Métodos ágeis de TI ajudam MPEs

Métodos ágeis de TI ajudam MPEs

Cultura ágil acelera o desenvolvimento de software e a gestão de processos produtivos

CRIS OLIVETTE

10 de agosto de 2015 | 14h10

Samuel Crescêncio, membro da Agile Alliance – entidade internacional que promove a cultura ágil no mundo

Samuel Crescêncio, membro da Agile Alliance – entidade internacional que promove a cultura ágil no mundo

Cris Olivette
Até 2018, 75% das empresas de tecnologia estarão utilizando os métodos ágeis, aponta pesquisa da consultoria Gartner. Esses métodos priorizam a escalabilidade, eficiência, segurança e precisão. Entre as metodologias mais utilizadas estão: scrum, continuous delivery e test triven development (mais detalhes abaixo).

No entanto, segundo especialistas, para que as metodologias surtam efeito é necessário alterar a cultura das empresas e de seus colaboradores. O brasileiro Samuel Crescêncio, membro da Agile Alliance – entidade internacional que promove a cultura ágil no mundo, afirma que o método ágil não serve apenas para negócios de tecnologia. “Ele pode ser usado para gerir todos os processos produtivos de uma empresa.”

Segundo ele, os pequenas e médios negócios são os que encontram maior valor na adoção destas metodologias. Por não terem uma estrutura pesada, eles podem mudar de direção. As grandes sofrem porque têm muitos departamentos e usam o modelo comando e controle.

“Neste caso, alguém gerencia o que os outros estão fazendo e essas pessoas só fazem se alguém mandar. Numa empresa ágil, as paredes entre muitos departamentos são derrubadas e é essencial trabalhar com equipes multidisciplinares.”

Crescêncio afirma que essas equipes devem ser autônomas, autogeridas, auto responsáveis e compostas por representantes de todas as áreas necessárias para que aquele produto seja desenvolvido e entre em operação. “Uma empresa grande muitas vezes não consegue montar esse tipo de equipe por uma série de fatores. Já as empresas que estão começando na área de tecnologia, se não utilizarem os métodos ágeis estarão dando um tiro no pé”, avalia.

O diretor de operações da unidade de Justiça da Softplan, Luis Fernando Fausto, conta que a empresa fundada em 1990 por três sócios, tem hoje 1,6 mil funcionários. “Eles foram desenvolvendo softwares, como o sistema de automação da justiça, e o negócio foi crescendo. No início da empresa, a metodologia ágil era incipiente, por isso adotaram o método tradicional de desenvolvimento de software, chamado cascata, que não gera resultado rápido. O produto final podia levar até três anos para ser concluído.”

Diretor de operações da unidade de Justiça da Softplan, Luis Fernando Fausto

Diretor de operações da unidade de Justiça da Softplan, Luis Fernando Fausto

Fausto diz que somente em 2001, com o lançamento do Manifesto Ágil (leia mais abaixo), é que a Softplan passou a adotar as novas práticas. Ele diz que além de agilizar, as metodologias também ajudam a aumentar a qualidade do produto.

“Antes, tínhamos o departamento de qualidade. Hoje ele não é mais necessário porque o time todo é responsável pela qualidade e todos se sentem donos do produto, há maior engajamento. Todos produzem mais e com mais qualidade, diminuindo a quantidade de falhas na casa de 20% a 30%.”
Para quem deseja saber mais sobre o assunto, Fausto recomenda o livro ‘Scrum: A arte de fazer o dobro do trabalho na metade do tempo’, que acaba de ser lançado em português. “O livro demonstra que o scrum pode ser usado por qualquer empresa”, diz.

Segundo o diretor de pesquisa e desenvolvimento da Audaces, Marcio Barcellos da Silva, os métodos ágeis proporcionam contato muito próximo com o mercado, estabelecem grande relação de confiança e reduzem a burocracia a zero. “Mesmo tendo sido criada em 1992, quando a disseminação ainda era discreta, essas características sempre estiveram presentes no DNA da Audaces.

Diretor de pesquisa e desenvolvimento da Audaces, Marcio Barcellos da Silva

Diretor de pesquisa e desenvolvimento da Audaces, Marcio Barcellos da Silva

“Houve um momento, porém, no qual a empresa passou a buscar certificações para poder penetrar no mercado internacional e acabou ficando burocratizada. Mas a partir de 2005 resgatamos nosso DNA e adotamos os métodos ágeis. A fase de engessamento ficou para trás como uma lição aprendida.”

Silva diz que as práticas ágeis foram disseminadas para todas as áreas da empresa, que tem 300 colaboradores, desenvolve tecnologia para toda a cadeia de produção de moda e exporta para mais de 70 países. “O mais bacana do Manifesto Ágil é que ele é todo centrado em pessoas e preconiza confiar nas pessoas com as quais trabalha, ter pessoal qualificado e motivado.”

Empresas que aderem os princípios aceleram produção e resultados

No mercado há quatro anos, a Meus Pedidos oferece produtos para web que incluem versões para Android e IOS. “Desenvolvemos soluções de controle de vendas para representantes comerciais, distribuidores e indústrias”, diz o gerente de desenvolvimento, Paulo Bischof. Ele conta que no início, a empresa só utilizava o scrum. “Em 2014, passamos a adotar continuous delivery, test driven development (TDD) e pair programming (definições abaixo)”, diz.

