Mestre e  doutores criam seus  negócios

Mestre e doutores criam seus negócios

Veja como o saber acadêmico influiu na geração de empreendimentos por pós-graduados

CRIS OLIVETTE

07 Dezembro 2014 | 07h20

Cris Olivette
Estudo conduzido pela Endeavor, instituição mundial de apoio ao empreendedorismo, aponta que Florianópolis tem 3,5% de mestres e doutores em ciência, tecnologia, matemática e engenharia trabalhando em empresas, contra uma média de 1,6% no restante do País. Ainda segundo este estudo, Floripa é a cidade que tem o melhor ambiente para se empreender no Brasil.

Marcos Oliveira de Carvalho e Luiz Felipe Valter de Oliveira, farmacêutico e biólogo, respectivamente, são doutores em genética e biologia molecular e estão na iniciativa privada como empreendedores.

Os doutores Carvalho (à esq.) e Oliveira fundaram a Neoprospecta

Os doutores Carvalho (à esq.) e Oliveira fundaram a Neoprospecta

 

Carvalho diz que a criação da Neoprospecta, a empresa deles, teve início no segundo ano do doutorado. “A ideia ganhou impulso quando, em 2010, vencemos o Prêmio Santander e, em 2011, o Prêmio Ibero-americano de Inovação e Empreendedorismo.”

Genética. O interesse de ambos por genética, biologia molecular e bioinformática ocorreu durante a graduação. “Nessa época, trabalhei em um projeto para identificar o sequenciamento do DNA de uma bactéria que causa pneumonia em porcos.” Ao mesmo tempo, Oliveira, trabalhou no sequenciamento do genoma de plantas.

“Quando decidimos empreender, desenvolvemos uma plataforma de análise de diagnóstico microbiológico em larga escala, a partir do DNA de bactérias. Atualmente, analisamos 512 amostras de uma só vez. Mas, em breve, iremos analisar 1.024 amostras ao mesmo tempo”, afirma Carvalho.

Hoje, a Neoprospecta usa a tecnologia para identificar pontos latentes de infecção hospitalar, ajudando hospitais a conter ou evitar surtos de superbactérias. “Outra aplicação que estamos desenvolvendo é no processo de controle de qualidade de alimentos”, diz.

Segundo ele, a parte de biologia molecular da empresa é totalmente constituída por doutores e mestres. “Estamos com 23 pessoas e devemos chegar a 29 em breve. Dessas, dez são doutores, três são mestres e um é doutorando. Incentivar a equipe técnica a fazer doutorado faz parte da política da empresa.”

No mestrado. Criado para resolver os problemas com frete enfrentados por donos de e-commerce, o plano de negócio do comparador de preços de frete online, batizado de Axado, surgiu durante o mestrado de seu fundador, Guilherme Reitz. Atualmente, a empresa fundada em 2011 conta com 18 pessoas na equipe, e tem entre seus maiores clientes Extra e Mercado Livre.

Reitz, dono do comparador de preços de frete online batizado de Axado

Reitz, dono do comparador de preços de frete online batizado de Axado

Mestre em administração empresarial, ele conta que na especialização analisou mudanças estratégicas em empresas nascentes e inovadoras.

“No mestrado, entendi de forma muito mais complexa as organizações. Foi uma experiência interessante, que me fez desenvolver um senso crítico muito mais apurado”, afirma Reitz.

Segundo ele, o ambiente empreendedor de Florianópolis é fantástico. “Hoje, várias organizações fazem um forte trabalho para incentivar o empreendedorismo na cidade. O próprio Sebrae, que sempre teve boa atuação na área, está fazendo um trabalho com mais profundidade”, diz.

De acordo com Reitz, recentemente, a Endeavor também montou uma unidade em Floripa. “É impressionante o quanto o ecossistema empreendedor evoluiu nos últimos dois anos na cidade.”

Fundada no final de 2010, a Aquarela Inovação Tecnológica do Brasil também é fruto de pesquisas feitas durante os mestrados dos sócios Joni Hoppen e Marcos Santos. Eles se conheceram quando trabalhavam em uma multinacional, na qual tiveram acesso a técnicas de gestão extremamente avançadas.

