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Não só de grandes empresas vive o big data e analytics

Startups se especializam na coleta, tratamento e enriquecimento de dados usados para basear a tomada de decisão em tempo real

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20 Maio 2018 | 08h02

Gabriel Camargo. Foto: Samuel Monteiro

Carolina Costa Bastos
e Bruno Caniato
ESPECIAL PARA O ESTADO
Quando se fala em big data, a primeira imagem que vem à mente são grandes servidores capazes de armazenar um volume massivo de informações coletadas por empresas sobre consumidores e usuários, gerando bancos de dados tão pesados que só podem ser processados através de tecnologias e métodos avançados de análise.

Por esse motivo, nada mais natural do que achar que este trabalho é realizado apenas por grandes empresas. Na vida real, no entanto, o mercado conta com pequenas empresas especializadas em estruturar e analisar esses dados.

É o caso da Deep Center, especializada em gestão de informação para escritórios de cobrança e contact centers, fundada em 2016 pelo tecnólogo em redes Gabriel Camargo. “A ideia surgiu quando eu era diretor de tecnologia em um contact center e percebi como a descentralização de dados dificultava a tomada de decisão”, conta.

A empresa conecta todas as fontes de dados e realiza o tratamento, a organização e a qualificação das informações. “Os clientes visualizam as informações e podem tomar decisões em tempo real”, diz. Segundo Camargo, sua empresa cresceu 400% ao trimestre ao longo de 2017 e hoje atende clientes como Yamaha e Santander.

Outro caso de sucesso é a UnitFour, do analista de sistemas Gabriel Teixeira. Com dez anos de atuação, a empresa especializada em tratamento de informações conta hoje com mais de 213 milhões de CPFs e 37 milhões de CNPJs cadastrados. Os dados deram origem a ferramentas antifraude, soluções para empresas de cobrança e a um mailing com informações valiosas para empresas.

Gabriel Teixeira. Foto: Thais Castro

“O coração do negócio é o nosso banco de dados”, afirma Teixeira. “Temos mais de 200 robôs capturando e estruturando informações.” Entre os clientes da UnitFour, figuram o Bradesco e a Unimed Rio.

Com clientes dos setores financeiro, de telecomunicações, varejo e manufatura, a Semantix, desenvolve desde 2010 um método padrão para a resolução dos problemas de clientes, que é divido em três passos: automatização de processos, cruzamento de dados internos e externos e, por fim, interação.

A empresa também desenvolve projetos customizados. Entre os casos de sucesso, estão o banco digital do Bradesco, o Next, e o aplicativo de descontos do Pão de Açúcar. “Quem se posicionar no mercado de dados, desde criar produtos a resolver problemas de empresas, tem um mercado muito grande e que será revolucionário”, diz o sócio Leonardo Santos.

Ele conta que se inspirou em uma estratégia utilizada pela IBM nos anos 1960, ao contratar profissionais qualificados com experiência no uso da tecnologia de dados para que pudessem direcionar as ações da empresa de acordo com o seu conhecimento.

Potencial

Segundo empresários da área, o mercado de big data ainda possui um grande espaço para a criação de novos negócios. Novas tecnologias surgem a todo momento e, por mais que algumas sejam vistas com desconfiança por empresários, são essenciais para as organizações que desejam manter forte atuação no mercado.

Especialistas como Luciano Ramos, gerente de pesquisa e consultoria de software da IDC Brasil, acrescenta que o desenvolvimento do big data deixou de ser pautado pelo setor de tecnologia da informação e tornou-se uma ferramenta do setor de negócios.

Não é mais um questão de plataforma de tecnologia, o direcionamento agora vem da área de negócios.” Para ele, o importante no futuro é transformar o big data em ferramenta de geração de valor.

A expectativa de Ramos é que as plataformas de visualização – isto é, os painéis que permitem o acompanhamento dos dados em tempo real – e os modelos de previsão sejam responsáveis pelos próximos avanços na área. “Já tivemos, no final de 2017, um avanço muito grande dos visualizadores. A tendência é de fato um avanço nas plataformas de visualização, associada a modelos preditivos”, diz.

Valorização

Segundo o coordenador do Programa de Gestão da Inovação e Tecnologia (PGT) da Fundação Instituto de Administração (FIA), Moacir Miranda, o crescimento do big data tem efeito positivo na valorização de certas áreas do conhecimento voltadas à matemática e estatística. “O big data tem criado profissões como o cientista de dados, que faz a coleta e taxonomia dos dados, e o analista de dados, que trabalha com data analytics”, diz o pesquisador.

