Cresce demanda por serviços voltados à população idosa

Cresce demanda por serviços voltados à população idosa

Com 21 milhões de habitantes acima dos 60 anos, ganham força serviços que oferecem suporte, independência e distração a essa faixa

CRIS OLIVETTE

29 de novembro de 2015 | 16h58

Rita de Cássia (à frente) e as assistentes Celeste Panucci (de branco) e Sonia Gardiziulis, no ateliê Artesanal By

Rita de Cássia
(centro) e as assistentes Celeste Panucci (de branco) e Sonia Gardiziulis, no ateliê Artesanal By

A empatia em relação aos idosos inspirou a artesã Rita de Cassia Dias a criar o ateliê Artesanal By, onde dá aulas de tricô, crochê, bordado e costura para alunas da terceira idade.

“O espaço foi montado no meio deste ano. Antes, as aulas eram dadas em uma loja de armarinhos. Atendo muitas viúvas e aposentadas. Fiquei mais de um ano com uma aluna que sofria de Alzheimer e era muito assídua”, afirma.

Ela conta que as alunas não têm paciência para produzir coisas demoradas como patchwork – gostam de fazer peças que fiquem prontas logo. “Montar o ateliê fez com que todos passassem a me ver como empreendedora. Também consegui atrair mais alunas. Está dando muito certo.”

Agora, duas alunas mais antigas estão trabalhando com ela. “Elas viraram minhas parceiras. Estamos com muitas encomendas para o Natal. O próximo ano será ainda melhorar, porque tem muita gente interessada passando por aqui.”

Assim como Rita, outros empresários veem no envelhecimento da população uma oportunidade de negócio. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 21 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais. Até 2025, serão 32 milhões, estima a OMS.

Dono da TecTotal – Tecnologia Sem Complicações, Glaucon Pereira conta que o negócio criado em 2006, surgiu como ponte entre as tecnologias e os usuários. “Atendemos, principalmente, clientes da terceira idade. Começamos oferecendo suporte na área de informática ensinando, por exemplo, a usar um software, a instalar impressora etc. Depois, veio a época de ensinar a mexer em home theater e os seus diversos controles remotos”, relembra.

Glaucon Pereira, da TecTotal

Glaucon Pereira, da TecTotal

Pereira diz que as dúvidas atuais desse público estão relacionadas a como colocar foto no Facebook, ou sobre como fazer download da foto do netinho. “O mundo digital avança rápido. Quem nasceu antes dessa época têm dificuldade.”

Hoje, a TecTotal complementa a oferta de serviços ensinando os clientes a instalar e mexer em produtos da linha branca como geladeira, máquina de lavar, micro-ondas etc. Segundo Pereiral, o negócio cresce na casa dos dois dígitos ao ano.

 

Na AxisMed, 60% dos 180 funcionários trabalham direta ou indiretamente com idosos. “Temos um programa de gerenciamento de doentes crônicos que está em atividades desde 2002”, conta o diretor executivo, Fábio de Souza Abreu.

Fábio Abreu, da AxisMed

Fábio Abreu, da AxisMed

Segundo ele, a empresa trabalha em parceria com empresas e planos de saúde. “Nosso serviço de orientação às pessoas com doença crônica deixa à disposição um número 0800 para o qual os clientes podem ligar para tirar dúvidas em relação a qualquer problema de saúde que os aflija.”

A AxisMed também tem um programa que auxilia as pessoas a aceitarem a nova realidade de se tornarem idosas, além de orientar sobre como cuidar da saúde nessa fase da vida.

Segundo ele, os programas de relação com o idoso representam cerca de 70% do negócio. “A demanda é crescente. Cada vez mais os problemas crônicos dos idosos atraem clientes para os nossos programas.”

Abreu afirma que a empresa mantém crescimento de 20% ano. “Em 2015, no entanto, não chegaremos a esse patamar.” Ele afirma que faz parte dos planos da AxisMed atender particulares. “Mas por conta da situação econômica atual, resolvemos concentrar esforços nas linhas que já ofertamos. Assim que a economia ficar estável, vamos retomar o projeto.”

O empresário diz que quando se fala da população idosa é sempre bom ressaltar a carência que eles têm e a necessidade de ofertas de apoio e suporte.

“Velhinho é a mãe” é nome de pacote em agência

Sócio da agência de viagens Venturas & Aventuras, Giancarlos Valias conta que o negócio foi fundado em 1992. Segundo ele, a criação de um segmento voltado para o público da terceira idade ocorreu de forma natural. “Começamos a organizar viagens para um grupo de amigos dos pais do meu sócio. Com o tempo, a demanda foi crescendo e abrimos as vendas para outras pessoas”, diz.

