Negócio social enfrenta falta de investimento

Pesquisa inédita que será lançada nesta segunda-feira, 12/6, detecta quais são os desafios, percepções e oportunidades desse tipo de empreendimento

Claudio Marques

11 Junho 2017 | 07h32

Claudio Pires, fundadora da So+Ma. Foto: Marco Iarussi / Divulgação

Cris Olivette
O 1º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental produzido no Brasil aponta que a maior dificuldade enfrentada por esses negócios é a atração de investimentos, embora empresas tenham demonstrado que são escaláveis.
Carolina Aranha, coordenadora do estudo e fundadora da empresa que o realizou, a Pipe. Social, conta que para 46% das 579 empresas ouvidas na pesquisa, o maior desafio é obter capital. “Elas não têm acesso a crédito e faltam investidores que apostem nessas empresas, especialmente na fase inicial”, afirma.
É este desafio que está impedindo que a Cosol Condomínio Solar, de Csaba Sulyok, entre em atividade. “Eu consegui um investidor anjo que fez aporte de R$ 100 mil. Com esse recurso, viabilizamos a criação de uma plataforma virtual avançada e validamos o negócio.”
Segundo ele, é possível instalar o seu modelo de usina de captação de energia solar em seis meses. “O gargalo é achar investidores. Me mudei da Bahia para São Paulo para ficar mais próximo deles. Estou em negociação com alguns interessados, mas eles querem aguardar a economia melhorar”, conta.
O condomínio solar desenvolvido por ele usa dispositivo tracker (rastreador solar giratório) que acompanha a rotação do sol. “Dessa forma, captamos 20% mais radiação solar em relação à captação feita nos telhados das residências.”
A proposta de Sulyok é criar mini usinas de até cinco megawatts, compartilhadas por meio de lotes. “Vamos alugar os lotes para os consumidores. A energia será jogada na rede de distribuição, gerando créditos que serão usados por eles para abater o valor pago na conta de energia elétrica”, diz.
Gênero. Outro resultado do trabalho aponta que 20% dos negócios de impacto foram fundados somente por mulheres e 58% somente por homens. O estudo mostra, ainda, que negócios liderados somente por mulheres estão concentrados nas menores faixas de faturamento e são menos formalizados. “Por outro lado, esses negócios são mais comprometidos com a definição e o acompanhamento do impacto.”
Carolina afirma que as informações do Mapa oferecem excelente cobertura do mercado brasileiro e algumas surpresas. “Entre elas, o fato de mesmo esse mercado estando em atividade há poucos anos, 7% das empresas faturam acima de R$ 2 milhões. “Esse dado comprova que negócios de impacto são escaláveis”, reforça.
A coordenadora conta que o estudo, além de apontar os desafios, detectou percepções e oportunidades desse setor. “Os negócios foram divididos em seis segmentos, sendo que 38% são da área de educação; 22% da área de tecnologias verdes; 13% cidadania; 10% saúde; 8% cidades e 9% finanças sociais”, conta. O estudo será divulgado nesta segunda-feira.
O programa de vantagens So+Ma, criado por Claudia Pires, causa impacto tanto social quanto ambiental e econômico. “Eu queria engajar as pessoas na luta para solucionar o grande problema que é a geração de resíduos recicláveis secos (plástico, metal, vidro e madeira) e, ao mesmo tempo, criar impacto social e econômico nas comunidades de baixa renda.”
Publicitária e cientista social, ela encontrou uma forma de despertar a consciência ambiental nas pessoas e gerar renda. Há dois anos, implantou um projeto piloto em uma comunidade do Capão Redondo.
Resíduos. “Eu criei a Casa So+Ma, local onde as pessoas entregam resíduos que viram pontos. Os pontos são acumulados no programa So+Ma Vantagens. Essas vantagens são trocadas por produtos fornecidos por parceiros e incluem alimentação básica, higiene pessoal, cursos de capacitação, workshops de tecnologia etc”, conta Claudia.
Ao mesmo tempo, a Casa So+Ma incuba a cooperativa de catadores da comunidade, para que seus membros entendam a atividade como um negócio e aprendam a gerir o ponto de coleta. “Depois de um tempo, eles passam a administrar sozinhos.”
Claudia diz que o objetivo é atender até duas mil famílias em cada comunidade e coletar até 15 toneladas de resíduos por mês. “Esse volume resulta em rentabilidade bastante atraente para a cooperativa. Uma média mensal de R$ 8 mil livres”, afirma.
Sua intenção é que as prefeituras contratem o programa para que ele se torne uma política pública. “O negócio vai escalar por meio da nossa tecnologia do programa de vantagens. Temos o único programa de fidelidade para baixa renda que existe no Brasil e, pelo que já pesquisei, no mundo.”
No Capão Redondo, há 250 famílias cadastradas que coletaram mais de 50 toneladas de resíduos. “Há um mês, implantamos uma nova Casa So+Ma no Grajaú. Já estamos com 204 famílias cadastradas e quase três toneladas de resíduos recebidas.”