Profissionais da área de negócios, envolvendo segmentos como saúde, bens de consumo e mercado imobiliário, também são importantes para dialogar com analistas e empresas e implementar o big data no mercado. “Passamos a ter gente com formação muito sólida para atuar na ciência de dados. A aplicação dessa tecnologia nos negócios vai depender da capacidade das empresas em lidar com esses dados”, diz Miranda.

Atualização constante de profissional é demanda na área

A formação e a demanda de profissionais qualificados para a área de big data estão diretamente ligadas ao crescimento do uso da tecnologia no país. No mercado, surgiram especializações que envolvem conhecimentos de profissionais de formações distintas, voltados à extração, armazenamento, tratamento, mineração, análise e visualização de dados.

A maior oferta de cursos, no entanto, ainda é insuficiente. O sócio-fundador da Semantix, Leonardo Santos, aposta na capacitação de pessoas e tem iniciativas internas para formação de capital humano. “Temos o mindset de investir na capacidade brasileira, na universidade.

Leonardo Santos. Foto: Sandro Silva

A área de treinamento da companhia é estratégica. Ela é formada pelos líderes e diretores da empresa, que são capacitados para treinar novos profissionais. Isso é um grande desafio”, afirma. A empresa conta ainda com dois laboratórios instalados em instituições reconhecidas pela tecnologia de ponta, a FIAP e a Unicamp.

Na opinião de Gabriel Camargo, da Deep Center, a multidisciplinaridade do tema pode ser considerado um desafio para a implementação do big data no mercado. “É uma composição complexa de uma série de tecnologias, que envolvem mineração do conhecimento, análise exploratória e o processamento de grandes volumes”, explica.

“A concepção do big data ainda é deturpada. O que eu fiz para enfrentar esses problemas no passado foi buscar conhecer todos os aspectos envolvidos na área”, conta.

Outra complexidade para o estudo da área de big data e analytics ocorre porque ela está intrinsecamente relacionada a outros segmentos de tecnologia de ponta, que enfrentam constante evolução e, muitos ainda, incipientes no país, tanto na academia quanto no mercado. São conceitos de machine learning, blockchain e as criptomoedas, internet das coisas (IoT) e ainda a indústria 4.0.

Para o diretor-geral da consultoria de blockchain R3 no Brasil, Keiji Sakai, a inteligência artificial e a IoT serão o próximo passo no desenvolvimento do big data. “Quando você começa a trabalhar esses dados para predição por meio de machine learning, você tem dispositivos gerando dados a todo momento.”

Privacidade

Sakai, da R3 no Brasil, ressalta ainda a preocupação crescente, tanto de consumidores quanto de empresas, com a privacidade dos dados de usuários. “Se o seu comportamento está todo mapeado em um banco de dados na nuvem e alguém invade este banco de dados, isso pode ser usado contra você”, pontua.

Opinião semelhante tem o empresário Gabriel Teixeira. “Antigamente, você tinha um mar aberto para navegar. Hoje você precisa de uma série de diretrizes para preservar a privacidade”, diz.

Outro ponto de atenção é que a área de tecnologia da informação e comunicação tem um grande potencial de mutação e aprimoramento rápido, exigindo reciclagem constante.

Estudo e aplicação de novas técnicas são essenciais para manter os profissionais atualizados. “Também precisamos ajudar as empresas a se conectar com as novas oportunidades”, pontua o coordenador do Programa de Gestão da Inovação e Tecnologia da Fundação Instituto de Administração, Moacir Miranda.

Proteção de dados deve seguir ABNT e Marco Civil

Quando se trata de informações pessoais, a proteção de dados exige prioridade máxima. No Brasil, na ausência de legislação específica, as empresas devem respeitar o Marco Civil da Internet, em vigor desde 2014, que estabelece a coleta de dados somente com propósito claro e consentimento do usuário.

“Cessado o propósito da coleta, o usuário tem o direito de ter seus dados apagados”, explica o advogado e coordenador do curso de Proteção de Dados e Privacidade do Insper, Renato Opice Blum. Além disso, os sistemas de segurança das empresas devem seguir as especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Outra preocupação deve envolver a diligência da coleta de dados: manter os softwares atualizados, promover treinamentos e cuidar da educação digital dos funcionários.

Em caso de vazamento de dados, é cabível ao usuário entrar na Justiça com ações por danos morais ou patrimoniais. Se identificado um defeito no software de segurança, a empresa pode processar o fornecedor.