As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Maior uso de ‘bikes’ alavanca negócios

Alternativa à falta de mobilidade nos grandes centros cria oportunidades na área de seguros e serviços de transporte compartilhado

CRIS OLIVETTE

10 Junho 2018 | 07h30

Danilo Lamy com a cliente da Bikxi, Angela Guedes. Foto: Carlos Alkmin

Bicicletas que podem ser compartilhadas e deixadas em qualquer lugar. Serviço de ‘bike-táxi’ e até mesmo seguro específico e customizações. A popularização do uso de bicicletas nas grandes cidades deu às ‘magrelas’ papel de destaque entre negócios criados para melhorar a mobilidade urbana.

A Bikxi, de Danilo Lamy, por exemplo, é uma versão de transporte compartilhado sobre duas rodas. Ele desenvolveu um modelo de bicicleta com dois lugares e sistema elétrico pilotado por um condutor. “O cliente chama o serviço pelo aplicativo ou na rua, como se fosse um táxi”, conta. O passageiro paga R$ 2,75 por quilômetro, usando cartão de crédito ou débito. “No futuro, teremos um pacote de serviços para os usuários frequentes.”

“O veículo pode chegar a 25 quilômetros por hora, mas nossos condutores não passam de 20 quilômetros por hora. No entanto, a velocidade média dos carros nos congestionamentos de São Paulo é de 7 quilômetros por hora. O desempenho da bicicleta, portanto, é quase o triplo”, compara.

Lamy conta que testou o modelo de negócio em agosto do ano passado. “Em 20 dias fizemos mais de mil corridas. Isso nos deu certeza de que estávamos no caminho certo.” O aplicativo foi lançado em setembro do ano passado.

Por enquanto, a empresa opera somente na ciclofaixa que vai do Ceagesp até o Morumbi e tem mais de 20 quilômetros de extensão. “Funcionamos de segunda à sexta, das 7 horas às 20h30. Ele afirma que os ‘pilotos’ passam por treinamento que vai além da parte prática, abordando legislação e questões relacionadas à cidadania.

Hoje a Bikxi conta com dez bicicletas em operação e vai chegar a 15 nos próximos dias. “Até agora, fizemos 17 mil corridas, o que equivale a deixar de emitir mais de nove toneladas de CO2 (dióxido de carbono).”

Lamy diz que quando chuvisca, o cliente recebe capa de chuva, e quando chove forte, eles não operam por segurança. “Mas quando acaba a chuva, o congestionamento costuma ser ainda maior e nossa operação ganha ainda mais destaque pela agilidade.”

Segundo ele, a greve dos caminhoneiros e a consequente falta de combustível estimularam as pessoas a buscarem alternativas de deslocamento. “A cidade precisa de opções. Pretendemos expandir para outras regiões da capital e para outras cidades, até mesmo do exterior.”

Liberdade

A relação do CEO da Yellow, Eduardo Musa, com a bicicleta começou há 20 anos, quando foi trabalhar na Caloi. Entre 2004 e 2016 ocupou o cargo de CEO. Nesse período, se envolveu em ações como a criação das ciclofaixas de lazer nos finais de semana e da ciclovia da Marginal Pinheiros. “Gosto do tema mobilidade e sempre acreditei que a bicicleta tem papel fundamental na solução da congestão urbana.”

Eduardo Musa. Foto: Re Vasconcelos/Divulgação

No final de 2016, em viagem à China, ele identificou um modelo de negócio que inspirou a criação da Yellow, que consiste no compartilhamento de bicicleta sem estação fixa. “Nosso modelo resolve o problema da primeira e da última milha nos deslocamentos das pessoas de casa para o trabalho e vice-versa.”

Segundo ele, a grande inovação do sistema da Yellow é que as bicicletas ficam soltas. “Elas têm um cadeado eletrônico que é acionado pelo aplicativo do celular. A pessoa pega a bicicleta, vai até o seu destino e deixa o veículo no local, sem a necessidade de procurar uma estação para deixá-la.”

Musa diz que o projeto piloto será lançado em agosto com a distribuição de 20 mil bicicletas em pontos da zona sul e oeste, na região da Berrini, Faria Lima e Butantã. “Ainda não estamos divulgando o custo, mas será menor que o da passagem de ônibus. O público-alvo é quem usa transporte público.”

Pesquisa feita pela Yellow identificou que as pessoas andam, em média, um quilômetro até o ponto de entrada do sistema de transporte público. “Nesses momentos, as bicicletas irão complementar o trajeto e integrar a matriz transporte público, otimizando o deslocamento.”

O empresário está negociando com a administração pública para delimitar os locais nos quais as bicicletas poderão ser deixadas. Ele tem como sócios os fundadores da 99Taxi, Ariel Lambrecht e Renato Freitas. “Ao longo de 2019, queremos ampliar a distribuição de bicicletas da Yellow para outros pontos da cidade e expandir para as demais regiões do País.”

