Não queime etapas no momento de criar sua empresa

Claudio Marques

20 de maio de 2013 | 08h17

Cris Olivette
Os irmãos Arthur e Alexandre Gonçalves inauguraram no final de abril a loja de suplementos Triple X numa movimentada rua de Pirituba, na zona norte da capital. Arthur conta que o local foi escolhido seguindo as orientações da equipe de consultores do Sebrae. “Antes de criar a empresa, procuramos orientação. Uma delas, era de que o ponto precisava ser em uma área comercial, que tivesse uma academia por perto e grande movimentação de pedestres. Por isso, pesquisei até encontrar o ponto ideal.”
O consultor de marketing do Sebrae, Marcelo Sinelli, diz que para o varejo o ponto comercial é o principal atrativo. “Ponto barato normalmente é ruim. O empresário deve encarar o aluguel de um bom local como investimento.” Ele diz, no entanto, que antes de preocupar-se com a instalação, o futuro empresário deve tomar providências essenciais para reduzir os riscos. “Começar pelo plano de negócios é a forma mais eficiente de se criar uma empresa.”
O consultor diz que o plano de negócio ajuda a mapear a oportunidade e faz o empreendedor entender o que é essencial para o negócio e qual é o seu ponto forte e estratégico, o chamado core business.
Mercado. Segundo Sinelli, fazer estudo de mercado também é recomendável para entender quem é o público-alvo e qual é o seu perfil. “Assim, pode identificar seu concorrente e saber no que ele é bom, ou ruim. Com essas informações, é possível achar espaços para se posicionar de maneira diferenciada e não ser só mais um no mercado. Ter informações sobre o mercado reduz as chances de erro.”
Sinelli ressalta que o estudo de mercado deve ser feito usando dados de fontes oficiais como IBGE, Banco Central, Receita Federal e Fundação Seade, entre outras, para dar credibilidade ao levantamento. Outra opção é procurar entidades de classe ligadas ao segmento.
“Com base nas informações apuradas é possível saber quanto dinheiro gira por ano nesse mercado e em que estágio ele está. É fundamental saber se o mercado está no início ou em crescimento. Se é um mercado amadurecido ou se está em declínio, para ver se vale a pena apostar nele”, conclui.
Na prática. Além de fazer um plano de negócio bem detalhado, os sócios Rafael Jakubowski e Raphael Ferrari, donos da Sanders Digital, que está no mercado desde 2010, contam que visitaram associações ligadas ao segmento no qual iriam atuar.
“Fizemos uma garimpagem na Associação Paulista das Agências Digitais e na Associação Brasileira das Agências Digitais, para entender mais sobre o mercado e como praticar uma boa política de cobrança. Foi assim que ficamos sabendo, por exemplo, que nesse ramo a cobrança é feita por hora.”
Jakubowski diz que até hoje eles usam o plano de negócio para direcionar o crescimento da empresa. “Mas ele sempre está sendo atualizado. Na verdade, o primeiro plano de negócio não é o mesmo hoje, ele sofreu várias atualizações.”
Pontos negativos. O empresário Ofli Guimarães, dono do portal Meliuz, que oferece cupons de descontos gratuitos de mais de 250 lojas de todo o Brasil, conta que ele e o sócio estudaram o mercado durante um ano. “Como usuários, nós sempre gostamos desse mercado de comércio eletrônico, programas de fidelidade e de sites de descontos. Em conversas informais, concluímos que esse tipo de negócio era bom, mas que daria para fazer melhor.”
Guimarães diz que eles resolveram anotar tudo o que havia de ruim nesses serviços. “Passamos um ano buscando os pontos negativos e vendo como era possível melhorar, e fomos apontando o que seria um serviço ideal para nós.”
O Meliuz foi lançado em setembro de 2011 e une cupons de desconto de lojas online com cashback, um programa de fidelidade. “Adotar o cashback foi a maneira que encontramos para melhorar o programa de pontos. A cada compra, devolvemos parte do valor gasto pelo cliente, equivalente a metade da comissão que recebemos das lojas. Assim, eliminamos a burocracia de pontos.”
Antes de criar a My Job Space, que oferece locação de estações de trabalho, auditório e salas de reunião, a empresária Ana Fontes ela passou seis meses construindo o projeto.
“Tive a ideia quando participei do projeto Dez Mil Mulheres, da Fundação Getúlio Vargas. Comecei, então, a elaborar o plano de negócio.” O programa da FGV tem por objetivo formar 10 mil empreendedoras.
Ana conta que fez uma pesquisa com seus contatos do Facebook para ver o que chavam desse tipo de negócio, que ainda era muito novo no Brasil. Obteve 150 respostas. “Todas foram positivas. Também pesquisei qual seria a melhor região e, por último, andei a pé pelas ruas da Zona Sul da capital para identificar o melhor ponto, perto de uma estação de metrô.”
Outro negócio que acaba de entrar em operação é o Espaço Efrain, uma loja de CD’s e livros evangélicos. Os sócios Fábio Ricardo da Rocha e Rafael Luiz de Barros contam que fizeram pesquisa para definir onde iriam instalar o ponto comercial e estudaram a concorrência.
“Isso nos ajudou a criar diferenciais como incluir a venda a de cartões, bonés e camisetas com mensagens gospel”, diz Rocha. A loja também tem conexão com a internet para permitir a pesquisa de identificação de músicas, quando o cliente só sabe um trecho da letra.

