Empresários que fazem do lixo boa fonte de renda

Claudio Marques

10 de setembro de 2012 | 08h06

Cris Olivette
Negócios tendo como alvo a reciclagem e o reaproveitamento de material atraem cada vez mais empresários. É o caso de Renato Soares de Paula. Há uma ano, ele deixou a operação da RS de Paula nas mãos de sua mulher para atuar exclusivamente na implantação do Programa de Logística Reversa de Cartões, desenvolvido por ele para reciclar cartões.
Segundo De Paula, dados da Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito (Abecs) apontam que até julho deste ano foram produzidos no Brasil 772 milhões de cartões de crédito, débito e de redes varejistas. “Mas esse volume é maior, porque não foram computados os de assistência médica, de seguradoras, crachás, telefônicos etc”, afirma.
Seu projeto de reciclagem inclui a implantação de estações coletoras que inutilizam o material. O aparelho para esse fim foi criado por ele. “É uma forma de descarte segura e simples. Basta inserir o cartão na máquina e girar a manivela para picotá-lo.” De Paula afirma que o PVC dos cartões é 100% reciclável. “Mas, ao serem jogados na natureza, levam mais de 200 anos para se decompor.”
Ele está em contato com bancos, empresas de assistência médica, entre outras. Seu objetivo é convencê-los a assumir a responsabilidade pelo recolhimento dos cartões no momento do descarte. “Todos aprovam a ação e sabem que algo precisa ser feito. A aceitação está sendo muito boa. Por isso, acredito que o projeto será viabilizado.”
Até o momento, três estações coletoras já foram instaladas nas estações Sé, Conceição e Tietê do Metrô de São Paulo, e também em algumas empresas. “Em quatro meses, 148 mil cartões foram coletados, o equivalente a 740 kg de PVC. Os números ainda são pequenos, mas já tenho clientes que só querem trabalhar com cartão reciclado.”
O produto picotado vai para a RS de Paula, onde os pedaços que contém o chip e a tira magnética são separados dos demais. Esse material não tinha reaproveitamento, mas De Paula desenvolveu uma forma de compactá-los, formando uma placa usada para fazer capas de cadernos e de agendas. O restante da matéria-prima picotada é transformada em nova placa de PVC, usada na confecção de cartões reciclados.
Por enquanto, o empresário diz que sua experiência ainda não é muito rentável. Mas a situação é diferente para outros empreendedores do segmento.
Segundo um dos sócios da Trampo Gestão Sustentável de Lâmpadas, Carlos Pachelli, o processo de criação do sistema de descontaminação de lâmpadas fluorescentes começou em 2003, mas a empresa só passou a operar comercialmente no começo de 2008.
“Hoje, temos mais de 600 clientes e reciclamos cerca de 300 mil unidades de lâmpadas por mês. Recebemos o material de hospitais, universidades, montadoras de veículos, entre outros. A empresa emprega 17 funcionários e projeta faturar mais de R$ 3 milhões neste ano. “A operação se paga, e o negócio é rentável.” Pachelli conta que são extraídos quatro subprodutos a partir das lâmpadas. “O vidro e o pó fosfórico são destinados para a indústria cerâmica, o terminal metálico vai para fundições e o mercúrio segue para institutos de pesquisa.”
A Sumer Plásticos aposta na reciclagem de polietileno de baixa densidade. Segundo o gestor da empresa, Cosmo Pacetta, a empresa produz mais de 200 tipos de perfis de PVC a partir de matéria-prima reciclada, e que são usados em acabamentos cerâmicos. “Mas a novidade é o batente para portas feito de poliuretano, que vamos lançar na próxima semana. Um batente de madeira pesa 20kg, mas o nosso pesa 3,8 kg. Se pensarmos em uma torre de 20 andares, o alívio estrutural chegaria a 15 toneladas.”
Pacetta diz que a Sumer foi criada há três anos e que o faturamento vem crescendo. “No primeiro ano faturamos R$ 300 mil, no ano seguinte R$ 500 mil. Para este ano nossa expectativa é de atingirmos R$ 800 mil.”
Com mais tempo de mercado, a Suzaquim Indústrias Químicas recicla resíduo industrial perigoso proveniente da indústria de galvanoplastia há 24 anos. “Mas, em 1997, passamos a reciclar também pilhas, baterias e lixo eletrônico”, conta a gerente técnica Fátima Santos.
Ela diz que a empresa recebe por mês 150 toneladas de pilhas e baterias e 900 toneladas de lixo eletrônico. Fátima conta que, antes, os óxidos e sais metálicos comercializados pela Suzaquim para a fabricação de corantes e tintas industriais eram produzidos a partir de matéria-prima extraída da natureza.
“Quando comecei a trabalhar na empresa, cuidei da adequação da fábrica para obter licença ambiental e passamos a reciclar esses resíduos. Hoje, a matéria-prima que usamos não causa mais impacto no ambiente. E evitamos que esses contaminantes atinjam a natureza.” A Suzaquim possui 79 funcionários e fatura R$ 12 milhões por ano.