Giancarlo Valias, da Venturas e Aventuras

Giancarlo Valias, da Venturas e Aventuras

Inicialmente, esse serviço era chamado Turismo para Maiores. “Tínhamos produtos específicos. Por exemplo, a viagem para a Chapada Diamantina era chamada de Chapada para Maiores”, conta.

Valias diz que foi durante uma viagem para os Lençóis Maranhenses que surgiu a nova designação do produto. “A turma criou o grito de guerra Velhinho é a Mãe, que desde 2008 rebatizou o segmento.”

Segundo ele, a Venturas tem como característica trabalhar com roteiros de natureza, aventura e destinos exóticos. “Nos últimos anos aumentamos muito o portfólio de produtos. Temos viagens culturais muito significativas, como para o Irã, na qual é possível ter contato com obras do império persa. Já fizemos esse roteiro com o grupo Velhinho é a Mãe.”

O empresário diz que mesmo roteiros que incluem trilhas e caminhadas, podem ser adequados para esse público. “Temos percursos com trilhas mais leves e programação com intervalos de tempo maiores. Na medida do possível, procuramos incluir os mesmos atrativos.”

Para isso, a agência oferece mais apoio, como chegar de carro até um ponto mais próximo, cuidado na escolha do hotel, que deve ter elevador, ou quartos no andar térreo. “O item alimentação também merece nossa atenção, pois temos de observar a questão de restrição alimentar do clientes.”

Valias diz que a agência realiza quatro viagens por ano para roteiros nacionais e internacionais voltadas a este público. “Mas se ao longo do ano surge nova demanda, podemos adaptar o roteiro.

Segundo ele, é muito bom trabalhar com pessoas da terceira idade. “São clientes fiéis que continuam viajando conosco por anos. Também contribuem para o crescimento da empresa, dando sugestões de melhorias e de novos destinos. Na verdade, viram nossos amigos.”

Segundo ele, esse nicho não representa grande fatia do negócio, porque é um trabalho mais personalizado e com grupos pequenos com no máximo 18 pessoas. “As viagens do projeto Velhinho é a Mãe representam 5% do faturamento. Mas se falarmos de clientes acima dos 60 anos, esse número aumenta bastante, porque muitos se encaixam em grupos com perfil misto para viagens de roteiros regulares ao longo do ano.”

“São pessoas que buscam praticidade e independência”

Um dos fundadores da Maria Brasileira – Limpeza e Cuidados, Eduardo Pirré afirma que a empresa foi criada para oferecer facilidades aos clientes. “O carro-chefe é o trabalho de diaristas que efetuam limpeza residencial e empresarial. Já para o público da terceira idade, temos o serviço de cuidador, que vem se tornando uma tendência no mercado brasileiro, por conta do envelhecimento da população.”

Pirré diz que esse tipo de prestação de serviço é novo no País e tem crescido nos últimos anos. “Mas na Europa e EUA existe há muito tempo.”

Eduardo Pirré, da Maria Brasileira

Eduardo Pirré, da Maria
Brasileira

Segundo ele, a crise não interfere no segmento, que é formado por pessoas com poder aquisitivo maior.
O empresário afirma que os idosos buscam praticidade e independência. “Eles não querem depender da família, preferem contratar nossos serviços de motorista e cozinheira, por exemplo, para não precisar pedir ajuda à família.”

Ele conta que o serviço que tem mais procura é o de cuidador. “Muitas vezes, isso não significa que a pessoa está doente. Temos grande procura por acompanhantes para irem com o idoso a uma consulta, ou ao supermercado. É um serviço demanda crescente.”

Pirré acrescenta que esse público também costuma contratar motorista para levá-los ao mercado, aguardá-los e levá-los de volta para casa. “Também pode ser para ir ao médico, ao shopping ou, ainda, para fazer viagens curtas”, afirma.

Os chefs também fazem parte da lista de serviços que atraem os idosos. “Eles contratam a equipe para preparar almoço ou jantar quando vão receber amigos e familiares. Eles gostam muito porque a equipe prepara o espaço e depois limpa e deixa tudo organizado.”

Segundo ele, para ser um cuidador é preciso ter curso técnico homologado e reconhecido, ou o curso de enfermagem. “Nosso atendimento para a terceira idade é muito personalizado, porque esse público tem índice de fidelização elevado, entorno de 85% a 90%. Busca muita qualidade e confiança.”

Pirré afirma que o segmento representa cerca 30% do faturamento da franqueadora em âmbito nacional. “Temos 132 lojas franqueadas em 23 Estados. O investimento inicial para ser um franqueado fica entre R$ 55 mil e R$ 60 mil.”

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