Montar uma loja requer muito mais do que um bom ponto

Montar uma loja requer muito mais do que um bom ponto

Para o sonho de empreender não virar pesadelo, empresário tem de desenvolver competências e gerir negócio com profissionalismo

Andressa Rovani

31 de agosto de 2014 | 08h28

Cris Olivette

Montar o próprio negócio após se aposentar. Esse era o plano do engenheiro eletrônico Juarez Fortini. Quando o momento chegou, ele foi convidado pelo filho, João Henrique, a formarem uma parceria. “Ele é graduado em nutrição, por isso, optamos por trabalhar com produtos saudáveis da marca Mundo Verde, aproveitando a forte tendência de crescimento do segmento no País. E como eu queria que fosse próximo de minha casa, optei por instalar a loja no Shopping Tucuruvi”, conta.

Desejo semelhante era acalentado pelo professor de inglês Ricardo Teixeira São José (foto na capa do caderno). “Desde de 2000, estava me preparando para ter um negócio. Fiz administração e pós-graduação na área. Queria estar preparado para quando surgisse uma oportunidade.” Morador do bairro de Santana, São José viu o momento chegar com o lançamento do Shopping Tucuruvi, inaugurado em abril de 2013, no qual instalou uma unidade da franqueadora Ice Mellow. 

Além do desejo de empreender, o que os dois empresários tinham em comum era o fato de pensarem que suas vivências profissionais anteriores seriam suficientes para que conseguissem tocar as lojas com facilidade. “Achava que tinha certa experiência, mas na prática percebi que precisava melhorar muito”, afirma Fortini. São José, por outro lado, acreditava que estava preparado para lidar com a equipe de funcionários. “Quando comecei a operação, vi que o trabalho de gestão de pessoas era totalmente diferente do que havia imaginado.”

A dona da cafeteria Grão Expresso, Sandra Andrade, conta que também não tinha nenhuma experiência em comércio, gestão de funcionários e com a área de alimentos.

Assim como eles, havia muita gente despreparada entre os 230 lojistas do estabelecimento instalado no bairro do Tucuruvi. Em poucos meses, o fato foi identificado pelo superintendente do shopping,Antonio Saugo. “O sucesso de um empreendimento desse porte depende, justamente, de que as operações estejam bem afinadas e os gestores capacitados para ultrapassar a fase de maturação, que é sempre a mais delicada.”

Saugo afirma que a solução foi firmar uma parceria com o Sebrae. “Fechamos um programa completo de capacitação dos lojistas para este ano. São seis programas que abrangem as áreas de marketing, gestão de pessoas, atendimento, financeiro e jurídico. Desde que o treinamento foi iniciado, os lojistas participantes passaram a tratar as operações de maneira mais focada e profissional”, diz. A adesão, segundo ele, ficou em torno de 50%.

Sandra, do Grão Expresso, aderiu e não se arrepende. “Em muitos momentos, durante a capacitação, me surpreendo com as colocações do consultor. Tem coisas que parecem óbvias e me pergunto como não havia pensado naquilo antes.” 

O administrador do shopping conta que tem acesso a boa parte dos números dos lojistas. “Monitoramos como está a produtividade de venda versus o tamanho da loja e o custo de ocupação, e como esse custo se comporta em relação ao volume de vendas. Então, conseguimos ter dados bem detalhados a respeito da saúde financeira das operações. Não existe um shopping de sucesso, se os lojistas não têm sucesso, temos sempre essa preocupação. Os negócios precisam estar saudáveis”, afirma Saugo.

Diretor da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica, Paulo Ancona afirma que a iniciativa de Saugo de pedir apoio ao Sebrae foi acertada. “Foi uma atitude positiva e para mim, praticamente inédita.”

Segundo o gerente do Sebrae-SP Alessandro Leite de Lima, a entidade já havia capacitado lojistas de outros shoppings, mas nesta parceria foram oferecidas algumas ações a mais. “Uma delas é a consultoria após a conclusão do treinamento, o que não ocorria até então.”

Lima diz que, além d o conteúdo previsto no programa de treinamento, os lojistas também podem tirar dúvidas sobre temas como motivação na empresa, ou contrato de trabalho temporário, muito usado no final do ano. “Esse trabalho faz parte do programa Sebrae Responde. Oferecemos consultas individuais com dia e horário agendados, em uma sala de treinamento dentro do próprio shopping”, afirma.

‘Montar é a parte mais fácil, difícil é fazer vingar’

“Percebo que existe uma corrida ao empreendedorismo. Vivemos um momento em que todos querem empreender, mesmo sem ter preparo e competência adequados para isso”, afirma o diretor da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica, Paulo Ancona.

Para o consultor, empreender exige que se saiba comprar, vender, negociar, administrar o negócio financeiramente, entender de recursos humanos, conhecer legislação tributária, marketing, saber treinar e gerir pessoas. 
“Significa, enfim, que a pessoa sozinha tem de tocar todas as tarefas de uma empresa. Montar uma loja é a parte mais fácil, o difícil é fazer o negócio vingar”, avalia.

Ancona afirma que antes de montar uma loja em um shopping, o empreendedor precisa conceituar muito bem que negócio será esse. “Tem de definir o público que pretende atingir, quais serão seus concorrentes, que espaço esse tipo de negócio tem no mercado e como pretende se posicionar. A partir desses dados, poderá definir o mix de produtos e o conceito da loja, que abrange desde a ambientação, até a forma de atendimento, que deve ser condizente com o tipo de público.”

O consultor reforça a necessidade de que seja feito estudo de mercado e verificado o potencial de público do shopping, para confirmar se é o tipo de cliente que esta buscando. “Além disso, é preciso fazer um plano de negócio e planilhas financeiras contendo previsão de resultados. Tudo em um cenário bem realista, nunca otimista. É fundamental saber o valor mínimo que terá de faturar para conseguir cobrir as despesas fixas.”

Ancona acrescenta que as planilhas devem ser feitas levando em conta os custos com o shopping, que não são poucos. “Sem esses dados, vai correr sério risco de abrir o negócio e depois engrossar as estatísticas do Sebrae, que apontam que 75% dos negócios fecham antes de completarem cinco anos de vida.”

O gerente do Sebrae-SP, Alessandro Leite de Lima lembra, porém, que estar dentro de um shopping inclui uma série de vantagens. “O estabelecimento oferece boa infraestrutura como estacionamento amplo e segurança. Itens extremamente importantes. Se optar por montar uma loja na rua, o empresário terá de pensar em uma solução para estas questões, porque esses aspectos influenciam os consumidores na hora de decidir onde farão suas compras. A dificuldade para estacionar pode levar o consumidor a optar por outro local.”

Segundo ele, o rateio entre os lojistas em troca de um sistema de segurança único, que incluí monitoramento e sistema de alarme, além da visibilidade proporcionadas por campanhas promocionais do shopping para atrair os consumidores, engrossam a lista de vantagens. “A facilidade de acesso, não só para os clientes como para os funcionários também deve ser levada em conta. Tudo isso acaba influindo no sucesso da operação”, conclui.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.