É possível enfrentar cenário econômico atual e se fortalecer

É possível enfrentar cenário econômico atual e se fortalecer

Empresários e consultores apontam caminhos para encarar a crise e reformular seu negócio, deixando-o preparado para crescer

CRIS OLIVETTE

05 de abril de 2015 | 07h05

 

Sócio da consultoria Scai Group, Daniel Schnaider

Sócio da consultoria Scai Group, Daniel Schnaider

A previsão de baixo crescimento da economia em 2015 exige mais foco no negócio. “Para passar pela crise e ter vantagem competitiva para crescer, recomendo um bom controle do fluxo de caixa e de custos, além de saber onde deve cortar gastos. Isto requer um diagnóstico que deve ser realizado por quem tem conhecimento de gestão”, diz o sócio da consultoria Scai Group, Daniel Schnaider.

Segundo ele, não existe melhor momento para crescer do que em época de crise. “Se o empresário honrar a sua palavra nesse período de crise, ela vai valer muito mais depois. Ao cuidar de sua reputação e da marca, sairá da crise fortalecido.”

Criada em 1991, a CrissAir comercializa forno elétrico, adegas, coifas e depuradores produzidos na Itália. Fundador da empresa, Carlos Favalli conta que antevendo que este seria um ano difícil contratou, em dezembro, uma consultoria para rever os processos. “Tive essa iniciativa por entender que precisava renovar o negócio e as nossas cabeças. Considero que buscar ajuda neste momento é um investimento, não um custo, porque colheremos os benefícios lá na frente”, afirma.

 

Proprietário da CrissAir, Carlos Favalli

Proprietário da CrissAir, Carlos Favalli

Para ele, o que impera em qualquer mudança para enfrentar uma crise é a busca de novos desafios, como a abertura de novos canais de venda, além do corte de custos. “No momento, estamos desenvolvendo um canal de venda online para atender outros Estados”, conta.

Favalli afirma que além de aparar as arestas, o consultor sugeriu novo caminho para a empresa. “Digo que uma boa consultoria pode levar o negócio para além do que o proprietário imagina. Com esse trabalho, foi possível encurtar caminhos entre os departamentos e reduzir os custos da operação. Ainda não dá para computar os resultados, mas percebo que a equipe está mais engajada e trabalhando com humor bem melhor.”

Segundo o consultor tributário e sócio da Crowe Horwath, Leandro Cossalter, este é o momento de os empresários se reinventarem em alguns aspectos. “Coisas que até agora passavam em branco, como aquele dinheiro que saia pelo ralo e não era um problema, agora passa a ser. A primeira iniciativa é planejar bem os gastos, por meio de análise criteriosa de todas as despesas, e fazer um novo planejamento de gastos evitando os excessos. Os gastos devem ficar restritos ao que é inerente ao funcionamento do negócio.”

Cossalter diz que o empresariado brasileiro em época de crise costuma reduzir o custo cortando pessoas. “Essa atitude nem sempre é uma boa saída, porque o corte de custo deve mirar despesas supérfluas, e as pessoas não são. Mandar um funcionário embora hoje poderá comprometer o negócio no futuro, quando a situação econômica melhorar.”

Diretor de marketing da Conspar Urbanismo, Marcus Cunha

Diretor de marketing da Conspar Urbanismo, Marcus Cunha

O diretor de marketing da Conspar Urbanismo, Marcus Cunha afirma que a empresa também recorreu a uma consultoria para descobrir o que fazer para ficar mais eficiente e otimizar os custos. “Trabalhamos com loteamentos residenciais e comerciais. Em relação ao segmento residencial, está havendo acomodação dos custos, mas o mercado não parou. O mesmo não posso dizer dos lotes comerciais, que estão estagnados”, diz.

Cunha conta que o trabalho da consultoria ajudou a reduzi o custo das obras e tornou os processos mais ágeis. “Também readequamos as pessoas para evitar cortes e novas contratações. Além disso, ampliamos o leque de fornecedores e passamos a fazer cotação online.”

Ele conta que a consultoria durou um ano e meio. “Nos antecipamos à crise porque sabemos que no Brasil tudo é muito sazonal. Todos sabiam que mais dia menos dia a crise chegaria, e ela realmente chegou, mas já estávamos preparados.”

Oportunidade de melhorar a empresa

Segundo o diretor da Vecchi Ancona Inteligência Estratégica, Paulo Ancona Lopez, são duas as frentes que precisam ser atacadas em um momento de crise para o negócio sobreviver ao vendaval e estar preparado para um cenário melhor no futuro.

“Por incrível que pareça, toda crise também é uma oportunidade de organizar e melhorar a empresa. Quando os negócios estão caminhando bem, muitas coisas o acompanham na inércia, vão se agregando e criando vícios. Tudo isso faz ampliar a estrutura. São coisas desnecessárias, mas como está dando resultado ninguém percebe.”

Diretor da Vecchi Ancona Inteligência Estratégica, Paulo Ancona Lopez

Diretor da Vecchi Ancona Inteligência Estratégica, Paulo Ancona Lopez

Lopez diz que em um momento de crise é preciso olhar para o negócio com olhos bem críticos. “Uma das frentes a ser atacada é a questão de despesas e custos. O empresário deve olhar para o mercado, imaginar o que vai conseguir atingir em termos de faturamento e tentar dimensionar a empresa para essa perspectiva, enxugando os excessos. O empresário precisa identificar o que realmente é importante, qual é o coração da empresa, do que ela efetivamente precisa e quais processos podem ser otimizados.”

O consultor diz que também é hora de identificar qual o perfil de pessoas realmente necessárias para que o negócio ande de forma rápida. “É hora de rever contratos com terceiros e condições de parcerias. Também deve passar pente fino em todo dinheiro que sai.”

A outra frente de trabalho é muito mais estratégica e consiste em avaliar ações para minimizar a queda de faturamento, ou mesmo aumentá-lo. “É hora de olhar o mercado, os concorrentes e sua linha de produtos ou serviços e ver se há necessidade de adequar o posicionamento da empresa. Talvez seja preciso focar uma outra classe social, menos afetada pela crise.”

Ele diz que ouvir os clientes é uma boa forma para se orientar e se ajustar para atendê-los mais e melhor, bem como para não perdê-los. “Pode ser meio dolorido, é um momento confuso e preocupante. Mas é a hora para fazer essas mudanças. Com elas conseguirá ajustar ou manter o faturamento, além de reduzir despesas. Agindo assim estará preparando a empresa para voltar a crescer quando a crise acabar, pois ela estará pronta para dar um salto mais adiante.”

‘É essencial contar com mecanismos de controle eficientes’

Presidente da Value Bride. Sérgio Almeida

Presidente da Value Bride. Sérgio Almeida

Consultor de reestruturação comercial vê boas chances para companhias mais bem estruturadas

É preciso rever o planejamento da empresa em período de crise?
Sim, defina metas realmente importantes e se concentre nelas. Não faça uma lista extensa. É preciso escolher as prioritárias e cumpri-las bem. A partir de uma análise profunda dos reais fundamentos e diferenciais do negócio, é possível identificar se a empresa precisa rever o seu posicionamento no mercado. Empresas bem estruturadas, com foco, enxutas e eficientes terão muitas oportunidades pela frente.
Que tipo de oportunidade?
O Brasil está vivendo uma conjugação extremamente positiva. Os fundos de investimento estão em busca de boas empresas e, com a alta do dólar, o País também ficou mais atrativo para os investidores estrangeiros. Hoje, apenas nas mãos dos fundos de investimento há cerca de US$ 50 bilhões disponíveis. Empresas que estão bem organizadas poderão garantir acesso ao capital necessário à sua expansão.
Como organizar a empresa para deixá-la pronta para crescer?
Se o negócio é bom, mas a empresa é ruim, é mais fácil de resolver. Mas se a empresa for boa e o negócio ruim, há risco de sobrevivência. Kodak e Xerox, por exemplo, eram ótimas empresas, mas não vingaram. Por isso, é importante começar avaliando o planejamento estratégico para fazer uma análise profunda do negócio.
E qual é o segundo passo?
Fazer o planejamento operacional para manter a casa em ordem. Assim, poderá analisar os processos da empresa. Para que o negócio seja bem estruturado é essencial contar com indicadores e mecanismos de controle. Com eles o empresário será capaz de medir bem o desempenho do negócio e terá como demonstrar que a empresa é eficiente. Em época de vacas gordas, tudo pode servir. Mas em épocas difíceis, a empresa mais eficiente é a que tem mais chances de sobrevir e ter sucesso.
O que o sistema de controle deve priorizar?
Eles devem permitir boa visibilidade dos custos, do fluxo de caixa e da rentabilidade, além de análise do portfólio e dos canais de venda. Os sistemas de controle devem ser eficientes. Além disso, tenha pessoas talentosas e adote modelo de remuneração adequado. Com um bom sistema é possível avaliar se o aumento de produção e de custos trará rentabilidade.