Empresas engajadas aliam lucratividade e impacto social

A escolha entre ganhar dinheiro ou ajudar pessoas não precisa ser excludente; novos negócios contam com diversas fontes de receita

CRIS OLIVETTE

04 Junho 2018 | 10h21

Alexandre Albuquerque. Foto: Marco Torelli/Divulgação

É crescente o número de empreendedores engajados que investem na tese de que é possível conciliar lucro com a promoção de impacto social. “Gosto da frase: entre ganhar dinheiro e ajudar as pessoas fico com os dois”, diz o fundador do Banco Maré – sistema financeiro virtual criado no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro –, Alexandre Albuquerque.

Segundo ele, não existe impacto social sem dinheiro. “É preciso gerar recursos para contratar pessoas e manter o sistema, mas também causamos impacto solucionando problemas de pessoas que vivem em comunidades e não têm acesso ao sistema financeiro convencional.”

A ideia do negócio surgiu quando Albuquerque visitou o Complexo da Maré, região com 200 mil moradores e que reúne 16 comunidades. “Queria ter contato com alunos do ensino médio para convidá-los a ingressar em um projeto de formação de programadores. Descobri que na região não havia escola de ensino médio e um dos líderes locais perguntou se poderia ajudá-los com a questão de pagamentos, pois precisavam pegar ônibus e ir ao banco em outro bairro.”

Na época, Albuquerque estava estudando sobre moeda virtual e comentou o caso com amigos. “Eles brincaram, sugerindo que eu criasse uma moeda virtual, mas eu levei a ideia a sério.” Em seguida, ele soube que o engenheiro de segurança do Twitter Maer Salal estava em férias no Brasil. “Fui a São Paulo e expliquei o projeto a ele, que me ajudou a montar uma versão beta do aplicativo, lançada em agosto de 2016.”

O negócio começou com ele sentado em uma cadeira, com um notebook no colo e uma placa: ‘Banco Maré, pague suas contas aqui’. Após 15 dias, uma senhora pagou uma conta, viu que deu certo e trouxe outras pessoas. O boca a boca correu pela comunidade e o número de usuários aumentou.

“Hoje, temos dez funcionários que trabalham nas quatro unidades do Banco Maré instaladas na comunidade. A idade média deles é 21 anos e já colocamos sete na faculdade. Formamos nossa mão de obra e esse é um dos motivos do sucesso.”

Os moradores batizaram a moeda de Palafita porque a comunidade nasceu em palafitas às margens da Baía de Guanabara. O sistema funciona por meio de aplicativo mobile e a recarga é feita de forma semelhante a usada nos celulares.

“Em março deste ano, só na Maré, foram pagos R$ 2 milhões em boletos. E o número de pessoas que pagam contas atrasadas caiu 65%”, ressalta.

A receita do banco vem do pagamento de mensalidade pelo uso do cartão pré-pago Maré, com bandeira Mastercard, que custa R$ 10. “Este valor é convertido em bônus de celular para os clientes. Eu pago R$ 5 à empresa que fornece o bônus e fico com R$ 5”, conta. Outra fonte de receita é um porcentual sobre cada boleto pago. “Também temos maquininhas de pagamento por cartão e recebemos porcentual a cada transação”, completa.

“Estamos expandido para Heliópolis e Vila Prudente, em São Paulo, e até o final do ano estaremos em Paraisópolis, além de outras comunidades do Rio.” O Banco Maré está entre os dez negócios de impacto em aceleração pela Estação Hack – parceria do Facebook e Artemisia.

Preconceito. Outro negócio acelerado pela Estação Hack é o Diáspora.Black, criado por Carlos Humberto da Silva Filho. A plataforma de marketplace é voltada a serviços de turismo e convida as pessoas a valorizarem a cultura negra, além de promover igualdade e diversidade.

Carlos Humberto da Silva Filho. Foto: Marco Torelli/Divulgação

“Sou um homem negro e vi que havia a necessidade de termos serviços e produtos de turismo para atender as necessidades desse público. Vivi experiências racistas tanto na locação de acomodação em minha casa quanto ao acessar sites que oferecem esse serviço. O mesmo ocorreu ao me hospedar em hotéis e pousadas.”

Segundo ele, essa rejeição foi comprovada pelo estudo ‘Racial Discrimination in the Sharing Economy: Evidence from a Field Experiment’, feito pela universidade de Harvard, que identificou que a população negra enfrenta dificuldade para acessar acomodação compartilhada em plataformas virtuais.
“Eu me vi nesse estudo, mas antes disso já vinha validando a minha ideia, para ter certeza de que não era um problema pontual e confirmar a necessidade de criar serviços qualificados, que blindassem os clientes de experiências constrangedoras.”

A plataforma opera desde junho de 2017 e começou oferecendo acomodações compartilhadas para pessoas negras. “Agora, estamos lançando serviços de experiências de valorização da cultura negra, com roteiros disponíveis na plataforma oferecidos por guias e agências parceiras.”

Silva Filho conta que também acaba de validar um curso de qualificação do setor. “Os usuários da plataforma não querem viver experiências racistas ao acessar os serviços oferecidos por estabelecimentos da nossa rede. Vamos qualificar o setor de hospedagem e o das companhias aéreas.”

