Como empreender com arte e se dar bem

Como empreender com arte e se dar bem

Artistas e consultora defendem que adotar métodos do mundo dos negócios pode ajudar o artista a ser bem-sucedido na sua atividade

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15 Julho 2018 | 07h03

Andrey Rossi. Foto: Jeivison José

Victoria Abel
ESPECIAL PARA O ESTADO
Considerada instável, a atividade artística é vista, muitas vezes, como uma prática capaz de proporcionar poucas recompensas financeiras até pelos próprios artistas. Mas adotar alguns métodos do mundo dos negócios pode ajudá-los a se darem bem no mercado das artes. “Eles não entendem que precisam ser empresários”, defende a consultora de marketing do Sebrae Ariadne Mecate. Ela afirma ser possível planejar a produção artística a ponto de transformá-la em um empreendimento ajustado e bem-sucedido.

Nesse sentido, ter uma postura de empresário significa que o artista precisa divulgar suas obras por meio de estratégias de marketing e saber como precificar suas produções. São atitudes, segundo a consultora, que podem resultar em conquistar estabilidade financeira.

Com o objetivo de divulgar suas obras e ter visibilidade no mercado das artes, o artista plástico Andrey Rossi aprendeu cedo que expor suas obras em salões de arte municipais poderia ser um excelente início.

“Logo que saí da faculdade de artes plásticas, comecei a me inscrever em editais para participar de exposições (promovidas pelo poder público). Após várias recusas, entendi a dinâmica dos processos e como deveria elaborar os projetos para que fossem aceitos”, conta o artista. Ele diz que, depois participar das exposições promovidas pelo Mapa Cultural Paulista, foi convidado a fazer parte do grupo de artistas que compunham a Galeria Qaz, espaço então instalado em Higienópolis e hoje extinto.

Rossi reforça que os editais públicos podem ser uma porta de entrada para exposições e, assim, ser visto por colecionadores, ou então, ser notado por galerias de arte. Nascido em Porto Ferreira (SP), ele hoje faz parte do quadro de talentos da Galeria OMA, onde vende cerca de 17 trabalhos artísticos no ano e consegue manter uma renda mensal acima dos R$ 7 mil.

Suas pinturas em papel A4 variam de R$ 800 a R$ 900, enquanto suas obras maiores custam de R$ 13 mil a R$ 25 mil. A partir de suportes alternativos como madeira, chapa de ferro e lona de caminhão, Rossi representa em seus desenhos questões marcantes para o corpo humano, como deformações e doenças. Mas ele também ficou conhecido pelos trabalhos em que mistura partes humanas e animais.

Ariadne Mecate. Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação

“É necessário fazer o planejamento de exposições, mapeando os melhores eventos onde o perfil de cliente ideal poderá estar”, ressalta Ariadne. Ela diz que o artista precisa conhecer seu público potencial e produzir para ele, e não apenas apresentar aquilo que faz pensando em seu gosto pessoal, ou naquilo que acredita – uma ideia polêmica nomeio artístico.

Arte aliada à gestão e ao planejamento

Para muitos que têm a arte como meio de vida (e de expressão), não basta criar, é preciso adotar práticas do mundo empresarial para se manter no mercado e sobreviver. Depois de anos trabalhando sem muito planejamento, o artista plástico André Filur sentiu a necessidade aprender a lidar com burocracias e questões financeiras como uma empresa.

“A arte é muito linda, muito bacana, mas querendo ou não eu sou um empresa e isso é uma profissão”, afirma Filur. O ilustrador, que iniciou sua carreira como grafiteiro, vendia suas obras informalmente por meio de indicações de amigos. “Eu deixava acontecer e, por muitas vezes, me vi apertado com dinheiro.”

“Agora, eu já tenho alguns fornecedores fixos que consigo desconto. Separo um valor por mês para compra de material, mais um valor para imprevistos mensais, outro para contas e outro deixo para investir.”

A mudança veio há quatro anos, depois que ele procurou por cursos de gestão empresarial. “Eu nunca tinha parado para pôr no papel tudo o que eu gastava, o quanto que eu precisava ganhar por mês para pagar as contas.”

Obra de André Filur. Foto: André Filur

Filur afirma que triplicou sua produção e as vendas desde que passou a usar ferramentas de marketing e de planejamento. Se antes ele vendia um ou dois quadros por mês, hoje comercializa até cinco. Cada obra sua custa em média 2 mil reais o metro quadrado.

A consultora do Sebrae Ariadne Mecate afirma que , após criar a marca, um logo, o artista precisa ter um site, trabalhar as redes sociais. “Tirar boas fotos é uma boa estratégia também. Dessa forma, as pessoas irão conhecer o artista além do espaço onde ele expõe”, diz.