Além de identificar oportunidade é preciso cuidar da burocracia

Depois de traçar o plano de negócio e realizar estudo de mercado, é hora de o empreendedor cuidar da parte burocrática do negócio. Para aqueles que pretendem ter sócios, o advogado do escritório Neumann, Gaudêncio McNaughton & Toledo Advogados Fernando Walendowsky afirma que o Código Civil permite vários tipos societários. “No Brasil, porém, mais de 90% dos empreendedores optam pela sociedade de responsabilidade limitada, ao criar uma micro ou pequena empresa.”
Walendowsky diz que nesse tipo de sociedade, as partes definem qual será a participação societária de cada um na composição do capital da empresa. “No futuro, se houver algum tipo de cobrança, a responsabilidade dos sócios perante terceiros fica limitada ao montante desse capital. Assim, os bens da pessoa física ficam protegidos.”
O advogado diz que essa segurança é uma forma de incentivar o empresário a criar a empresa e gerar empregos.
O consultor jurídico do Sebrae-SP Arthur Bezerra lembra que em 2012 foi instituída uma alteração no artigo 980 do Código Civil. “Essa mudança criou uma nova forma de formalizar uma empresa individual, permitindo que seja de responsabilidade limitada, que é o Empresário Individual de Responsabilidade Limitada (EIRLI).”
Bezerra diz que a faculdade de responsabilidade limitada atende quem instituir a empresa com capital social de no mínimo cem vezes o salário mínimo, o que significa que o empreendedor tem um patrimônio mínimo suficiente para responder pelas dívidas da empresa.
Marca. Os advogados afirmam que a razão social consta no contrato social. Mas, caso haja um nome fantasia que caracterize a marca da empresa, ele deverá ser registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). “Mesmo que o nome da marca seja citado no contrato, isso não garante sua propriedade”, diz Bezerra.
Walendowsky afirma que usar uma razão social e um nome fantasia é uma boa estratégia. “Isso dá um resguardo maior à empresa. Serve para separar a vida pessoal do empresário da comercial.”
Tributos. Na questão tributária, Bezerra diz que existem tributos específicos conforme a atividade. “O empresário precisa analisar qual regime tributário irá adotar e isso não pode ser definido conforme sua vontade”, ressalta.
Ele explica, por exemplo, que o Simples Nacional tem algumas objeções. “Mesmo que ele possa adotar o Simples, terá de saber em qual tabela sua empresa entra. Caso não possa entrar no Simples, vai para o Lucro Real ou Lucro Presumido.”
Neste caso, o consultor recomenda que o empresário invista parte de seus recursos na contratação de um contador para fazer um estudo tributário. “Só assim saberá com certeza qual regime tributário é mais interessante para a sua empresa. Eu defendo, inclusive, que estudo tributário deveria constar do plano de negócios. Assim ele saberia de antemão, se a tributação trará um prejuízo para a empresa, podendo analisar se o negócio é viável, ou não”, frisa.
Segundo Bezerra, muitos empreendedores não sabem que podem fazer opções tributárias dentro dos regimes.

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