Consumo de vídeo na internet favorece pequena produtora

Alta no uso da mídia abre possibilidades de negócios no segmento; empresas adotam tecnologia de realidade virtual e aumentada

CRIS OLIVETTE

23 Setembro 2018 | 08h08

Bruno Pedroza. Foto: Vitor Furlan/Divulgação

O consumo crescente de vídeo pela internet abre o mercado para a atuação de pequenas produtoras. A quinta edição da pesquisa Video Viewers realizada pela Provokers em parceria com o Google e divulgada na última quarta-feira, dia 19, mostra que o consumo médio de vídeo online no País cresceu 135% na comparação com 2014.

Estudo feito pelo Facebook indica que até 2020, 75% do tráfego móvel online será para consumo de vídeo. Esse crescimento também foi identificado pelo estudo “Mídias Sociais 360°”, produzido pelo Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, que analisou a evolução do formato ‘vídeo’ entre os segmentos marcas, entretenimento e mídia, nas redes sociais.

“Em 2015, o conteúdo em vídeo nas páginas de entretenimento do Facebook representava 20% e neste ano chegou a 36%. Nas páginas de marcas, a postagem de vídeos era de 8% há três anos, agora passou a ser 13%. Já nas páginas de mídias e notícias, o vídeo representava 8% e neste ano chegou a 10%”, conta o coordenador do núcleo da FAAP, Eric Messa.

Eric Messa. Foto: Fernando Silveira/FAAP

Esse cenário provoca transformações no mercado publicitário e permite que jovens empreendedores entrem no segmento.

“Pequenas e grandes marcas querem veicular conteúdo em vídeo, mas a concorrência é grande. É preciso saber se diferenciar. Nos especializamos na produção de vídeos curtos para serem vistos pelo celular, principalmente no Instagram”, diz o fundador da Smarty Talks, Diego Monteiro.

Segundo ele, a barreira de entrada é baixa, porque o preço dos equipamentos caiu. “Com R$ 6 mil de investimento é possível começar uma operação. Por isso, é importante ter um diferencial e demonstrar conhecimento sobre as diferentes formas de aplicação.”

Criada em 2017, a empresa tem equipe enxuta e contrata freelancer conforme a necessidade. “Cheguei a ter seis funcionários, mas como a receita é variável optei por manter apenas duas pessoas fixas.”

Até o momento, o maior cliente da Smarty Talks foi a Lojas Marabraz. “Fizemos uma campanha para o Dia dos Pais. Também já atendemos a empresa de TI Dedalus – Cloud Computing e a Convenia, que produz software de gestão em RH, entre outras”, diz.

Diego Monteiro. Foto: Leonardo Grecco/Divulgação

Monteiro afirma que a expectativa de crescimento é grande. “Neste primeiro ano trabalhamos para fortalecer nosso nome e passar segurança ao mercado. Estamos com boas perspectivas para o próximo ano.”

A Broders também nasceu no ano passado e já atendeu clientes como Twitter, Claro, Tetra Pak, Avon, Natura, Itaipava, Doritos e Batavo, entre outros. “Para chegar até esses clientes tivemos de oferecer bom atendimento, com a logística de produção funcionando bem. Só assim é possível entrar no radar das marcas”, diz o sócio e diretor criativo, Bruno Pedroza.

Transformação

Segundo ele, a internet mudou o jogo de como as marcas se comunicam com o público. “Uma das formas de fazer isso é apresentar a marca atrelada a um conteúdo que interesse o espectador. É o que chamamos de branded content, que significa oferecer informações úteis ao cliente que não tenham, necessariamente, relação com a marca. Não é uma publicidade direta e passa por entender o público e o que ele consome.”

Pedroza afirma que diferente da televisão que veicula anúncios de 30 segundos a 1 minuto em formato padrão de filme, os vídeos podem ser horizontais, quadrados, verticais e durar 15 segundos ou dez minutos, conforme a intenção da marca.

“Há um terreno novo a ser explorado por pequenos negócios, uma vez que produtoras já estabelecidas não estão dispostas a atender esse mercado, porque não interessa a elas modificar o modelo de negócio para atender um orçamento menor.”

O empresário lembra que antes o cliente gastava milhões para aparecer 30 segundo no intervalo da novela. “Hoje, ele precisa aparecer todos os dias na time line de quem quer atingir. O valor de mídia foi diluído, porque aumentou a necessidade de produção de conteúdo.”

Em termos de qualidade, o professor da FAAP diz que a qualidade de imagem e som de uma campanha publicitária produzida por grande produtora é superior. “Por outro lado, se for um vídeo para ser publicado na internet, será difícil notar a diferença de qualidade”, diz Messa.

Pedroza conta que a forma de atender o cliente precisa ser menos burocrática e mais rápida, na velocidade que a internet demanda. “Não basta comprar os equipamentos, é preciso saber lidar com a linguagem, com o atendimento ao cliente, além de entender a marca e o público.”

Segundo ele, a melhor forma de entrar nesse mercado é trabalhar um tempo na área para aprender sobre o mercado e criar rede de networking com agências de publicidade. “Também é preciso ter reserva de dinheiro para segurar o negócio, pois os pagamentos são faturados em até 90 dias.”

Realidade virtual

Tanto a Smarty Talks quanto a Broders estão iniciando projetos em realidade virtual, por meio da produção de vídeos em 360 graus. Já a Árvore Immersive Experiences é focada exclusivamente nesse tipo de produção.

“Somos um estúdio de narrativas imersivas. Queremos aproveitar esse primeiro boom de realidade virtual e realidade aumentada que está rolando no mundo e fugir da lógica dos vídeos tradicionais”, diz o sócio, Ricardo Laganaro, que atuava na O2 Filmes antes de empreender.

Ricardo Laganaro. Foto: Mario Miranda Filho/Divulgação

“Já desenvolvemos conteúdo para comemorar os 25 anos da parceria Big Mac e Coca-Cola. Foram instaladas cabines de exibição em mais de 1,6 mil lojas do Mc Donald’s, para que os consumidores assistissem ao vídeo e viajassem pelo universo mágico das duas marcas. A ação foi replicada pela América Latina.”

Segundo ele, esse mercado vai crescer de maneira exponencial. “Basta pensar que há dois anos não existiam óculos de realidade virtual e hoje temos cerca de 10 milhões no mundo.”

Como ainda é caro para as pessoas terem os óculos de realidade virtual, além de ser difícil ter acesso a bons conteúdos, os sócios buscaram outros investidores e criaram o centro de entretenimento dedicado à realidade virtual Voyager.

“O público pode optar por pagar para consumir os conteúdos por 15 minutos, meia ou uma hora. Nossa primeira sala fica no shopping JK e exibe mais de 20 produções do mundo todo. Os ingressos custam entre R$ 19,90 e R$ 69,90 por pessoa. A lotação máxima é de 30 pessoas por hora. Até 2020 queremos abrir mais seis lojas”, afirma.

Laganaro acredita que a melhor forma de consumir esse tipo de produção é realizando ações nas quais a marca oferece os equipamentos, ou fazendo exibições em salas específicas.