Filur adotou essas medidas e, segundo ele, a atitude fez com que a maior parte de suas vendas agora sejam feitas via internet e mídias sociais. “Boa parte dos clientes aparecem via Instagram.” Segundo ele, até mesmo os colecionadores fixos de suas obras foram conquistados com o trabalho de marketing que fez na rede, apesar de também expor na Casa Galeria, na Granja Viana, em São Paulo.

A consultora do Sebrae ainda alerta para a importância de o artista saber dar preço para as suas obras. “A arte é algo subjetivo e grande parte dos artistas tem dificuldade de precificar seu produto, mas precisamos ter um parâmetro.”

Além do custo de produção, Ariadne diz que a comparação com o preço da concorrência no mercado é necessária para se fechar o valor, bem como a análise de perfil do cliente. “Se seus clientes são pessoas mais simples, eles não vão pagar tão caro.” No entanto, ela defende que o artista não pode ceder à pechincha do interessado na obra: “Precisa ter pulso firme para fixar seu preço no mercado”.

Marcelo Prado dos Anjos, mais conhecido como o palhaço Marcelo Pichuruca, procurou a consultoria do Sebrae para profissionalizar sua arte. Aprendeu a dar preço para suas apresentações não apenas considerando o que o mercado está cobrando e seus custos para produção, mas também os riscos que corre em cada uma delas.

Marcelo Pichuruca. Foto: Cícero Mitudi Morinaga/Divulgação

Perigo

“Nos espetáculos em que eu utilizo a perna de pau, por exemplo, preciso cobrar mais caro o cachê, porque é um número extremamente perigoso. Posso cair de lá de cima a qualquer momento.”
O artista se apresenta com grupos de circo, mas também faz apresentações em festas infantis para completar a renda. Ele cobra em torno de R$ 800 pelo trabalho.

Pichuruca começou na profissão de palhaço fazendo trabalhos voluntários, inspirado pelos Doutores da Alegria. O ex-comerciante relata que, no início, não tinha noção de organização. “Com o tempo passei a ver a necessidade de saber vender meu produto, que sou eu mesmo.”

Além de colocar na planilha todos os seus custos, o palhaço também passou a investir na divulgação de seu trabalho via site e perfil no Facebook.

“O artista precisa reconhecer que o que ele faz é um trabalho artístico, é o que ele gosta de fazer. Embora muitas vezes tenha começado como hobby, é uma empresa. Então, se ele quiser que as pessoas e os clientes valorizem a sua arte, ele precisa ter uma postura de empresa”, afirma Ariadne, ao salientar a relevância de o artista ter uma marca, um logo e um cartão de visitas. “Na maioria das vezes, o artista não pensa nisso.”

‘SEMPRE FUI UM WORKAHOLIC’

A ideia de o artista ser também um empresário é polêmica. “Eu não sou em empreendedor, eu sou um Artista. Minha Arte é minha alma, seria diminutivo utilizar a palavra “empresa”. Eu não estou aqui para fazer dinheiro. Estou aqui para dar meu depoimento estético, conceitual e poético do mundo que me rodeia, dos meus anseios, angústias e sonhos, e das experiências que eu vivi”, afirma o artista plástico Alex Flemming.

Alex Flemming.
Foto: Denise Andrade/ Estadão

Ele diz que “abomina e esconjura” marketing e propaganda. E diz o que considera como a razão de ter se tornado um artista conhecido e bem conceituado: “Trabalho, trabalho e mais trabalho”. “Acredito piamente na recompensa que a vida traz aos que a ela se devotam com afinco. Com 63 anos, tenho orgulho de ter produzido obras públicas que me trazem muita alegria (Estação Sumaré do Metrô e Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo). Tenho um currículo de muitas exposições mundo afora, e já fui convidado a fazer duas retrospectivas de minha obra (Museu de Arte Contemporânea em São Paulo e Palácio das Artes em Belo Horizonte).”

Flemming, claro, reconhece que a vida é cheia de altos e baixos financeiros. “Independentemente de sermos reconhecidos ou não, há anos em que vendemos muito e há anos em que vendemos muito pouco. Quando era jovem, a primeira vez que eu ganhei bastante dinheiro, vendi todos os quadros da minha primeira mostra individual em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, fiquei eufórico, tomei champanhe a rodo, fui de primeira classe para o Egito, gastei e me diverti.

Aí o dinheiro acabou e eu amarguei alguns bons anos de vacas magras, apesar de continuar sempre estando na televisão ou dando entrevistas para jornais e revistas. Então, aprendi a história da formiga: tenho que guardar dinheiro para sobreviver meu futuro.”

Ele diz que outra característica o ajudou: “Sempre fui um workaholic extremamente organizado. Mas jamais avalio minha vida como negócio”.

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