É hora de planejar como irá atuar em 2015

É hora de planejar como irá atuar em 2015

Para superar dificuldades de ano com crise financeira empreendedor deve prever vários cenários

CRIS OLIVETTE

16 de novembro de 2014 | 08h10

O fundador da Hello Research, Davi Bertoncello

O fundador da Hello Research, Davi Bertoncello

Cris Olivette
Estudo da agência de pesquisa de mercado e inteligência Hello Research, feito para avaliar o comportamento de compra dos consumidores no próximo Natal, identificou que houve recuo na expectativa de gasto. “A intenção de compra caiu quase 10% em relação ao ano passado. Este é o primeiro reflexo claro de que 2015 será um ano difícil”, diz o presidente da agência, Davi Bertoncello.

Segundo ele, com verba mais apertada, muitos empresários se prendem a falsas premissas e deixam de pensar em estratégias para competir no mercado em crise. “É hora de fazer planejamento e elaborar uma boa estratégia. Um corpo a corpo com os clientes usando o marketing digital, que requer investimento menor, é uma alternativa. Outra opção é realizar pesquisa de mercado, assim, saberá como o consumidor vai se comportar e identificar a linguagem mais adequada para abordá-lo.”

Bertoncello afirma que há uma oportunidade interessante e pouco percebida pelo pequeno empreendedor. “A população acaba imaginando que os produtos das grandes empresas são mais caros, essa lógica não é real, mas pode ser aproveitada. O pequeno pode se posicionar como uma opção de custo benefício mais interessante. Boas estratégias podem fazer com que um ano de recessão se torne mais interessante. Com os pés no chão, é possível aproveitar esse cenário”, diz.

Iniciando o terceiro ano de atividade, a plataforma de pesquisa online Opinion Box, de Felipe Schepers e três sócios, trabalha desde o início com planejamento anual envolvendo vários aspectos do negócio. Segundo ele, a empresa foi criada com o objetivo de tornar a pesquisa de mercado mais democrática, fácil, rápida e com custo menor. “Garantimos a credibilidade das informações por um custo a partir de R$ 200”, destaca.

OPINION BOX

O jovem empresário de 28 anos afirma que em sua empresa o último trimestre do ano é dedicado à definição de metas de faturamento, margem de lucro e limite de despesa. Também definimos metas operacionais e outras, como parcerias, indicadores, e o tipo de exposição que queremos ter na mídia”, explica.

Neste mês, os sócios estão discutindo o orçamento de 2015. “Trabalhamos com os três cenários possíveis: realista, otimista e pessimista. Também definimos o que vamos desenvolver no ano seguinte. Assim, em nenhum momento temos equipe ociosa.”
Na Opinion Box, questões tributárias e trabalhistas recebem monitoramento contínuo. “Estamos sempre avaliando se é interessante mudar ou não o nosso regime tributário.” Esse trabalho é feito por equipe interna e externa, formada por advogados e contabilistas.

“Essas questões têm um custo muito significativo. Além disso, a qualquer momento pode haver mudança nas regras, que podem nos afetar. Também acompanhamos editais e leis relacionadas ao segmento de tecnologia e inovação, para ver se podemos nos enquadrar em um cenário melhor, nos aspectos financeiro e estratégico.”

Schepers conta que sua empresa é optante pelo regime tributário de lucro presumido. “Analisamos durante todo o ano se seria interessante mudar para o lucro real, mas concluímos que ainda não é hora. É legal fazer isso ao longo do ano, porque criamos maturidade de gestão na empresa como um todo, diluindo esse conhecimento entre mais pessoas. Além disso, tomamos a decisão sem estar no desespero.”

O presidente da consultoria BDO, Raul Corrêa da Silva, diz que o planejamento para o próximo ano deve contemplar ações de curto prazo, mas também conter objetivos para mais dois ou três anos. “O plano de curto prazo deve ser reavaliado mensalmente. Já o de longo prazo deve ser revisto pelo menos a cada trimestre.”

