Enxugar pode significar sobrevivência da empresa

Enxugar pode significar sobrevivência da empresa

Para tirar negócio da estagnação, empresários recorrem a alternativas que incluem novo posicionamento e redução de pessoal

CRIS OLIVETTE

09 de novembro de 2014 | 08h09

Rafael Bueno, dono da lanchonete Zaatar

Rafael Bueno, dono da lanchonete Zaatar

Readequar o negócio para fazê-lo crescer foi a solução encontrada pelo dono da lanchonete árabe Zaatar, Rafael Bueno. Ele conta que a marca nasceu em 2012, como restaurante de comida libanesa. “O retorno financeiro não estava sendo o esperado. O espaço era grande, tinha aluguel alto e demandava pelo menos 25 funcionários, o que encarecia os gastos com mão de obra. Diminuir a estrutura foi a saída para tornar o negócio sustentável”, afirma.

Em maio deste ano, Bueno inaugurou um novo espaço. Agora, opera como lanchonete. Ele diz que o resultado tem sido muito bom. “O faturamento cresce mensalmente. Desde maio, crescemos 65%. Até o final de dezembro espero aumentar em mais 30%. Além do negócio estar indo bem, estou mais feliz neste novo modelo. Mesmo tendo de me dedicar mais e colocar a mão na massa, a sensação é de maior satisfação.”

Segundo ele, os empresários precisam ficar atentos aos números e não ter medo de mudar quando o negócio estiver estagnado. “Muitas vezes, com menos funcionários e menos produtos, é possível atender melhor o cliente e ter uma operação mais redonda. Hoje, não tenho garçom. Eu mesmo faço o atendimento, que passou a ser mais personalizado. Diminui os custos e aumentei a qualidade.”

Quando o negócio deixa de crescer e a situação financeira se torna preocupante, a solução pode ser a capacitação. “O programa Sebrae Mais Estratégias Empresariais, foi criado para ajudar os empresários justamente neste momento”, diz o consultor da entidade, Haroldo Eiji Matsumoto.

Segundo ele, entre as situações que podem ameaçar a sobrevivência de uma empresa, estão a entrada de novos concorrentes no mercado, e crise econômica no País, como a de agora. “Outro perigo, é o surgimento de alguma inovação no segmento em que atua. Se ela não for acompanhada pela empresa, o negócio se tornará obsoleto. Esses fatos balançam muito o desempenho”, diz.

Matsumoto afirma que rever os processos pode ser uma saída. “O empresário deve avaliar se há desperdício, como anda a produtividade e o seu posicionamento no mercado. A parte física também deve ser considerada. A estrutura da empresa não pode ser maior do que a realidade do mercado no qual atua. Reduzir os custos fortalece o negócio e o prepara para continuar avançando.”

Nelson Nascimento Júnior, da N Nascimento Distribuidora de Motores Elétricas

Nelson Nascimento Júnior, da N Nascimento Distribuidora de Motores Elétricas

 

No caso de Bueno, a capacitação feita antes de começar a empreender deu a ele condições para encontrar uma solução para o Zaatar. “Sou formado em hotelaria. Mas também fiz MBA em gestão de negócios na FIA/USP, e Empretec no Sebrae.”
Este, no entanto, não foi o caso do dono da N Nascimento – Distribuidora de Motores Elétricos Ltda, Nelson Nascimento Júnior, que em 2013 percebeu que as suas tentativas para tirar a empresa do sufoco, não estavam surtindo efeito.

“Tínhamos todos os males possíveis. Problemas com o fluxo de caixa, despesa alta, faturamento baixo e dívida com o banco. Sem saber o que fazer, recorri à capacitação. Participei do Sebrae Mais, com foco na organização da empresa. Os consultores me acompanharam durante quatro meses.”

O analista de sistemas diz que passou a fazer estudo de mercado e a traçar metas. “Fiz até plano de negócio, coisa que a empresa criada por meu pai, em 1976, nunca teve.”

Ele conta que o negócio era tocado como dava. “Se faturasse R$ 100 mil era ótimo, se fosse R$ 500 mil era ótimo também. Agora, o cenário é completamente diferente. Em fevereiro, quitamos as dívidas com o banco, o faturamento dobrou e reduzi as despesas em 30%.”

Em outubro, a empresa bateu recorde anual de faturamento e os 35 funcionários receberam um bônus. “Já crescemos 35% em relação a 2013.” Nascimento Júnior afirma que não reduziu o pessoal, mas substituiu algumas pessoas por outras mais qualificadas. “Por meio de uma parceria com o Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), contratei estagiários de engenharia e de administração. Alguns já foram efetivados.”

Sua dica para empresários que estão em dificuldade é, em primeiro lugar, controlar os custos o tempo todo. “A despesa tem de ser compatível com o faturamento. Adotei o uso de uma planilha bem detalhada, assim, posso esmiuçar os dados. Além disso, estabeleça metas e ajude a equipe a alcançá-las. Quando isso correr, é importante parabenizá-los e dar algum incentivo. Essa tem sido nossa fórmula de sucesso”, afirma.

Produtividade melhora após reestruturação

Márcio Flores, fundador do grupo Manga

Márcio Flores, fundador do grupo Manga

Trabalhando de forma integrada projetos de comunicação, esporte, saúde, entretenimento e ações de marketing, o grupo Manga, fundado por Márcio Flores, iniciou sua reestruturação há dois anos. Desde então, cresceu 30% ao ano.

“A primeira mudança séria foi deixar de montar equipe só com perfil publicitário. Trouxe pessoas ligadas às áreas de vendas e administrativa, criando novas funções dentro da empresa.” Em seguida, ele eliminou o excesso de pessoas. “Dispensei quem tinha muito blá-blá-blá e nenhum resultado. Trouxe gente mais velha e mais comprometida com os resultados.”

Segundo ele, a empresa que tinha cerca de 60 pessoas, tem agora 38. “Não diminuí a meta do ano e estamos entregando os mesmos resultados. Parece milagre, pois já batemos as metas do último trimestre e já distribuímos bônus para todos.”

Flores afirma que a estratégia de contratar seniores deu certo. “Na área de comunicação é comum trabalharmos com gente nova. Claro que há muitas ideias legais transitando no meio dos jovens, mas eles não conseguem mensurar os resultados. Pessoas mais velhas já passaram pela fase utópica e trabalham dentro da realidade, isso ajuda demais no cotidiano.”

Segundo ele, outro aspecto positivo na mudança de perfil da equipe é que essas pessoas já têm filhos, tem família. “Elas priorizam muito mais as atividades e realmente trabalham no período em que estão na empresa. Não adianta ficar mais de dez horas no trabalho e passar várias horas no Facebook e batendo papo. No final, vão para casa falando que trabalharam demais, mas na verdade não fizeram nada”, afirma.

O empresário diz que a redução de cerca de 40% do pessoal não resultou em sobrecarga de trabalho. “Hoje, às 21h, dificilmente tem gente na empresa. Antes, era normal ficarmos até de madrugada e trabalharmos nos finais de semana. Se existe pessoal virando noite é sinal de que há algum problema que precisa ser tratado.”

Flores afirma que outra mudança foi sua volta para o cotidiano da operação. “Isso foi relevante para imprimir a maturidade que os projetos necessitam.”

Ele conta que até mesmo entre os membros da diretoria houve mudança, porque muitos não concordaram com o fato de terem de voltar para o dia a dia da empresa. “Mas essa passou a ser uma condição sine qua non para seguir no trabalho. Quando se muda a filosofia do negócio é preciso fazer uma renovação mental e intelectual.”

Tudo o que sabemos sobre:

Grupo MangaN NascimentoSebrae MaisZaatar

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.