Como não falir mesmo em período de crise
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Como não falir mesmo em período de crise

Negócios bem estruturados e que usam indicadores conseguem sobreviver na adversidade; falta de gestão está entre os principais riscos

CRIS OLIVETTE

08 Julho 2018 | 08h11

Alex Baik e Suzana Dias. Foto: Raoni Aguiar/Divulgação

Estudo do Instituto MahaGestão feito com cinco mil negócios identificou os cinco riscos principais que podem levar o pequeno empreendimento à falência, principalmente em períodos de recessão. São eles: dificuldades na gestão financeira, atraso nos pagamentos, contrair crédito pagando juros altos, descontrole de fluxo de caixa e dificuldade para identificar desvios.

“Esses empresários têm pouca informação para planejar e se antecipar aos problemas. E quando o fazem, não monitoram o que realmente estão realizando frente ao programado”, diz o idealizador do instituto e CEO da empresa de gestão empresarial Jiva, Fábio Túlio.

Fábio Túlio. Foto: Valter de Paula/Divulgação

Segundo ele, o envolvimento dos donos das MPEs com as atividades básicas da operação e controle costuma ser tão grande, que não sobra tempo para se dedicarem a tarefas gerenciais e estratégicas que agregam valor ao negócio.

“Eles entram em um círculo vicioso e deixam de investir tempo e recursos para implantar a transformação digital e automatizar os processos básicos, passo importante para racionalizar a operação. Fazendo gestão manual gastam tempo, têm pouca precisão e alta taxa de erro”, afirma.

Para o executivo, o ideal é que as MPEs invistam 1% do faturamento anual em projeto de automação. “O que a empresa ganha em racionalização é muito maior que o investimento feito para isso”, destaca.

Túlio diz que além de investir em tecnologia é preciso aperfeiçoar os processos e, principalmente, capacitar as pessoas para que elas se sintam engajadas e comprometidas.

Reação

Para evitar a falência e reverter a queda de público que ficou escasso com o declínio da economia, o casal Suzana Dias e Alex Baik, no comando do Duck Walk Pub há quatro anos, teve de inovar e se renovar.

“Criamos novos pratos, passamos a abrir a casa para a realização de eventos e introduzimos atrações musicais. Em paralelo, comecei a fazer cursos de gestão”, conta Baik.

Eles também tiveram de reduzir em 50% a equipe e implantaram sistema de gerenciamento de pedidos. “Agora, tudo é mensurado e registrado. É preciso ter referência para saber onde investir.

Trabalhar com base em planilhas é mais eficiente do que confiar no achismo. Tudo tem de ser registrado, porque cada real é importante para o negócio”, afirma.

Baik diz estar animado porque foi selecionado para participar do programa do Sebrae ‘Top Empreendedor’. “Já fiz a primeira fase, que abordou o aspecto comportamental. Agora, estamos recebendo consultoria para melhorar a gestão.”

A realidade de grande parte das micro e pequenas empresas, porém, não é a mesma. A falta de gestão continua sendo um grande desafio para muitos empreendedores.

Sergio Dias. Foto: Fabio Magalhães/Divulgação

Economista e consultor do Sebrae, Sergio Dias concorda que má gestão é uma das principais causas do insucesso de um empreendimento e lista as áreas que merecem atenção redobrada: gestão financeira, incluindo os custos e as contas a pagar e receber, a gestão de estoque e a gestão de compras e fornecedores.

Dias ressalta que o planejamento é importante para evitar que o negócio sofra ainda mais em períodos de crise. “Ele é fundamental e deve anteceder a fase de criação da empresa. Planejar com assertividade permite ao empreendedor ter visão do negócio ao longo de um período, para olhar a empresa no futuro e não pelo espelho retrovisor.”

Segundo ele, em períodos de recessão o ciclo de planejamento deve ser menor. “Se em épocas de estabilidade o empresário faz planejamento anual, na crise o intervalo deve ser de seis meses ou menos, dependendo do negócio. Também é muito importante criar indicadores de desempenho, tanto da receita quanto da despesa. Os indicadores servem para promover ajustes no plano.”

Quebradeira

Sócio-diretor da Prosphera Educação Corporativa, Haroldo Matsumoto considera que a falta de planejamento quebra mais empresas que a falta de cliente ou de capital.

“O mercado não tolera mais amadores ou aventureiros na gestão dos negócios. Quem não tem planejamento está à mercê da sorte”, afirma.

Haroldo Eiji Matsumoto. Foto: Andreia Halliday/Divulgação

Matsumoto considera que o cenário brasileiro é completamente caótico e negativo. “Mas os negócios bem estruturados estão fortalecidos para enfrentar o pior da crise e ainda têm a oportunidade de dominar o mercado, por conta da falência dos principais concorrentes”, avalia o consultor.

Ele acrescenta que é justamente na crise que os maiores erros de gestão aparecem. “Quando o mercado está aquecido tanto o cliente quanto o segmento permitem erros, deslizes e a completa falta de controle e de monitoramento, porque as margens de lucro são grandes e escondem qualquer prejuízo”, diz.

O consultor também faz um alerta àqueles que sempre tentam cobrir o preço do concorrente. Ele diz que é bom ter o parâmetro do preço que o mercado pratica e também saber na ponta do lápis quais são os custos envolvidos em seu processo, bem como o limite mínimo que pode vender.

“Às vezes, negar uma venda é melhor para saúde da empresa e para a sua perpetuação no mercado. Com a crise que assola o País há três anos, assumir riscos sem noção exata da decisão é amargar prejuízo na certa, podendo até mesmo colocar em risco o patrimônio”, destaca.

Descompasso

Consultor de negócios, Sandro San lamenta a ausência de cultura de planejamento entre as pequenas empresas brasileiras. “Certamente, essa é uma das razões pelas quais a maioria delas fecham nos primeiros anos de vida.”

Segundo ele, é muito difícil fazer uma boa gestão ou planejamento empresarial sem ter acesso a informações adequadas que possam ser acessadas no momento certo para a tomada de decisão do gestor.

Sandro San. Foto: Fábio Magalhães/Divulgação

“Sem informação adequada e em tempo real, o planejamento se torna ineficiente e incapaz de produzir resultados concretos e, obviamente, coloca o empreendedor num estado de comprometimento das suas finanças, o que pode levá-lo à falência em muito pouco tempo”, diz o consultor.

‘NA DIFICULDADE, MUDAMOS NOSSO PÚBLICO-ALVO’

Sobrevivente. Esta é a melhor palavra para definir a trajetória da distribuidora de cestas básicas Baratão do Retiro, que atua com o nome fantasia Cesta do Prato, e está no mercado desde 2000.
“Além da crise que afeta o País, também enfrentamos a crise que devastou o Estado do Rio de Janeiro.

Muitas empresas fecharam. Perdemos cerca de 50% dos clientes e os que ficaram reduziram drasticamente o número de funcionários”, conta o proprietário, Carlos Andre Batista.

Ele diz que a primeira reação ao perceber que estava perdendo a clientela foi o desespero. “Mas comecei a pesquisar o mercado e identifiquei que sindicatos, ONGs e pessoas físicas estavam fazendo doações de cestas básicas para os funcionários públicos que estavam sem receber salário. Fizemos campanha de marketing com foco nesse público e conseguimos reestruturar a empresa que estava quase fechando.”

O empresário, então, proibiu o uso da palavra ‘crise’ dentro da empresa. “Trabalhamos para aproveitar um aspecto da crise e mudamos o nosso público-alvo. Essa solução foi positiva para superarmos aquele momento”, afirma.

Carlos André Batista. Foto: Bruno Reis

Porém, quando a crise estadual amenizou, ele passou a perder os clientes que faziam as doações. “Tivemos a crise da crise e mais uma vez precisamos mudar o foco e trabalhar para resgatar os clientes antigos.”

Batista diz que nesses 18 anos de atividade o negócio já passou por várias mudanças, que foram sendo implantadas para solucionar os problemas que iam surgindo. Dessa forma, o negócio amadureceu.

Entre as mudanças que já foram implantadas estão a gestão de logística, gestão financeira e do departamento de vendas. “Esse aprimoramento foi possível porque fiz diversos cursos, recebi mentoria e consultoria.”

O empresário recorda que começou o negócio sem nenhum planejamento. “Tínhamos dificuldade de captar recursos e como não havia opção, pegava financiamento pagando altas taxas de juros. Com frequência, usava o saldo do cheque especial e achava isso normal.”

Segundo ele, profissionalizar a gestão financeira foi fundamental para a sobrevivência da empresa. “A logística também era uma loucura. Fiz um levantamento e descobri que em alguns casos pagávamos para trabalhar, porque no anseio de atender os pedidos fazíamos entregas sem planejar as rotas.”

Hoje, a empresa mantém um quadro fixado na parede contendo o planejamento de entrega de duas semanas. “Com essa solução simples, consegui gerir melhor a logística e aproveitar a mão de obra dos entregadores, que agora também ajudam na montagem das cestas.”

Batista, que já perdeu dinheiro por falta de planejamento, diz que além da gestão é importante ficar alerta para adaptar o negócio conforme o momento.

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