Música pode ser matéria-prima para negócios

Música pode ser matéria-prima para negócios

Claudio Marques

14 de outubro de 2013 | 17h18

Os irmãos Marcelo (à esq.) e Marcos Bohrer donos da produtora de som Angorá

Cris Olivette
Os fundadores da My Musics, Raul Crespo e Bárbara Hilsenbeck, afirmam que a inspiração para o negócio ocorreu logo após o nascimento da filha do casal. Quando souberam que seria uma menina, logo escolheram o nome da bebê.

“Dias depois, tive um momento de inspiração e fiz uma canção em homenagem à Maria Clara. Quando estava perto do nascimento, resolvemos gravá-la em um CD para darmos como lembrancinha às visitas no hospital”, conta Crespo. A ideia agradou a todos e mostrou ao casal de publicitários que poderia ser um negócio a ser explorado. Nascia assim a My Musics. Segundo ele, canções para casamentos lideram os pedidos. “Em seguida estão os pedidos para aniversário de criança.”

Para criar o estúdio, Crespo investiu cerca de R$ 40 mil. “Também sou músico e já tinha alguns equipamentos.” Segundo ele, o investimento já foi recuperado e o negócio tem crescido 20% ao ano. “Criamos um negócio que nos dá muito prazer e leva felicidade às pessoas.” As canções têm entre três e quatro minutos de duração. O custo é de R$ 600.

Com investimento de R$ 150 mil, os irmãos Marcos e Marcelo Bohrer criaram a produtora artística e musical Angorá. “Trabalhamos com estúdio desde 2006, mas só em 2011 a marca Angorá foi lançada. Nossa estimativa é de faturarmos R$ 360 mil em 2013.” 

Para evitar a competição com estúdios da capital paulista, os empresários adotaram a estratégia de prospectar clientes no interior e em outros Estados. “Achamos um nicho e temos crescido mais rápido que o esperado. Fazemos composição, produção e direção musical para peças de teatro e gravação de bandas. Além disso, criamos trilha, jingles, música, sons para vídeo e locução para os mercados corporativo e publicitário.”

Bohrer considera o mercado muito promissor. “As novas tecnologia geraram novas mídias. Hoje, fazemos muita produção para a internet.” 

Entre seus trabalhos, ele destaca uma canção feita para o Fundo de População das Nações Unidas, veiculada em uma conferência da ONU.

Já a criação de jingles para campanha eleitoral é a praia do fundador do estúdio Jingle Brasil, Nando Pinheiro. “Sou locutor e sempre trabalhei com publicidade. Estudando o mercado, vi que havia espaço para trabalhar com publicidade não só falada como cantada.”

Criada em 2003, a empresa faz, principalmente, campanhas políticas. “Nessa época, o faturamento cresce bastante porque os candidatos consideram uma ‘obrigatoriedade’ ter publicidade cantada”, afirma.

A Jingle Brasil também atua na área publicitária, realizando locução e criação de jingles. “Hoje, esse mercado não usa tanto peças com jingles. Até o início dos anos 1980, jingles publicitários tinham uma importância muito maior.”

Produtora. No Rio de Janeiro, a produtora batizada de Rádio Ibiza, foi lançada em 2007 por Pedro Salomão. “Criamos um novo produto ao usarmos canções para dar identidade musical à uma marca, que nada tem a ver com música ambiente”, diz.

O empresário conta que para definir o repertório, sua equipe identifica pontos que caracterizam a marca. “No caso de um restaurante, pegamos desde o cardápio até a história do chef. Na moda, usamos desde a cartela de cores até o tipo de tecido. Depois, fazemos pesquisa e selecionamos músicas, normalmente pouco conhecidas, mas que representam o conceito da marca.” Salomão afirma que em 2012 a Rádio Ibiza cresceu 35% e faturou R$ 5 milhões. “Hoje, temos escritórios em São Paulo e Curitiba.”

Operando desde março, a Shuffle Audio nasceu para produzir sons, principalmente, para mídias online. Alexandre Marcondes, um dos donos, conta que o investimento inicial foi de R$ 280 mil. Ele diz que desde o início as entradas cobrem os custos mensais. “Em setembro crescemos 100%. Se mantivermos esse desempenho até dezembro, o investimento será recuperado ainda em 2013.”

Marcondes conta que atualmente a empresa produz áudio de descrição para que filmes de longa metragem sejam exibidos para deficientes visuais. “Acrescentamos às produções, a descrição das cenas. São filmes clássicos, feitos pela Vera Cruz e que são exibidos pela TV Cultura. Já fizemos 14, de um total de 31 filmes”, diz. Segundo ele, para acessar esse formato é preciso ter um aparelho capaz de buscar a programação num canal específico.

PROJETO DO SEBRAE-RJ LEVA OBRAS ÀS FEIRAS INTERNACIONAIS

Há três anos, o Sebrae-RJ realiza o projeto Estrombo, para capacitar, formalizar, apoiar e impulsionar a criação de negócios no ramo musical. “O nome original é ‘Novos modelos de negócios e canais de distribuição da música’, mas o chamamos de Estrombo (espécie de concha) para facilitar a comunicação”, diz a coordenadora da área de economia criativa do Sebrae-RJ, Heliana Marinho.

Segundo ela, o projeto mantém parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Associação Brasileira de Músicos Independentes (ABNI). “Junto com os parceiros, identificamos que a cadeia produtiva vinha se transformando com as novas tecnologia e que era preciso reformatar os negócios.”

Ela diz que as entidades realizaram estudos na periferia do Rio de Janeiro e identificaram alguns novos modelos de negócios. “Músicas customizadas e músicas para festas com distribuição personalizada via web, são dois exemplos. Em seguida, definimos alguns segmentos musicais para trabalhar, como funk, samba e MPB.”

Heliana afirma que a cadeia produtiva estava desarticulada. “Além disso, a tecnologia transformou a forma de produzir e comercializar a música. A informalidade é muito grande e dificulta a sequência dos negócios. A formalização ajuda a legitimar e monetizar o produto.”

Ela conta que. após uma série de encontros de conscientização e capacitação com membros dessa cadeia produtiva, foram feitas rodadas de negócios com compradores internacionais. “Eles apresentaram palestras e contaram como seus países compram música. Depois, ouviram os músicos e participaram de encontros privados com os artistas e seus selos.”

A coordenadora diz que novos encontros de conscientização foram feitos porque ainda havia grande dificuldade de entendimento sobre as leis de licenciamento. “O artista precisa estar vinculado a um pequeno selo, editora, ou gravadora. Não adianta produzir a música e divulgar na internet porque a possibilidade de monetizar é muito baixa. Essa é nossa principal preocupação.”

Ela afirma que a musica brasileira tem grande mercado fora do País. “Selecionamos algumas feiras internacionais de música e há três anos enviamos produtores para encontros já definidos, com ótimos resultados.”

Heliana diz que para comercializar o produto, o proponente da música precisa preencher uma série de requisitos. “Só assim ele poderá licenciar a obra e vendê-las internacionalmente”, conclui.

Segundo ela, não havia no Brasil nenhum critério para realizar o cadastramento das composições. “Fizemos um estudo com a ABNI e identificamos quais eram as informações necessárias para criar um catálogo das composições.” O projeto piloto do Sistema de Gerenciamento Fonográfico foi lançado há dois meses e vai facilitar a venda das criações que poderão ser identificadas por uma série de descrições.” Heliana diz que, no momento, o Sebrae discute ‘estrombolizar’ o projeto para todo o Brasil.”

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