Ele conta que o modelo das bicicletas foi desenvolvido exclusivamente para ser usado no sistema de compartilhamento de redistribuição livre. “Vamos ter uma equipe muito forte na rua para balancear as bicicletas, fazer manutenção, levá-las de um ponto a outro, além de orientar os usuários. Temos 25 funcionários e vamos terminar o ano com mais de 100 pessoas.”

Demanda

Sócio da ProCapital Seguros, Luiz Ricardo Corrêa viu no aumento do número de pessoas que usam bicicleta para locomoção diária uma oportunidade, e criou carteira de seguro exclusiva em 2016. “A carteira de bicicleta já ultrapassou a de equipamentos portáteis como celulares, notebooks e tablets.”

Luiz Corrêa/Foto: Rafael Lage/Continental Studio/Divulgação

Corrêa diz que pretende obter crescimento de 80% no produto neste ano. “A média de prêmio é de R$ 1,2 mil, mas trabalhamos com atletas com bicicletas de maior valor. Alguns pagam R$ 3 mil pela apólice.”

CRIATIVIDADE DE VISUAL SOBRE DUAS RODAS

Ao longo de 12 anos, o fundador da marca de bicicletas personalizadas Natural de Rua, Marco Joseph Madjar, tocou a operação de uma lanchonete.

“Depois de encerrar o negócio buscava uma atividade. Um dia, vi um triciclo transportando garrafas de água e perguntei ao condutor quantos quilos o veículo suportava. Ele respondeu que cerca de 100 quilos. Pensei sobre o assunto e decidi personalizar uma bicicleta para vender açaí.”

Marco Joseph Madjar. Foto: Flavio Teperman/Divulgação

Isso ocorreu em 2015. Desde então, Madjar já produziu 60 modelos diferentes. “Acabei criando um nicho de mercado que atrai quem tem reserva financeira para montar um negócio, mas não o suficiente para estruturar uma loja.”

O preço de uma bicicleta personalizada varia entre R$ 7 mil e R$ 25 mil. “Garanto que, em termos de faturamento e liquidez, nossas bicicletas não perdem para qualquer quiosque”, afirma Madjar.

O empreendedor diz que os seus clientes costumam deixar os veículos em pontos fixos como estações de metrô, shoppings e universidades. “Todos os locais que permitem a instalação de quiosques também autorizam o ponto para os nossos modelos de bike.”

Segundo ele, os modelos podem contemplar desde uma estufa para conservar os alimentos, até um forno e um pequeno freezer. “Obviamente, são equipamentos compactos, que usam a energia preexistente no ponto fixo. Mas para abastecer maquininha de cartão, por exemplo, que tem baixo consumo de energia, instalamos um sistema de baterias”, afirma o empreendedor.

A variedade de produtos que estão sendo comercializados por seus clientes inclui brigadeiro, coxinha, cookies, cerveja artesanal, comida mexicana, sorvete e churros. “Agora, também estamos entrando no segmento de prestação de serviços. Já fiz bike para costureira e produtos pet. Enfim, a criatividade das pessoas não tem limites. Gosto de fomentar o empreendedorismo.”

Estrutura. Além dele, o negócio conta com mais quatro pessoas, incluindo marceneiro e serralheiro. “Nosso faturamento cresce entre 10% e 15% ao ano. Acredito que bicicleta personalizada vai continuar se sustentando no mercado porque o modelo pegou, não é um novo modismo”, avalia.

Segundo o empresário, uma fonte de renda importante do Natural de Rua é a locação de bicicletas para a realização de eventos e ações de marketing. “Atendemos clientes do Brasil inteiro e já enviamos bicicletas para Miami e Orlando, nos Estados Unidos, e também para Portugal”, conta.

Consultor dá dicas de gestão e finanças

Consultor financeiro e sócio da Favalli Financial Quality Assurance, Rogério Favalli diz que ao iniciar um pequeno negócio é fundamental que o empreendedor adote a gestão orçamentária, que não deve ser vista apenas como rotina da área financeira, mas como um instrumento estratégico de gestão, que vai auxiliá-lo a tomar decisões mais acertadas.

Rogerio Favalli. Foto: Guilherme Lopes/Divulgação

“Só assim ele poderá identificar se houve desvios e a origem dos mesmos. Os números traduzem o andamento do negócio.” Ele destaca também que o fluxo de caixa não deve ser usado como ferramenta para a gestão.

“Quem se baseia no fluxo de caixa para decidir os próximos passos toma uma atitude fatal. O fluxo de caixa mostra apenas o vai e vem financeiro, sem dar maiores detalhes sobre a situação econômica do negócio. Então, cuidado.”

Favalli afirma que vários empresários acreditam estar fazendo a coisa certa ao gerir a empresa pelo saldo bancário. “Nesse caso, ele pode correr o risco de implodir a empresa sem perceber”, avalia o consultor.