Hoppen, da Aquarela

Hoppen, da Aquarela

 

“Durante o mestrado, começamos a escrever um livro sobre as pesquisas que realizávamos. Mas no meio do processo, decidimos usar esse conhecimento para criar a Aquarela”, diz Hoppen.

Web 3.0. Ele conta que a empresa desenvolve e aplica tecnologia Web 3.0. “Esta tecnologia permite interações personalizadas e respostas mais inteligentes aos usuários da rede.”

Com equipe formada por oito pessoas, das quais seis são mestres, a Aquarela está desenvolvendo plataforma que faz inferências de sentimentos a respeito do que as pessoas estão falando nas redes sociais. A plataforma será lançada até meados de 2015.

“Com ela, será possível detectar intenções de compra e venda de produtos. Ao escrever: E aí galera, alguém a fim de iPhone 5? A palavra vender, não foi usada, mas a tecnologia detecta a intenção de venda e faz essa classificação, indicando, por região, quantas pessoas têm intenção de compra e venda de um produto, ou de visitar uma atração turística.”

Hoppen diz que a plataforma já está gerando recursos para a empresa. “Realizamos projetos pontuais para os ministérios de Turismo e Educação e para empresas menores.”

‘A diversidade cultural na ilha tem seu peso’

Com 114 funcionários, a empresa de personalização para e-commerce Chaordic conta com 12 mestres e 3 doutores, sendo que 15% dos funcionários estão fazendo pós-graduação em áreas como ciências da computação, engenharia de controle e automação, sistemas distribuídos e inteligência artificial.

Para Anderson Nielson, um dos sócios da empresa, vários fatores levaram Florianópolis ao status de melhor capital para se empreender no País. “Acho que a diversidade cultural tem seu peso, claro que ela existe em qualquer grande capital do mundo, mas para uma cidade com menos de 500 mil habitantes, temos um ambiente cultural muito rico.”

Nielso, um dos sócios da Chaordic

Nielson, um dos sócios da Chaordic

Ele conta que na Chaordic, 15% das pessoas são de outros países. “Temos gente da Itália, Inglaterra, Argentina, Alemanha, Sérvia e Uruguai. Mas também temos cinco funcionários formadas na Universidade Federal de Campina Grande (PB).”
Outro aspecto positivo da cidade, segundo ele, é a movimentação e investimento envolvendo as startups de tecnologia.

Antigamente, a principal fonte de receita da ilha (onde está Florianópolis) era o turismo. Há cerca de cinco anos, a receita da industria de tecnologia superou a do turismo. É ótimo.”

Ele conta que a ideia do negócio surgiu durante o mestrado dos sócios, João Bosco e João Bernartt, que faziam mestrado em ciência da computação e engenharia de controle e automação, respectivamente.

Inteligência. “Trabalhamos com técnicas de inteligência artificial e mineração de dados. Processamos um grande volume de dados, técnica chamada hoje em dia de big data. Com esses recursos, conseguimos inferir o que uma pessoa vai gostar de ver ao entrar em uma loja virtual. Ao cruzar inúmeros dados, a ferramenta percebe qual é o momento da pessoa para oferecer o produto certo na hora certa, sempre.”

A Chaordic atende 15 das 20 maiores lojas virtuais do País. Além de vários clientes de médio e pequeno porte. Dentre eles, Nielson cita a Saraiva. “O e-commerce da marca tem catálogo que supera um milhão de produtos. Como pessoas muito diferentes umas das outras entram no site o tempo inteiro, nossa ferramenta permite que a loja virtual apresente os produtos mais aderentes para cada tipo de pessoa”, afirma.

Segundo ele, ao iniciar o atendimento da marca, no início de 2010, a taxa de conversão (número de pessoas que entram no site e compram algo), aumentou em 40%. “Hoje, em geral, o aumento de conversão fica em torno de 15% entre nossos clientes, pois os usuários sentem que são tratados de forma especial.”

Ele conta que a empresa dobra o número de funcionários todos os anos desde 2010. “Em 2012, percebemos a necessidade de estruturar melhor o negócio. Montamos um programa de desenvolvimento de liderança e escolhemos 14 pessoas que estão sendo preparadas e que passaram por um forte processo de coaching. Também contratamos seniores.”