As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Experiências transformam e inspiram negócios

Escapar da morte, enfrentar doença e perder tudo levam a um novo recomeço

CRIS OLIVETTE

08 Outubro 2017 | 07h21

Stéphanie Habrich. Foto: Felipe Rau/Estadão

A inspiração para empreender pode vir de uma necessidade pessoal, da identificação de uma oportunidade, ou de uma forte experiência de vida. Sobreviver ao ataque às Torres Gêmeas, ocorrido em 11 de setembro de 2001, por exemplo, foi o sinal que Stéphanie Habrich precisava para deixar de trabalhar no mercado financeiro, atividade com a qual já não estava satisfeita, para buscar outra atuação que a deixasse realizada profissionalmente.

Filha de um alemão e uma francesa, ela nasceu na Alemanha e veio morar no Brasil com oito anos. “Cresci lendo revistas europeias para crianças. Depois de adulta, já trabalhando nos Estados Unidos, encomendei estudo de mercado sobre esse segmento no Brasil, e vi que realmente havia um gap na área infantil. Na França, há mais de 50 títulos para crianças”, conta.

Dona de um coração brasileiro, Stéphanie queria representar publicações francesas no Brasil. “Nenhuma marca aceitou. Tentei isso durante quatro anos. Nesse meio tempo, passei pelo trauma do ataque às Torres Gêmeas. Eu estava no quarto andar e consegui escapar. Mas minha empresa teve de sair de Manhattan, minha área foi fechada e eu perdi o emprego.”

Ela aproveitou o período para fazer mestrado e pensar no que iria fazer. “Fiz cursos sobre empreendedorismo. Quando terminei, voltei para o Brasil com meu marido e dois filhos. Aqui, criei a editora Magia de Ler.”

Com background em mercado financeiro, ela levantou recursos e em 2011 lançou o Joca, o primeiro jornal para criança do País. “Não inventei nada. Na França, há mais de dez jornais diários para crianças. Nos Estados Unidos, são mais de 30. Na Ásia também existem vários.”

Segundo ela, a publicação faz a ponte entre a vida real e o que o alunos aprendem na escola. “Como não há propaganda, só ganho dinheiro com assinatura. Então, procurei às melhores escolas de São Paulo com a expectativa que outras escolas aderissem posteriormente, e deu certo. Hoje, o pedido de assinatura entra como material obrigatório, no começo do ano.”

O Joca tem 16 páginas, é quinzenal e tem versão online diária. Ele também tem versão em inglês com três níveis. O conteúdo trata do que acontece no mundo, com linguagem adequada aos leitores do segundo ao sétimo ano do Ensino Fundamental I.

Hoje, a publicação está em mais de 100 escolas privadas do Brasil e em mais de 50 escolas públicas. “Temos cerca de 12 mil assinaturas e previsão de faturar R$ 2,2 milhões neste ano.”

Bianca Laufer. Foto: Juliana Rezende/Divulgação/Green People

Saúde. Ter sofrido de anorexia na adolescência e o fato de ter uma avó que passou fome e foi a única sobrevivente da família no campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial são situações extremas, relacionadas à comida, que levaram Bianca Laufer a fundar a marca de sucos prensados Green People. “Costumo dizer que quem teve anorexia sempre vai ter cabeça anoréxica. Mesmo curada, tenho receio de engordar e ainda penso nas calorias de um prato.”

Segundo ela, sua história de vida serviu de base para a criação do negócio. “Quando engravidei, foi o primeiro momento de minha vida em que não estava estudando e nem trabalhando, e pude elaborar a relação desses fatos em minha vida.”

Bianca afirma que criar a Green People foi uma forma que encontrou para manter contato com nutricionistas, aprender mais sobre os insumos e tentar ajudar outras pessoas a entender que ter prazer em comer não faz mal, desde que o alimento tenha densidade nutritiva.

Origem. Formada em economia, Bianca trabalhou no J.P. Morgan, em Nova York. “Eu tinha uma vida louca, saía tarde do trabalho e ia fazer ginástica, comia muita coisa diet, que hoje nem coloco na boca”.
De volta ao Brasil, ficou grávida, parou de trabalhar e começou a estudar a respeito de alimentação. “Fiz o curso online Health Coach pelo Institute of Integrative Nutrition (IIN). Hoje, sou terapeuta da saúde. Tudo para entender o meu medo da comida e de engordar.”

A ideia do negócio surgiu durante as férias em Maui, no Havaí, quando conheceu os sucos prensados a frio. O negócio nasceu em 2014 e hoje, emprega 110 pessoas.

“Trabalhamos com tecnologia de pressurização a frio HPP (pressurização em alta pressão), que preserva nutrientes e enzimas, proporcionando 90 dias de validade aos produtos.”

Bianca está adquirindo outra máquina HPP para aumentar a produção e fornecer para grandes redes de supermercados, até o final de outubro. No momento, os produtos são comercializados em dez quiosques próprios, lojas de produtos naturais e mercados sofisticados.

Ela ressalta que seu suco não é pasteurizado, pois a técnica mata as bactérias e também os nutrientes. “Suco prensado a frio é o futuro. Nos Estados Unidos e Europa, produtos pasteurizados já não são considerados tão saudáveis”, conta.

Em termos de preço ao consumidor, ela diz que acaba de lançar a linha Green People Basic, que custa o mesmo que os sucos pasteurizados, pois levam apenas um ou dois insumos. Já a linha premium é mais cara, porque tem mais de dez ingredientes e vale por uma refeição.

Doença mental na família estimula a criação de clínica

Formada em psicologia e dona da Mental Clean, Fátima Macedo não pensava em seguir essa profissão, até vivenciar um trauma doméstico. Sua empresa que faz análises psicológicas no ambiente empresarial e supervisiona o tratamento de funcionários com dependência química ou que tenham sofrido trauma, Fátima Macedo não pensava em seguir essa profissão, até vivenciar um trauma doméstico.

Fátima Macedo. Foto: Amanda Figueiredo/Divulgação/Mental Clean

“Eu tinha 18 anos e minha irmã ia completar 16 anos. Era uma menina alegre, comunicativa, estava entrando no mercado de trabalho e de repente parou de falar, de interagir, ficou agressiva. Passou a ter sintoma psicótico e foi muito pesado, porque demorou muito tempo para termos o diagnóstico correto.”

Durante muito tempo, ela conta, a irmã foi tratada como portadora de transtorno bipolar, quando na verdade tinha depressão psicótica. “O episódio foi muito impactante e desestruturou a todos na família.”
Depois de cogitar cursar jornalismo e administração, acabou optando por psicologia. “Foi como se eu tivesse ouvido um chamado e tivesse de me render ao meu destino.”

Segundo ela, a maior inspiração para seguir a profissão foi a intenção de reduzir o impacto que uma família enfrenta quando um de seus membros sofre de algum transtorno mental. “Eu não queria que outras famílias passassem por aquilo, porque sei que daria para ter sido menos sofrido, o impacto poderia ter sido menor.”

Inconformada com a situação começou a ir atrás de outras histórias, a verificar como o assunto era tratado no ambiente de trabalho, como as pessoas lidavam com a situação.

“Fui me deparando com muito preconceito. Num primeiro momento, comecei a trabalhar no Instituto de Psiquiatria do HC, em paralelo, comecei a atender em consultório. As demandas que chegavam, eram de trabalhadores que por conta do adoecimento mental afctavam o ambiente de trabalho.”

Fátima diz que passou a ter contato com a área de saúde e RHs das empresas, trabalhando a questão do preconceito. “Porque essas pessoas poderiam ser trabalhadores qualificados e capacitados, desde que fossem tratados adequadamente.”

A Mental Clean foi fundada em 2004. “Sempre fiz muita pesquisa sobre saúde ocupacional, pesquisei muito no exterior, fui trazendo informações para o Brasil e criando uma metodologia focada em quebrar preconceito dentro do ambiente de trabalho”, conta.

Hoje, a empresa tem 22 funcionários e trabalha com uma rede no Brasil composta por 600 profissionais da psicologia e psiquiatria. “Encaminhamos os casos para os profissionais da rede, que fazem o tratamento. Nós supervisionamos todos os casos que estão em atendimento”, conta.

Segundo Fátima, nos últimos cinco anos a empresa cresceu 243% em termos financeiros e deve fechar o ano faturando acima de R$ 2 milhões.

De devedora a conselheira

Em nove meses, Patrícia Lages comprou e fechou uma loja de lingerie em shopping de São Paulo, saindo da experiência com dívida de US$ 150 mil.

Patrícia Lages. Foto: Demetrio Koch/Divulgação/Bolsa Blidada

“Apesar de os produtos não serem importados, tinha muito aviamento e tecido importado. Eu não sabia, mas no desespero assinei confissões de dívidas em dólar.”

Hoje é dona da marca Bolsa Blindada, que oferece cursos e palestras sobre como negociar dívidas, e diz que o problema do devedor é ele se achar a pior pessoa do mundo.

“Na hora de cobrar, as pessoas trabalham muito em cima do lado psicológico do devedor. Eu me sentia muito mal e quando alguém propunha parcelar a dívida eu assinava, porque calada eu já estava errada.”

Para sair dessa situação, ela teve de estudar como fazer a gestão financeira da dívida. “Descobri que não havia um local no qual pudesse pegar informações gratuitas e não podia pagar consultoria. Aprendi sozinha, por tentativa e erro, e desenvolvi um método de finanças pessoais para me organizar.”

Segundo ela, depois de 11 meses e 21 dias, tinha conseguido quitar todas as dívidas. “Paguei porque aprendi a negociar. Também aprendi que dívida é um produto. Eu devia para 21 fornecedores e levantei tudo o que eu tinha para negociar com eles, como os móveis da loja, com os quais quitei uma dívida de R$ 25 mil. Deixei os bancos por último.”

Patrícia devia R$ 18 mil e tinha R$ 6 mil para negociar. “O gerente propôs abater metade da dívida. Falei que se ele não aceitasse, iria oferecer para outro banco, porque devia para três. Na terceira tentativa ele aceitou, afinal, já estava pagando o dobro da dívida por conta dos juros.”

Ter expertise em fazer um negócio dar errado, conforme ela mesma define, serviu de inspiração para saber como falar com empreendedores endividados, que queriam pagar e não podiam.

“Eu sabia de tudo isso na prática. Então, passei a ensinar as pessoas a saírem do buraco. Meu trabalho também passa pela questão emocional, de dizer que devedor não é bandido. Tratar o público de forma mais pessoal foi o pulo do gato.”

A Bolsa Blindada começou como um blog, em 2011. Hoje, além do blog, tem loja virtual para vender os quatro livros que já publicou e pelos quais recebe royalties sobre as vendas, realiza palestras e oferece cursos online.

“Desenvolvi vários produtos que me proporcionam renda. Diversificar a renda é o grande lance ao empreender, porque quando uma coisa não está dando certo a outra atividade cobre.”
Patrícia também coordena a área administrativa e financeira do estúdio fotográfico do marido e há dois anos tem um quadro semanal no programa Mulheres, da TV Gazeta, no qual desenvolve pautas sobre finanças.

Mais conteúdo sobre:

traumasuperaçãorecomeço