Negócios para pais e filhos brincarem juntos

Negócios para pais e filhos brincarem juntos

Empreendedores percebem lacuna no mercado urbano e criam espaços para que as famílias possam se divertir e estreitar os laços

CRIS OLIVETTE

25 Junho 2017 | 07h13

Maya Nigri, proprietária da Cadê Bebê. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

A necessidade pessoal continua sendo fonte de inspiração para a criação de novos negócios. Nesse contexto, um novo segmento está ganhando força em São Paulo. São empreendimentos idealizados por mulheres que se tornaram mães e que oferecem apoio e diversão para pais e filhos.

Fundada em 2015, a Cadê, de Maya Negri, é uma delas. “Quando me tornei mãe senti falta de um espaço no qual me sentisse acolhida e pudesse compartilhar dúvidas e experiências com outros pais e profissionais capacitados. Criei o negócio para estimular o desenvolvimento das crianças durante a primeira infância e estreitar o relacionamento familiar”, conta.

Fundadora da Mamusca, Elisa Roorda vivenciou sensação semelhante quando sua primeira filha nasceu. “Me senti muito sozinha em São Paulo, uma cidade que não é amigável para pais com filhos pequenos. Fiquei solitária e me senti órfã, porque fui a primeira de minha turma a ter filho”, conta.

Elisa, então, planejou a criação de um espaço bacana para as crianças e também para os pais. “Eu sentia muita necessidade de encontrar e conversar com outros pais que estivessem passando pelo mesmo momento.”

Após viajar por alguns países e entender que fora do Brasil negócios que oferecem espaço de brincar já são um segmento consolidado, montou a Mamusca, em maio de 2013.

“Nossa proposta é atrair os pais para o espaço para que possamos trabalhar esse momento da criança junto com eles. A oferta de serviços foi sendo ajustada aos poucos, porque não tínhamos referência em relação ao modelo que funcionaria.”

Maya também fez estudo de mercado. Formada em fisioterapia, trabalhava com reabilitação no Hospital das Clínicas de São Paulo e convidou a psicóloga Marganne Dubrule Bulcao, para ser sua sócia. Juntas, passaram três anos desenvolvendo o projeto e pesquisando referências teóricas.

“Também estudamos qual seria o melhor bairro para implantarmos o negócio. Vimos que no Itaim havia muitas mães e babás circulando pelas ruas, com os bebês presos nos carrinhos, sem brincar e explorar. Para transformar essa realidade, criamos um espaço de acolhimento, de conforto e de troca para as famílias.”

Criar, amar, desenvolver e explorar brincando são os pilares de sustentação do negócio. “Qualquer adulto de referência para a criança, com quem ela se sinta segura, pode frequentar o local até que ocorra o desfralde. Após essa fase, as crianças ganham autonomia e até os seis anos podem ficar sozinhas na Cadê, acompanhadas apenas por educadores. Trabalhamos o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social na primeira infância”, conta.

Segundo ela, cada vez mais as pessoas buscam espaços de convivência para pais e filhos. “Na Europa, é comum encontrar esse tipo de serviço. Aqui, temos de explicar que não somos uma brinquedoteca e nem um espaço só para diversão, porque temos esse olhar de acolhimento e de escuta das famílias. Quando as pessoas experimentam, gostam muito e indicam aos amigos.”

Elisa Roorda, fundadora da Mamusca. FOTO: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Atividades. A Mamusca oferece desde proposta mais flexível para quem quer passar uma hora brincando com o filho, até programa com frequência definida.

“O Terra de Pequeninos é nosso carro-chefe e tem plano semestral. Ele atende pais com crianças a partir de nove meses até três anos. Nessa fase, o foco é no brincar livre.”

Segundo ela, o negócio conta com especialistas nas áreas de música, movimento e artes. “Esses profissionais fazem intervenções e convidam as crianças a participar. Elas escolhem se querem fazer a atividade ou não.”

Para crianças maiores, o espaço oferece o programa Quintal, que funciona como complemento para aqueles que já frequentam escola formais e têm entre quatro e sete anos.

Maya afirma que a Cadê não segue um currículo. “Trabalhamos com projetos trimestrais, conduzidos por educadores. Eles propõem uma ideia que tem desdobramentos diferentes em cada grupo. Prezamos a individualidade do grupo e o que as crianças querem aprender e explorar”, diz.