Silva afirma que a crise e a pequena e média empresa não precisam, necessariamente, andar juntas. “Às vezes, com um pouco mais de esforço uma empresa pequena consegue atravessar a crise. Neste momento é fundamental se preocupar tanto com a marca quanto com a apresentação dos produtos. É preciso ter um diferencial e aproveitar as redes sociais para mostrar o produto ou serviço. O consumidor está retraído e vai comprar onde tiver melhores oportunidades”, avalia.

O diretor da Superação Treinamento e Consultoria, Marcos Sousa, diz que é preciso tirar a letra S da palavra crise. “É na crise que surge a oportunidade de se reinventar e criar. O empresário deve lembrar que mesmo em época de crise tem pessoas comprando, comendo e viajando. E ele deve estar pronto para atender esse público.”

Sousa diz que, diferentemente dos grandes, o pequeno negócio tem agilidade e seus processos de aprovação são mais rápidos. “É o momento para fazer diferente e ter coragem.”

“Nem sempre o Simples é a melhor solução”

Entrevista: Leandro Cossalter, consultor tributário e sócio da Crowe Horwath

Leandro Cossalter, consultor tributario

Que cuidado o pequeno empresário deve ter ao definir o regime tributário que adotará em 2015?
O cuidado é em relação às alterações ocorridas na legislação do Simples. Também deve ficar atento ao limite de faturamento. Caso tenha superado o teto em 2014, deve optar por outro regime de tributação, que pode ser o lucro real ou o presumido. Deixar o Simples acarreta custo administrativo mais elevado.

Quais são os limites de faturamento do Simples?
Para a microempresa, o limite é de R$ 1,2 milhão. Negócios de pequeno porte podem faturar até R$ 3,2 milhões.

Houve alguma alteração em relação ao regime de tributação para o próximo ano?
As novas obrigações criadas pelo governo deixaram de fora as empresas enquadradas no Simples. As alterações determinadas pela Lei 12.973 entram em vigor a partir de janeiro de 2015 e só valem para empresas que adotam o lucro presumido ou o lucro real.

Aderir ao Simples é sempre a melhor opção?
Mesmo com a permissão dada pelo governo para que novos ramos de atividade possam optar pelo Simples a partir do próximo ano, ainda assim é preciso fazer as contas para avaliar se será vantajoso. Nem sempre o Simples é a melhor opção. Essa forma de tributação enquadra todos os impostos de competência federal, estadual, municipal e previdenciária em um único recolhimento. Só que é uma alíquota progressiva. Conforme o faturamento acumulado vai chegando próximo ao teto de enquadramento, maior vai ficando a alíquota. Para alguns ramos de atividade essa alíquota pode superar a carga tributária do lucro presumido.

A crise financeira de 2015 deve influenciar na opção pelo regime de tributação?
Uma empresa que esteja visualizando prejuízo para 2015 pode optar pelo lucro real, assim terá uma carga tributária menor do que a do Simples. O Simples é uma alíquota progressiva sobre o faturamento. O lucro presumido é uma fórmula um pouco mais simplificada de calcular o imposto de renda e a contribuição social, que é feita sobre o faturamento. Já no lucro real, o imposto de renda sobre a contribuição social é calculado diretamente sobre o resultado (lucro). Por isso, se a empresa estima que terá prejuízo a tributação do imposto de renda da contribuição social será zero.

O empresário consegue avaliar todas essas variáveis sozinho?
São muito fatores que devem ser levados em conta. Por isso, devem recorrer ao um contador. Hoje, no Brasil, a parte tributária tem deve ser conhecida por todos os setores da empresa. Recomendamos que a empresa promova treinamento para os funcionários, independentemente do setor, explicando como cada área da empresa influência na contabilidade e na apuração dos impostos. O custo para administrar os tributos é muito alto. Qualquer erro em uma das fases pode impactar na parte tributária. O empresário não tem mais como fugir de ter um bom contador que o ajude a planejar o futuro da empresa. Hoje, o contador é mais um controller.

Tem alguma dica para ajudar na escolha do regime tributário?
Não existe fórmula mágica. O empresário deve fazer um plano plurianual contendo o que pretende em termos de investimento, mudança, mercado a ser atingido etc. Esse plano tem de ser visitado, avaliado e ajustado constantemente. Tudo isso deve ser feito em conjunto com o contador.

 

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