Comprar unidade de franquia em operação requer cuidados

Comprar unidade de franquia em operação requer cuidados

Processo dever ser realizado em conjunto pelo franqueado vendedor e a franqueadora, cabendo ao comprador pesquisar possíveis dívidas

CRIS OLIVETTE

27 Novembro 2016 | 07h44

Eduardo Arndt, franqueado Restaura Jeans

Eduardo Arndt, franqueado Restaura Jeans

Adquirir uma unidade franqueada em operação requer cuidados, principalmente relacionados a eventuais passivos trabalhistas e tributários. Por outro lado, pode ser um negócio vantajoso. Franqueado da Restaura Jeans, Eduardo Arndt, afirma que as vantagens são muitas, tanto que já comprou três unidades nestas condições.

“Ao comprar um ponto novo, a pessoa pode correr riscos que foram aceitos pelo plano de negócio que estava no papel. Quando colocado em prática, tudo o que foi estudado e analisado pode apresentar falhas. Mas quando adquire um ponto comercial que já foi trabalhado durante um tempo, pode pular essa etapa e começar a ‘corrida’ com alguma vantagem”, avalia.

O empreendedor pondera, no entanto, que é preciso ter certa experiência para avaliar questões como: o ponto ainda tem potencial de crescimento? O preço está interessante? O valor cobrado pelo produto ou serviço está adequado para a região? Existem aspectos que poderiam ter sido explorados e não foram?
Segundo ele, em períodos de recessão econômica como o atual, o preço pode ser menor. “Essa situação pode gerar várias oportunidades, se o negócio já não estava bem antes da crise por conta de má administração, quando ela chega o negócio pode abrir falência e, nessa hora, vira uma boa oportunidade”, exemplifica.

Arndt acrescenta que um ponto que está em evidência, que todos conhecem e tem faturamento interessante, não é um bom negócio para comprar. “Ele vai custar caro e a probabilidade de ter queda no movimento é grande, porque provavelmente não tem mais para onde crescer”, ensina.

Antes de empreender ele era gerente de vendas da indústria farmacêutica. “Como venho do ramo de vendas, no qual é preciso aumentar sempre o volume comercializado, visualizo com facilidade o potencial de crescimento. Comprei a primeira unidade em 2012 e a mais recente no final de 2015.”

Ele conta que a loja comprada no ano passado estava faturando R$ 40 mil. “Agora já atingimos R$ 70 mil. Também aumentei em 70% o volume de vendas da unidade adquirida em 2012. “Ela tinha dois funcionários e agora são seis.”

Arndt afirma nunca ter assumido o passivo trabalhista dessas empresas. “Sempre crio novo CNPJ e peço ao antigo dono para demitir os funcionários. Mesmo assim, o trabalhador ainda tem o direito de tentar reaver alguma coisa do tempo do ex-proprietário. Mas até agora nunca tive problemas.”

A advogada Melitha Novoa Prado, do escritório Novoa Prado Consultoria Jurídica, afirma que segundo o Código Tributário Nacional, quem adquire um estabelecimento comercial e segue exercendo nele a mesma atividade que o antecessor, é responsável por quitar os tributos originados pelo fundo de comércio adquirido.

Melitha Novoa Prado da Novoa Prado Consultoria Jurídica

Melitha Novoa Prado da Novoa Prado Consultoria Jurídica

“Por isso, estes termos precisam constar no contrato de compra e venda. O franqueador deve avaliar juridicamente o contrato, porque eventuais problemas podem afetar sua operação e rentabilidade. Na maioria das vezes, estes contratos são repletos de lacunas que podem causar inúmeros transtornos às partes”, diz.

Segundo ela, mesmo se constituir uma nova empresa, o novo franqueado herda eventuais problemas trabalhistas. “O franqueado antigo deve demitir os funcionários e realizar suas homologações. Sem esta legalização, como o funcionário seguirá exercendo a mesma função no mesmo local, o novo franqueado herdará o passivo trabalhista. É uma questão importante que precisa ser bem resolvida antes de concluir a transação.”

Para diversificar os negócios, Roberto Oliveira e seu sócio em uma empresa de representação de móveis decidiram investir em franquia. “Já estávamos namorando o modelo há bastante tempo porque a marca possui know-how e é mais prático do que começar um negócio do zero, principalmente num ramo desconhecido.”

Por coincidência, foram apresentados ao dono da Amiste Café, franquia de locação de máquinas de café expresso, em um evento e se interessaram pela atividade. “Passamos seis meses pesquisando o mercado de café no Brasil, até tomarmos a decisão. Compramos uma unidade em andamento que pertencia a operadora. A sede da franqueadora fica em Londrina (PR) e a loja que compramos está em Belo Horizonte(MG).”

Jorge fernando (à dir.) e João Luiz Simonacci donos da Aguá Doce Cachaçaria unidade Barueri

Jorge Fernando (à dir.) e João Luiz Simonacci, donos da Aguá Doce Cachaçaria – unidade Barueri

Os sócios assumiram a operação em janeiro de 2016. “Nos primeiros meses apanhamos muito, porque tentamos aplicar metodologias que usávamos no negócio de móveis e o faturamento estagnou. Depois de 120 dias mudamos tudo, contando com o apoio do franqueador.”
Oliveira conta que noventa dias depois das mudanças o faturamento já havia dobrado. “Hoje, nossa taxa de crescimento mensal é o dobro da estimada. Projetamos locar cinco máquinas por mês e estamos locando dez.”

Segundo ele, é mais fácil negociar uma unidade que tenha faturamento em crescimento. “Mas se a loja tiver pouco tempo de operação é preciso fazer estudo de viabilidade e comprar com base no capital investido no ponto e nos equipamentos.”

Como a unidade era do franqueador e eles tiveram acesso a todas as informações, não demitiram ninguém e assumiram o CNPJ. “A transação foi transparente e isso nos deu segurança. Franquia é um excelente negócio, mas não é só para investir dinheiro, para vingar, tem de investir tempo.”

Franqueado da rede de restaurantes Água Doce Cachaçaria – Sabores do Brasil, Jorge Fernando conta que antes de fechar negócio para adquirir uma unidade em operação, ele e João Luiz Simonacci, seu sócio, pesquisaram a situação do ponto para verificar se havia algum passivo trabalhista ou tributário.

“Outro cuidado que tivemos foi acompanhar a rotina do negócio durante 30 dias para avaliar o fluxo de clientes e ter uma ideia exata do faturamento da operação.”

Ele recomenda a quem pretende realizar esse tipo de transação, que contrate um contador e um advogado para que realizem as pesquisas sobre a existência de passivos.

O empresário conta que quando comprou a unidade o negócio tinha 13 funcionários. “Hoje, são mais de 30. O faturamento praticamente dobrou nesses dois anos e meio”, afirma. Segundo ele, no segundo semestre de 2017 ele e o sócio pretendem comprar outro restaurante da mesma marca.

Condição. Dono de uma unidade da rede Mania de Churrasco – Prime Steak House desde janeiro deste ano, Rafael Moser conta que a compra da unidade em andamento ocorreu por uma conjunção de fatores.

Rafael Moser, franqueado Mania de Churrasco

Rafael Moser, franqueado Mania de Churrasco

“Eu já estava interessado em ter uma loja Mania de Churrasco porque tenho um amigo que já era dono de uma loja que estava indo muito bem e se preparava para abrir uma segunda. Pesquisei mais a fundo o negócio e me deparei com um empresa muito sólida, com modelo de negócio interessante, que vinha crescendo há algum tempo e que já havia recebido algumas premiações. Quando surgiu a oportunidade de comprar uma loja em operação decidi transformar meu desejo em realidade.”

Antes de fechar o negócio, Moser fez pesquisa detalhada. “Fiquei um tempo frequentando o shopping no qual ela está instalada para avaliar o movimento e o perfil do público. Também estudei a fundo os números da loja, que estava tendo queda no faturamento, e identifiquei que era uma questão de má gestão”, afirma.

Segundo ele, a queda no faturamento influenciou o valor da transação. “Consegui fazer uma boa negociação. Hoje, vejo que foi uma transação muito justa, não foi uma pechincha. Aloja também tinha alguns problemas de manutenção, mas nada muito complicado, fiz apenas pequenas reformas pontuais.”

Moser diz que hoje o resultado da loja é bem melhor do que o obtido pelo antigo proprietário. “Janeiro foi um mês de ajuste e investimento em manutenção, mas de fevereiro até agora estamos fechando no azul. A experiência está sendo uma grande vitória e antevejo um futuro promissor”, avalia.

Ele conta que os passivos trabalhistas e tributários da loja estavam bem controlados, mesmo tendo processos trabalhistas em andamento. “Fiz a compra com as portas fechadas. Assumi o mesmo CNPJ e os passivos, que foram incluídos na conta durante a negociação. É importante observar todos esses detalhes para que a transação seja a melhor possível. Isso ajuda a não ter surpresas nomeio do caminho”, afirma.

Segundo o sócio-diretor da Mania de Churrasco, Alessandro Pereira, quem compra uma loja já existente tem a noção exata dos resultados que estão sendo obtidos e pode visualizar com mais facilidade quais são as perspectivas e oportunidades.

“Já quem monta uma loja nova, tem uma expectativa de resultado que pode não se cumprir, ou levar mais tempo que o esperado. Até hoje, tivemos apenas três mudanças de donos na rede, quando isso ocorre, cuidamos para que a negociação e transição sejam justas e corretas.”