Segundo ela, os educadores atuam como mediadores do aprendizado. “Permitimos que as crianças tenham tempo de brincar, explorar e sociabilizar. Compartilhando com os pais o processo de desenvolvimento na primeira infância, o aprendizado se torna mais leve e tranquilo.”
A Cadê também oferece o serviço de forma itinerante. “Esse formato está sendo ampliado com rapidez. Atendemos espaços culturais, unidades do Sesc, condomínios e eventos. Não temos intenção de abrir franquias porque é preciso ter grande cuidado e respeito aos conceitos que aplicamos.”

Maya afirma que por atuar em um nicho específico quer crescer por meio da prestação de serviços. “Também temos muito espaço para ampliar a quantidade de famílias acolhidas na sede.”

A Cadê conta hoje com 30 funcionários e atende entre mensalistas que frequentam o local com regularidade e visitantes avulsos, 60 famílias por mês.

Elisa também não pensa em abrir outra unidade ou franquear. “Estamos construindo esse segmento e consolidando nossa proposta. E o público ainda está entendendo o que é esse tipo de serviço. Mas fazemos vários eventos externos.” A Mamusca emprega 15 pessoas.

Sócias criam o primeiro ‘museu’ voltado às crianças no Brasil

Inaugurado no início deste ano, o Museu da Imaginação nasceu para atender a demanda de uma das sócias. “Sou advogada, mas trabalhava como coach há cinco anos quando Anne Frigo, minha atual sócia, marcou consulta para falar sobre sua ideia de criar um espaço de lazer acessível, porque tem uma filha com paralisia cerebral e sentia falta de um local com essa característica”, conta Andrea Lopes

Andrea Lopes (à esq.) e Anne Frigo, donas do Museu da Imaginação. Foto: Denise Barros/Divulgação

Durante a sessão, Andrea, que também é mãe, ficou animada com a ideia de criar um museu da criança. “Vários lugares do mundo têm museu voltado às crianças. São espaços de socialização pacífica nos quais as crianças trabalham valores e podem brincar com os pais.”

Segundo ela, só em Manhattan (EUA) existem oito Children’s Museums. “Fizemos planejamento estratégico, mapeamos escolas particulares e públicas na capital paulista, número de crianças na faixa etária de zero a 13 anos e visitamos espaços na Europa e Estados Unidos. Na volta, contratamos assessoria de pedagogos e especialistas no brincar para formatar o projeto”, conta.

Inaugurado em janeiro deste ano, o espaço é totalmente acessível. “Temos informações em libras, piso tátil, elevador, linguagem de sinais, estações lúdicas e área de exposição de arte que pode ser tocada. As exposições interativas sensoriais serão trocadas a cada oito meses.”

Andrea afirma que todas as atividades podem se compartilhadas entre pais e filhos. “Crianças de até sete anos não podem ficar sozinhas nos espaços. A estação Garagem de Música, por exemplo, é muito disputada, porque tem instrumentos musicais de verdade. Não há como não brincar.”

O Museu também oferecemos brincadeiras clássicas de rua em espaço chamado Vintage, como pula saco, elástico, pular corda etc. “Descobrimos que muitas crianças não sabem pular corda”, ressalta.
Segundo ela, o negócio também tem o propósito de causar impacto social positivo. “Atendemos gratuitamente quem não pode pagar o ingresso. Já recebemos 300 crianças de instituições que atendem população carente e de escolas públicas, com deficiência ou não.”

A empresária pretende colocar cápsulas do Museu em hospitais que têm crianças internadas há muito tempo, mas ainda não viabilizou a ideia. “Também estamos negociando com pessoas do Rio de Janeiro que desejam abrir unidade franqueada na cidade.”

Andrea afirma que as pessoas precisam de espaços desse tipo, porque o brincar é essencial para as crianças desenvolverem habilidades comportamentais.

“Queremos resgatar o lúdico e tirar as crianças dos smartphones. Pela nossa pesquisa, identificamos que há muito mercado para negócios voltados a interação entre pais e filhos.”
Foi com essa pegada que Roberto Sivieri e quatro sócios fundaram, em novembro de 2016, o Altitude Park. “Nosso principal objetivo é fazer pais e filhos deixarem o celular de lado e viverem um momento de interação e diversão”, diz Sivieri.

Ele conta que o parque tem 52 camas elásticas interligadas, com espaço para saltar e enterrar a bola em uma cesta de basquete. “Também é possível jogar queimada, praticar slackline, parkour e parede de escalada. No final, as famílias saem com um sorriso no rosto.”

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