Mariana Vasconcelos, da AgroSmart. Foto: Maria Yamauchi / AgroSmart / Divulgação

Na área ambiental, projetos racionalizam o uso da água

Dentre os negócios que atuam na área de tecnologias verdes está a Agrosmart, idealizada durante a crise hídrica que castigou o Sudeste no verão de 2014.
“Sou filha de produtor rural e sempre acompanhei as dificuldades do trabalho no campo. Pensei em desenvolver uma solução para cuidar da irrigação da lavoura”, diz a CEO Mariana Vasconcelos, que fundou a empresa com Raphael Pizzi e Thales Nicoleti.
Ela e os sócios trabalhavam na área de tecnologia utilizando sensores em indústria de petróleo e gás. “Começamos com a proposta na área de irrigação, mas hoje, a nossa solução oferece mais de 14 sensores para diferentes monitoramentos. Os equipamentos são instalados ao longo da lavoura e fornecem dados em tempo real.”
Mariana diz que a empresa também capta imagens de satélite e todas as informações são enviadas pela internet, juntamente com recomendações sobre necessidade de acionar o equipamento de irrigação, previsão de tempo própria e mais precisa, além de alerta de doenças entre outros itens.
De acordo com ela, com o serviço oferecido pela Agrosmart, a irrigação passa a ser feita de forma sustentável, proporcionando 60% de economia de água. “Já o monitoramento da saúde da plantação faz aumentar a produtividade, porque o produtor entrega à plantação o que ela realmente precisa.”
A solução contra a crise hídrica fez a empresa ser selecionada pela Nasa, entre 500 startups, para receber transferência tecnológica. Além disso, a Agrosmart consta da lista das 50 companhias que mais impacto estão causando no mundo em 2017, sendo a única da América Latina.
“Com os repasses da Nasa, estamos desenvolvendo novo produto que vai contar com uma biblioteca virtual contendo elementos da lavoura brasileira. Cruzando essas informações com as imagens de satélite será possível saber o que está acontecendo no campo, como por exemplo, o tipo de doença que está atacando a lavoura”, diz.
Mariana afirma que os preços dos serviços da Agrosmart são acessíveis. “De nada adianta desenvolvermos tecnologia se ela não for acessível. Nosso modelo de negócio nos permite democratizar as tecnologias.”
Hoje, a empresa monitora 50 mil hectares de lavouras no Brasil e exporta os serviços para todos o países da América Latina, Israel e Quênia.
Vazamentos. Inserida no contexto de cidades inteligentes, a Stattus 4, criada por Marília Lara e Antonio de Oliveira, participou de duas rodadas de investimento anjo e está em fase pré-operacional.
A dupla desenvolveu um dispositivo que usa inteligência artificial para identificar pontos de vazamento em redes de distribuição de água, gás e vapor.
“O dispositivo é semelhante a um bracelete. Ele é colocado no cavalete de água e capta dados do encanamento e envia as informações a um servidor que possui um algoritmo desenvolvido por nós. O equipamento identifica se há vazamento em algum ponto da rede”, explica Marília.
De acordo com ela, o modelo de negócio prevê a comercialização do sensor, que custará cerca de 120 reais. “As concessionárias pagarão um valor de assinatura para ter acesso aos dados do servidor. O custo não será mais que R$ 8 por ponto medido. Os braceletes serão distribuídos a cada três casas, dando uma cobertura de 80%. Com um terço do campo monitorado é possível abranger, praticamente, o campo todo.”
Pelas pesquisas que realizou, ela afirma que não há serviço semelhante no mercado nacional e internacional.
Marília conta, ainda, que 40% da água que é retirada dos mananciais é perdida na distribuição. Sendo que metade dessa perda ocorre entre a rua e a casa das pessoas, por conta de pequenos vazamentos que ocorrem na tubulação.
“Esse volume de 40% é equivalente a três milhões de piscinas olímpicas. Em termos de faturamento, representa R$ 22 bilhões por ano, o que daria para suportar todo o consumo de água do Estado de São Paulo durante um ano.”