Gerente de desenvolvimento da Meus Pedidos, Paulo Bischof.

Gerente de desenvolvimento da Meus Pedidos, Paulo Bischof.

Bischof afirma que deu para notar muita diferença. “Hoje, temos várias métricas e nossas decisões são baseadas em dados numéricos. Temos um time de desenvolvimento formado por nove pessoas que têm muita autonomia. Neste mês, eles deverão entregar 65 tarefas. Pretendemos chegar a setembro com entrega mensal de 75 tarefas.”

Segundo ele, as metodologias têm contribuído para o crescimento da empresa. “Com o continuous delivery, por exemplo, conseguimos focar muito nas prioridades. Conseguimos desenvolver com agilidade e lançar rapidamente. Nossas entregas são mais rápidas do que as dos concorrentes.”

O diretor afirma que a previsão é de aumentar o faturamento em 500% nos próximos 18 meses. No mesmo prazo devem chegar a 120 colaboradores. Hoje, são 41. “Recentemente recebemos investimento milionário e poderemos contratar mais pessoas de alta performance, melhorar o produto e atingir mais empresas, além das 70 mil já cadastradas no sistema.”

Já na Segware, fundada em 2001, a adoção das metodologias ágeis ocorreu no início de 2015. Segundo os gerentes de produtos, Fernando Pinheiro e Fabio dos Anjos, eles já conseguiram reduzir drasticamente o tempo de entrega.

Anjos diz que uma característica intrínseca do scrum é avaliar não só o produto mas também a qualidade do processo. “Ao fim de cada quinzena avaliamos o que ocorreu no período, dessa forma, há melhoria contínua do processo.”

Segundo Pinheiro, ele já havia trabalhado com os métodos ágeis. Junto com Anjos, desenvolveram um projeto para definir como implantar e adaptar a cultura ágil dentro da Segware. “Fizemos uma apresentação interna e todos foram convidados a nos auxiliar. Todos tiveram oportunidade de participar. O processo com a equipe durou cerca de 20 dias.”

Eles contam que conhecem pessoas que trabalham no meio ágil e uma delas fez palestra na empresa mostrando como os princípios de Lean (definição a lado) podem ser aplicados. “Nossa diretoria gostou muito e hoje nossa gestão estratégica é baseada em Lean”, diz Anjos.

Pinheiro afirma que entre os resultados está a transparência. “Todos sabem o que cada um está fazendo, as equipes são responsáveis pelo resultado do trabalho e um cobra o outro para que o trabalho seja feito dentro do tempo e com qualidade. Além disso, estamos mais próximos do cliente final, porque fazemos pequenas entregas.”

Base foi concebida em 1950 pela Toyota

CEO da Oncast e membro da Agile Alliance – entidade internacional que promove a cultura ágil no mundo, Samuel Crescêncio é o criador da Pirâmide Lean. Ele conta que a pirâmide é um modelo de engenharia para desenvolvimento de software que abrange três grandes áreas da organização. “O topo, que é a área estratégica, o meio que é a área de gestão e a base que é a área operacional, ou a engenharia quando se trata de desenvolvimento de software. O modelo instrui sobre o correto equilíbrio na aplicação das práticas Lean e Ágil.”

Crescêncio conta que na década de 1950 a Toyota estava beirando a falência e desenvolveu um conjunto de princípios e técnicas de valores chamados Lean, que foram utilizados para gerir sua linha de produção e de desenvolvimento de produtos.

“A empresa se tornou tão eficaz na eliminação de desperdício e na maximização do valor gerado, que saiu da situação de quase falência para se tornar uma das maiores empresas do mundo”, afirma.
Ele conta que outras indústrias copiaram os métodos da Toyota, entre elas a indústria de software. “Todos tiraram vantagem do Princípio Lean. Os primeiros livros sobre metodologias ágeis já falavam dele.”

Manifesto Ágil. Em 2001 os principais atores da área de engenharia de software se reuniram na cidade de Salt Lake City (EUA), porque perceberam que as metodologias usadas para desenvolver software precisavam mudar e alguns já estavam testando metodologias novas.

“Dois dias depois lançaram o manifesto de tecnologias ágeis. No ano seguinte, criaram a Agile Alliance para disseminar o que tinham criado. A aliança se tornou a organização mais importante sobre o assunto. No evento anual, reúne 2,3 mil pessoas. Conseguir fazer uma apresentação na conferência é como passar no vestibular para medicina”, diz Crescêncio.

Metodologias

Scrum
Os projetos são divididos em ciclos e cada um tem uma série de tarefas a serem executadas. Ele prevê uma série de reuniões diárias, o que torna o desenvolvimento mais rápido. O conhecimento deve ser compartilhado com o resto da equipe. Foca evolução contínua e melhoria da produtividade dos colaboradores

Continuous Delivery
Envolve entrega constante de resultados, sem estabelecimento de dead lines específicos

Integração Contínua
Membros de um time integram seu trabalho frequentemente. Cada pessoa integra pelo menos diariamente. A abordagem reduz os problemas de integração e resulta em software mais coeso

Pair Programming
Técnica de desenvolvimento na qual dois programadores trabalham juntos em uma mesma
estação de trabalho

Test Driven Development
Técnica baseada em ciclo curto de repetições e pequenas interações. O teste da funcionalidade da aplicação é escrito antes de a própria funcionalidade ser implementada

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