. “Temos certificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fabricação de insumo farmacêutico e outra que é europeia chamada European Federation for Cosmetic Ingredients(EFFCI), especificação de qualidade exclusiva para ingrediente cosmético. Além disso, todas as áreas de extração são inspecionadas pela Ecocert, certificadora orgânica, que verifica se há risco de contaminação das espécies, por pesticidas ou fertilizantes a partir de culturas vizinhas”, conta.

Eduardo Roxo.Foto: Gustavo Lourenção

Ele afirma que 70% da produção é exportada. “O negócio crescendo ano a ano. Mas é uma briga difícil, porque a produção ilegal continua no Brasil, isso dificulta a competição em relação a preço”, diz.

Produtores de açaí negociam com franceses

No Arquipélago do Bailique, a cerca de 160 quilômetros de Macapá, 100 produtores de açaí foram capacitados e 75 conquistaram o selo Forest Stewardship Council (FSP), em dezembro de 2016. O presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique, Geová Alves, diz que a certificação abriu espaço para que um novo cenário seja construído na vida desses produtores.

“Eles são muito explorados. Enquanto em Belém (PA) pagam R$ 70 na lata com 14 kg de açaí, no Bailique o mesmo volume é vendido por R$ 5. A diferença se deve a cadeia que envolve mais de quatro atravessadores.” Alvez diz que não será fácil vencer esse entrave, porque existem mais de 300 produtores no local. “Temos um trabalho enorme pela frente. Mas o grupo que já foi certificado adquiriu consciência e agora eles querem ter o trabalho reconhecido e respeitado”, ressalta.

Segundo ele, além de agregar valor ao produto, a certificação também tem o papel de despertar a valorização ambiental e do próprio trabalhador, que adquire consciência de coletividade e de cooperação entre eles.

Geová Alves (com rádio pendurado no pescoço). Foto: Toninho Júnior

O presidente conta que a associação ainda não tem mercado internacional consolidado. “Estamos em conversa com possíveis compradores da Europa e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, estamos em contato com grandes redes de supermercados do Brasil. A conversa mais avançada que temos é com um grupo de franceses, com os quais estamos na fase final de negociação.”

Alves diz que no Brasil ainda não há boa resposta com relação ao preço. “Principalmente na região Norte, porque para esses compradores não faz diferença o produto ser certificado ou não. Mas no mercado internacional é uma vantagem.”

Segundo ele, com a ajuda dos produtores de Bailique a associação implantou uma escola com proposta diferenciada. “Já temos em atividade um curso técnico de alimentos, com 17 filhos de produtores inscritos. Eles estão sendo capacitados a trabalhar com superalimentos (alimentos de alto teor em fitonutrientes e elevados benefícios para a saúde)”, conta.

Diretora executiva do FSC, Aline Tristão diz que é importante destacar o potencial que o selo proporciona. “Está na hora de negócios que querem atingir outros mercados, incorporarem o viés da responsabilidade, principalmente quando se trata de produtos de floresta tropical. Esse valor agregado demonstrar responsabilidade em relação ao manejo e exploração dos recursos naturais. Demonstra também que esses produtores estão pensando em longo prazo. Além de proteger a floresta, fixa as pessoas no local e melhora a qualidade de vida.”

Segundo ela, o Brasil possui 13 certificadoras credenciadas que são supervisionadas pelo FSC internacional. Em relação ao custo para a obtenção do selo, ela diz que depende do produto e da área.

“Algumas certificadoras destinam porcentagem do que ganham quando fazem grandes certificações a um fundo social. Com essa verba, apoiam organizações que desejam se certificar e não têm recursos, apesar de os custos serem menores para pequenos produtores, pois a certificação é simplificada.”

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