Para entidade, há espaço para pequenos

O diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), André Vilhena, afirma não ter dúvida de que existem muitas oportunidades de negócios para pequenos empresários no segmento de reciclagem. “Isso ocorre tanto no âmbito das cooperativas, que são pequenos empreendimentos onde ocorre o pré-beneficiamento do material reciclável, como também na produção de produtos acabados, fabricados por pequenos empresários.”
Vilhena cita como exemplo a produção de telhas ecológicas feitas a partir de embalagens longa vida. “Esse produto é muito interessante, porque oferece melhor conforto térmico, reduzindo em 30% a passagem de calor.”
O assessor técnico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SMA), Flávio de Ribeiro Miranda, diz que em São Paulo diversas ações estão sendo implantadas pelo Estado, município e população, que num futuro próximo devem aumentar a quantidade de material a ser reciclado de forma estrondosa.
“Com isso, será criada uma demanda enorme para a reciclagem. Só que nós verificamos, porém, que para muitos produtos ainda não existe uma capacidade instalada apta a receber e processar esses materiais.”
Segundo Miranda, a SMA tem recebido diversas missões internacionais interessadas em estabelecer negócios de reciclagem no País, ou levar os resíduos daqui para serem processados em outros países. O técnico afirma que isso vem ocorrendo pela falta de serviços nessa área, constatada até pelos empreendedores internacionais.
“Acho muito triste ter de exportar esse material para outro país, ou mesmo para outro Estado, porque quando falamos em resíduo reciclável, estamos falando de um recurso econômico com valor de mercado.” Miranda ressalta que não aproveitar esses resíduos não é só desperdiçar seu valor econômico, mas é também fazer com que a necessidade de material seja suprida por novas extrações de matéria-prima, o que acaba gerando impactos ambientais.
Estudo sobre coleta seletiva realizado neste ano pelo Cempre mostra que a concentração dos programas municipais de coleta seletiva ocorre nas regiões Sul e Sudeste do País. “Do total de municípios brasileiros que realizam esse serviço, 86% estão situados nessas regiões, além disso teremos um incremento ainda maior num curto prazo, em consequência da entrada em vigor da Política Nacional de Resíduos Sólidos”, diz Vilhena.
Segundo Miranda, muitos empreendedores ainda não acordaram e estão perdendo essa oportunidade. “Isso me preocupa, porque, entre o empresário decidir fazer o investimento e ter a empresa licenciada, existe um tempo. Então, poderemos viver um período de transição, quando haverá material reciclável nas cooperativas e não teremos quem o processe”, ressalta.
Ele destaca, ainda, que boa parte da viabilidade econômica desse processo depende da distância a ser percorrida no transporte dos resíduos. “É essencial que as empresas de processamento estejam pulverizadas para que haja viabilidade econômica.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: