Crise faz surgir modelo de franquia nano

Crise faz surgir modelo de franquia nano

Enquanto microfranquias requerem aporte de até R$ 80 mil, marcas criam opções com desembolso inferior a R$ 20 mil

CRIS OLIVETTE

02 de outubro de 2016 | 07h29

Milena Lidor, diretora da Franquear Consultoria

Milena Lidor, diretora da Franquear Consultoria

A crise fez surgir no mercado de franchising o termo ‘nano franquia’. Segundo especialistas, a expressão representa negócios com investimento de até R$ 20 mil e que geram faturamento proporcional ao valor investido.

“O termo microfranquia começou a ser usado para designar negócios com investimento de até R$ 50 mil. Hoje, esse teto passou a ser de R$ 80 mil. Essa classificação abrange um grande leque de negócios. Com o aprofundamento da crise, começaram a surgir modelos de negócios mais baratos, que passaram a ser chamados de nano franquia”, diz a diretora da Franquear Consultoria, Milena Lidor.

Segundo o diretor da Prosphera Educação Corporativa, Haroldo Eiji Matsumoto, geralmente, o investimento é proporcional ao faturamento. “Um negócio que requer R$ 5 mil de investimento dificilmente irá faturar, em curto espaço de tempo, R$ 500 mil, não que isso não seja possível, mas o esforço e a combinação de oportunidade e competência terão de ser muito maiores”, diz.

Matsumoto recomenda que antes de tomar qualquer decisão o interessado busque informações. “Podemos citar a Associação Brasileira de Franchising (ABF) como ponto de partida para pesquisar os tipos de franquias existentes, além de participar de eventos e consultar outros empreendedores que têm ou tiveram franquias”, afirma.

Haroldo Eiji Matsumoto

Haroldo Eiji Matsumoto, diretor da Prosphera Educação Corporativa

No mercado há 14 anos, a Estagilize Estágios, de Aristides Ianelli lançou, em junho, o modelo de negócio home based chamado ‘O consultor’, que demanda investimento de R$ 9 mil. “O objetivo é atrair franqueados que desejam ter seu próprio negócio sem precisar investir um alto capital”, diz.

O empresário conta que a marca oferece um software de gestão e a parte administrativa do negócio é feita pela franqueadora. “Potencializamos o tempo do franqueado para que ele possa se dedicar a fechar negócios”, afirma Ianelli.

A rede é especializada no recrutamento, seleção e encaminhamento de estudantes para vagas de estágio. Segundo ele, com a crise muitas empresas têm optado por contratar estagiários em razão do menor custo.

“Muitas empresas não têm um departamento especializado na área de estágio e nos procuram.” Ele afirma que quando o franqueado capta uma empresa para cuidar de suas vagas de estágio, esta paga a ele mensalmente uma taxa durante o tempo que durar o estágio de cada estudante. “Quando o contrato termina, é comum que novo estagiário seja contratado para a função, dando ao franqueado uma rentabilidade recorrente.”

Aristides Ianelli, dono da Estagilize Estágios

Aristides Ianelli, dono da Estagilize Estágios

A marca tem sete unidades em atividade e espera fechar o ano com 12. Para 2017, a meta é ter 40 unidades implantadas.

A Acqio Franchising atua no mercado de meios de pagamento eletrônico. Seu porta-voz, Kawel Lotti, conta que a empresa lançou o modelo home office em agosto do ano passado. “Nosso objetivo foi criar uma modalidade de negócio que demanda investimento de R$ 6.990,00 – valor que considero acessível para quem perdeu o emprego e quer iniciar um negócio.”

O trabalho do franqueado consiste em conquistar novos usuários da maquininha de cobrança eletrônica de cartões de crédito e débito.

Lotti afirma que o treinamento dos franqueados é robusto. “Cada região do País tem um diretor regional e master franqueados. Eles oferecem os treinamentos e mantém contato constante com os franqueados para tirar dúvidas.”

A marca tem 600 franqueados e meta de chegar a mil até o final do ano. “O faturamento médio mensal do franqueado é de R$ 8 mil, sendo que a margem de lucro varia entre R$ 3 e R$ 4 mil. “Alguns ganham mais e outros um pouco menos. Depende da dedicação.”

Fundada há um ano, a rede de limpeza veicular ecológica Koala Car nasceu da vontade de Marco Lisboa de oferecer um negócio de baixo investimento e sem custo fixo.

Pagando R$ 2.990 o franqueado recebe um kit suficiente para realizar 200 limpezas, o que representa um faturamento de R$ 10 mil.