Segundo ele, o critério para vender acomodações na plataforma requer funcionários qualificados para que o estabelecimento obtenha o selo Diáspora.Black. “Com o selo, o setor estará preparado para receber a população negra e para promover igualdade e diversidade.”

A plataforma está presente em 70 cidades de 36 países e conta com três mil clientes cadastrados, entre anfitriões e viajantes. “Nossa página tem 250 mil acessos por mês e recebemos 10% de participação em cada negociação”, conta Silva Filho.

‘Modelo deve ser financeiramente sustentável’

Gerente de seleção e apoio a negócios da Artemisia – entidade que apoia negócios de impacto social –, Felipe Alves afirma que o cerne de atuação de um negócio de impacto social deve ser a intenção genuína de gerar resultado positivo à sociedade por meio de seu produto/serviço.

Felipe Alves. Foto: Leo Canabarro/Divulgação

“São pessoas que sonham grande e miram a transformação social ou ambiental. Na mesma proporção, devem ser pragmáticos para concretizar a proposta e não perder de vista os resultados concretos de sua solução.” Segundo ele, o empreendedor de impacto constata um problema social e desenvolve uma solução para resolvê-lo, por meio de um modelo de negócio que precisa “parar em pé” e ser de fato eficiente no que se propõe a fazer.

“Um negócio de impacto social é, antes de qualquer coisa, um negócio. Como todo negócio, deve ter modelo financeiramente sustentável, que não dependa de doações. Essa é a premissa básica para qualquer negócio no segmento”, afirma Alves.

Plataforma dá visibilidade para pequenos projetos

A plataforma Simbiose Social, criada por Raphael Mayer, Mathieu Anduze e Tadeu Silva, nasceu para fortalecer a conexão entre o primeiro, segundo e terceiro setor, em relação à captação de recursos por meio das leis de incentivo. “Queremos provar que ganhar dinheiro e gerar impacto social podem andar juntos e mudar a realidade de muitas pessoas”, diz Mayer.

Tadeu Silva (à esq.) Raphael Mayer, Mathieu Anduze. Foto: Alex Silva/Estadão

A ideia do negócio surgiu quando os amigos Mayer e Anduze trabalhavam, respectivamente, nas áreas de marketing da Ambev e da Unilever. “Ao conhecermos os mecanismos das leis de incentivo, que permitem às empresas direcionar parte dos impostos a projetos de impacto social, vimos que havia problemas para gerir tais recursos, principalmente pela falta de informação”, diz Anduze.

Por serem patrocínios, as leis têm atreladas a elas contrapartidas e, às vezes, projetos de alta visibilidade tinham fácil acesso dentro das empresas, enquanto projetos menores, que precisavam mais de recursos, não tinham a mesma facilidade.

“Muitos recursos ficavam concentrados entre os mesmos proponentes, o que nos incomodava. Conversamos com outras empresas e vimos que isso era comum”, afirma Mayer.

Ao estudar esse mercado, eles descobriram que 71% dos projetos aprovados no País morriam no papel, por não conseguirem captar recursos. Do lado das empresas, o direcionamento de recursos fiscais não atingia 50% do teto anual.

“Em meados de 2016, procuramos órgãos públicos para obter mais informações, mas precisamos acessar a lei de transparência contra os ministérios para obter os dados. Então, convidamos para a sociedade o programador Tadeu Silva que desenvolveu um robô que entra no sistema de informação de cada secretaria e ministério e baixa os dados públicos dos projetos para a nossa base de dados.”

Após consolidar as informações, a Simbiose Social obteve dados históricos de leis de incentivo de 1992 até hoje. “Mapeamos e detalhamos informações de 182 mil projetos, sendo que, no momento, 30 mil estão na fase de captação. Nosso sistema atualiza as informações a cada cinco horas”, conta Anduze.
O volume de dados despertou interesse do Centro de Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas. “Fomos incubados por eles e iniciamos pesquisa conjunta para cruzarmos esses dados e torná-los gerenciáveis de forma simples”, diz Mayer.

Hoje, a plataforma tem três focos principais de atuação e os sócios acreditam que podem mudar a realidade do País por meio das leis de incentivo.

“As empresas que adotam nosso sistema de busca de projetos podem gerir os seus impostos de forma inteligente e ágil. Quando selecionam um projeto para investir, nós o auditamos e fornecemos uma análise de risco à empresa.”

Segundo eles, 78% desses recursos estão no eixo Rio-São Paulo. Para ajudar as propostas criadas em outras partes do País, eles desenvolveram um sistema que cruza as informações históricas dos patrocinadores.

“Por meio dele, o proponente lança as características de seu projeto e obtém análise que indica as empresas com probabilidade de investir nesse tipo de proposta. Assim, eles sabem atrás de quem ir.”

Outra fonte de receita será o Índice Social de Mercado de Leis de Incentivo. Realizado em parceria com a FGV, o indicador vai metrificar a qualidade do investimento socioeconômico de cada empresa no âmbito de cultura, para identificar quem investe com foco social ou as empresas que usam a lógica de marketing. Os sócios contam que a ferramenta tem potencial de ser empregada em outros países que usam leis de incentivo. “Isso deve ocorrer dentro de três ou quatro anos.”