Empresários contam quais foram as lições da bolha da internet

Empresários contam quais foram as lições da bolha da internet

Quinze anos depois do estouro, empreendedores revelam como aquela época os ajudou a consolidar seus negócios atuais

CRIS OLIVETTE

15 de março de 2015 | 07h12

Paulo Veras da 99Táxis

Paulo Veras, dono da 99Táxis

O dia 10 de março de 2000 dificilmente será esquecido pelas ‘empresas ponto com’, porque marca o início do estouro da bolha da internet. Na manhã daquele dia, o índice Nasdaq – bolsa eletrônica dos Estados Unidos que negocia ações principalmente de empresas de ponta – alcançou sua máxima histórica com 5.132,52 pontos. À tarde, caiu 4% e continuou caindo até o final do ano. A desvalorização de 75% resultou na morte de muitas empresas. Somente agora, 15 anos depois, a Nasdaq atinge patamar semelhante, na casa dos 4.700 pontos.

As justificativas para o estouro da bolha são diversas, mas quais foram as lições que os empreendedores brasileiros, que já atuavam nesse mercado, tiraram da experiência?
“Um dos aprendizados foi passar a olhar os fundamentos do negócio. São coisas básicas, como o fluxo de caixa, mas que na época muitos não achavam importante. O empreendedor tinha um site acessado por milhões de pessoas, mas não sabia como ganhar dinheiro com aquilo. Tinha muito idealismo e romantismo”, diz o CEO da 99Táxis, Paulo Veras, que em 2000 tinha duas empresas.

Uma delas era um guia online de gastronomia, vendido pouco antes da bolha. O outro negócio era uma produtora de sites que tinha 100 funcionários. “Deixei a sociedade nessa época para fazer MBA. A empresa teve de encolher bem, mas se recuperou e opera até hoje.”

Segundo ele, muita gente obteve investimento e vendeu negócio baseado em tráfego. “Hoje, todos estão mais espertos e preocupados em descobrir como monetizar o negócio.” Veras afirma que, “infelizmente” a história tende a se repetir.

“Há dois anos houve um estouro no número de sites de compras coletivas. O Brasil chegou a ter dois mil sites em um ano. Isso claramente não é natural e não podia terminar bem. Acho que quem investiu nesse negócio esqueceu parte das lições da bolha, pois não se deve entrar em um segmento no qual todos estão apostando.”

Ele diz que estudiosos de bolhas históricas chamam essa atitude de comportamento de manada. “É preciso prever as coisas que vão ser interessantes um pouco antes e trabalhar rápido, ganhar corpo e escala antes que vire uma febre”, diz.

Veras diz que o aplicativo da 99Táxis conecta passageiros e taxistas. “Ele virou uma ferramenta indispensável para quem experimenta. E não gastamos nada com marketing, criamos a empresa baseada em bom produto, para fidelizar os clientes, que indicam o aplicativo para os amigos. Crescemos com o boca a boca e com o corpo a corpo junto aos taxistas.”

Ele afirma que o negócio é super sustentável, com grande recorrência e fidelidade tanto dos taxistas quanto dos passageiros. A 99Táxis está beirando os 100 mil táxis cadastrados. “No início, eram feitas cerca de 300 corridas por dia. Hoje, são mais de 50 mil em todo o Brasil. Temos muito espaço para crescer, porque menos de 10% das corridas de táxi que ocorrem no País são feitas via aplicativos.”

Segundo ele, um legado importante deixado pela bolha no Brasil foi a cultura de startups semelhante a do Vale do Silício. “O desejo de inovar e de fazer algo grande começou depois da bolha. O mercado de investimento também não existia no País até aquele momento. ”

O fundador da Zero 1 Digital, Roberto Icizuca

O fundador da Zero 1 Digital, Roberto Icizuca

 

O dono da Zero 1 Digital, Roberto Icizuca, conta que surfou na subida e participou da queda gerada pela bolha. “Nossa empresa foi fundada em 1997. Nascemos como agência de marketing digital e gerenciamento de portais. Quando a bolha estourou, tínhamos cerca de 40 funcionários. Foi um período tenso, tivemos de cortar 50% do pessoal para sobreviver.”

Segundo ele, o estouro era previsível. “Aquelas avaliações milionárias dos negócios e os altos investimentos em empresas ainda sem nenhum retorno financeiro era irracional. Olhávamos com ceticismo essa movimentação. Apesar disso, o mercado estava muito aquecido, tínhamos fila de espera para trabalhos. De uma hora para outra tudo acabou”, recorda.

Icizuca diz que essa experiência serviu para aprender a gerenciar o negócio em um momento de crise. “Adequamos a empresa à nova realidade. A saída foi passar a atender demandas que não eram exploradas. Os CDs roms, que hoje pertencem ao passado da tecnologia, tinham bom apelo comercial e fizemos coleções de vários títulos para editora Abril.”

Desde o final de 2009, a empresa se especializou em aplicativos infantis para iPhone, iPad e Androide. “Percebemos que esse seria um caminho sem volta. Em pouco mais de quatro anos migramos totalmente para os aplicativos. Hoje, temos portfólio de 15 propriedades intelectuais como Galinha Pintadinha e Palavra Cantada.”

Segundo ele, Muitos acham que vivemos uma nova bolha, com investimentos elevados, aquisições bilionárias etc. “Eu Acho que não. Hoje, a avaliação das empresas é mais realista, os fundamentos são mais sólidos, os negócios são muito mais testados e as receitas são verdadeiras. Além disso, o mercado é muito maior, temos sete bilhões de pessoas conectadas em todo o mundo.”

O criador do site ViajaNet, Bob Rossato

O criador do site ViajaNet, Bob Rossato

 

Em março de 2000, enquanto os reflexos da bolha devastavam empresas, o fundador do site ViajaNet, Bob Rossato, criava uma startup de venda de passagens áreas online que resultou no ViajaNet. “Naquela época, tudo era cinematográfico. A internet ainda não tinha tantos usuários e mesmo sem ter receita, me lembro que as empresas de tecnologia já nasciam com uma avaliação milionária.”

Ele diz que poucas empresas sobreviveram ao estouro da bolha. “A minha foi uma delas. Tínhamos aporte, mas os grandes investidores deixaram de acreditar em projetos de internet mundo afora. Ficou impossível captar recursos.”

Neste cenário, Rossato diz que as empresas aprenderam a sobreviver com sua própria receita. “Tivemos de readequar toda a operação e enxugar o número de funcionários. Foi um grande aprendizado.”

Ele conta que em 2009 o negócio passou a operar como ViajaNet. “Hoje, estamos entre os líderes do segmento de venda de passagens aéreas pela internet, com 120 funcionários. Estamos juntos com a Decolar, que tem cerca de 16 anos de mercado. A experiência daqueles anos nos ajudou a construir o negócio. ”

Rossato afirma que com a bolha aprendeu a controlar os custos e a fazer o negócio sobreviver com a receita disponível. “Também aprendi a usar melhor os investimentos recebidos posteriormente, e aplicá-los no lugar certo, na hora certa. É assim que se cuida de uma empresa real. Não é porque atuamos na internet que temos de ser fora do normal. Para perpetuar o negócio, temos de gerar empregos, receita e lucro para os acionistas.”

Para atuar no online, empreendimento deve ter uma base sólida

Alheio aos desdobramentos negativos gerados pelo estouro da bolha da internet, Clóvis Souza escolheu justamente este período para criar o portal Giuliana Flores. “Conheci a internet em 2000. Como já tinha uma floricultura, quis levar o catálogo de flores para este novo ambiente. Só ouvi falar da bolha anos depois”, afirma.

Clóvis Souza, da Giuliana Flores

Clóvis Souza, da Giuliana Flores

Souza conta que não tinha nada a perder e que a loja virtual foi crescendo junto com a internet. “Para manter o crescimento, preciso estar sempre buscando inovações.”

O investidor Walter Sabini Júnior, dono da HiPartners Capital & Work, empreendia na época da bolha. “De empreendedor de internet virei investidor. A grande lição é que todos começaram a entender a necessidade de amadurecer melhor os projetos e saber a viabilidade deles. A internet continua sendo um canal com grande crescimento, mas exige uma base muito sólida”, ressalta.

Sabini Júnior diz que agora, os investidores analisam uma empresa de internet como se fosse uma empresa física. “Os investidores que atuavam na época da bolha, agora preferem investir em empresas já conceituadas, fadadas a serem maiores. Já as startups recebem aporte de investidores que querem apostar pouco dinheiro, uma vez que o risco é grande”, diz.

Vice-presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro Nacional), o pernambucano Gerino Xavier conta que no Nordeste a bolha atingiu empresas criadas nas universidades. “Jovens empreendedores ficaram empolgados com a possibilidade de receitas altas e rápidas. Surgiam incubadoras e todos sonhavam em ir para a Bolsa de Valores. Fundos de investimento do Sudeste fizeram aportes grandiosos aqui, na busca do lucro fácil”, conta.

Xavier, que também comanda a empresa de tecnologia da informação BisaWeb, percebia algo estranho naquele movimento. “Tudo estava fora da realidade, com números astronômicos. Acreditava que para nosso negócio, não cabia a figura do investidor naquele momento. Discuti muito sobre isso, porque todos queriam aproveitar aquela conjuntura”, conta.

Segundo ele, a crise da Nasdaq deixou evidente que houve inexperiência de ambos os lados. “Os empreendedores se deslumbraram e os investidores acharam que todos os negócios eram uma Microsoft.”

Para ele, o boato de nova bolha é pura especulação. “Diferentemente daquela época, hoje, o sucesso de startups advém de parcerias com as grandes corporações, que enxergam nestes jovens a inovação para fazer o setor andar. Uma grande ideia deve ser financiada. O atual investidor privado quer mais do que uma ideia, ele quer estudo de mercado, levantamento aprofundado, quer saber quais serão os parceiros que darão sustentação ao projeto.”

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