Lisboa diz que o preço sugerido pela marca para a prestação do serviço é de R$ 50 para a limpeza de carro pequeno, R$ 60 para veículo médio e R$ 70 para o grande. “O kit inclui produtos para cristalização de para-brisa e vitrificação de pintura. No início, só oferecíamos a limpeza, mas incluímos outros serviços para aumentar o tíquete médio do franqueado”, afirma.

Segundo ele, a marca fornece uma bolsa para que o franqueado leve os produtos necessários para efetuar a limpeza do veículo na casa do cliente. “Ele pode ir de ônibus, a pé ou de bicicleta”, diz.

Até o momento, a Koala Car tem 20 franqueados. “Na semana que vem iremos lançar uma campanha para atrair master franqueados regionais. Dessa forma, nossa estratégia de expansão se tornará mais agressiva.”

Marco Lisboa, diretor da Koala Car

Marco Lisboa, diretor da Koala Car

Lisboa diz que o master franqueado ganhará porcentual sobre a venda de unidades, sobre os royalties mensais equivalentes a R$ 100 e também sobre a venda dos produtos de limpeza. “Ele fará a intermediação dos contratos que serão assinados pela franqueadora.”

Segundo ele, se o franqueado lavar quatro carros por dia, terá faturamento líquido de R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês. “O Brasil tem 54 milhões de veículos e todos precisam limpar o carro pelo menos uma vez por mês”, diz.

A diretora da Franquear Consultoria, Milena Lidor, afirma que o termo ‘nano franquia’ está sendo usado em sua empresa há cerca de seis meses. “Analisando as oportunidades oferecidas nesse segmento, vemos que elas são interessantes para pessoas que perderam os seus empregos e não têm muitos recursos para investir.”

Segundo ela, um ponto positivo do modelo é a padronização dos serviços. “A franqueadora treina os franqueados para que o serviço prestado seja da melhor qualidade. Para o consumidor isso é muito bom. Outra vantagem é que dependendo do segmento, o empreendedor pode ser enquadrado como microempreendedor individual (MEI), caso o faturamento anual não ultrapasse R$ 60 mil.”

Milena afirma que um dos pontos negativos é o risco de o empreendedor não saber fazer a gestão do negócio. “Muitos empreendedores que compram nano franquias não têm experiência de gestão financeira e nem de pessoas, o que faz aumentar o risco de misturar o dinheiro da pessoa física com o da empresa.”

Ela afirma que este é um reflexo da falta de educação financeira que atinge grande parte da população brasileira. “As franqueadoras precisam reforçar muito esse aspecto com treinamentos, que podem ser feitos por meio de vídeos.”

A diretora diz que quando uma marca nasce para ser nano, a dificuldade de se consolidar é maior, porque o dinheiro para investir na marca é proporcional ao investimento feito na aquisição da unidade e ao faturamento. “Neste caso, a divulgação depende muito do boca a boca e recomendação. O franqueado deve guardar um pouco do faturamento para que todos os meses possa investir um pouquinho em mídia e fortalecer a marca.”

Segundo ela, o franqueador deve oferecer aos franqueados um planejamento financeiro, prática que ela afirma não ser muito comum. “Muitas marcas se preocupam muito com o planejamento de metas e não dão a mesma atenção ao planejamento de despesas. Orientamos que seja criado um plano simples de contas para que o franqueado saiba o quanto tem de investir em mídia e quanto deve reservar para despesas fixas. Muitos franqueados não têm essa noção financeira.”

Ela diz que mesmo que a marca cobre taxa mensal de fundo de marketing, por ser nano, o recurso costuma ser pequeno. “Vemos que as marcas que revertem o fundo de marketing para mídia em redes sociais têm tido um bom retorno.”

Milena afirma que o suporte ao franqueado é essencial para que a marca não morra. “Uma saída é implantar soluções tecnológicas, criando plataformas de comunicação, universidade corporativa, vídeos de treinamentos etc. A tecnologia pode estreitar e intensificar essa comunicação”, ressalta.

Desde março, o universo do franchising conta com o portal TOP Franquias, que nasceu com o objetivo de ser um canal direto com quem está pesquisando sobre este mercado.

“Trabalho com a área de comunicação para franquias desde 2010. Com o tempo, notei que eram recorrentes as reclamações sobre falta de referências bibliográficas e ausência de conteúdo educacional. Então, decidi criar um veículo especializado”, conta Diego Pudo.

Segundo ele, a ABF tem cerca de três mil marcas associadas. “Muitas outras marcas, não associadas à entidade, têm negócios sérios e vantajosos, com histórico bom e modelo de negócio viável”, diz. “Penso que o potencial franqueado deve analisar alguns parâmetros, como observar o tempo de mercado e pesquisar sobre a marca pela internet. Falar com outros franqueados também vale muito. Esse mercado tem muito para crescer porque adota modelo mais assertivo para quem quer empreender.”

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