O alto custo de ser pobre e o empreendedorismo de impacto social

O alto custo de ser pobre e o empreendedorismo de impacto social

O Estado no Brasil consome 37% do Produto Interno Bruto (PIB) – esse é um dos índices mais altos para países do nível econômico do Brasil – no México não chega a 30%

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24 de novembro de 2015 | 18h24

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* Por Marcel Fukayama

É sabido que a pobreza é cara – e não apenas para a sociedade, com reflexos na saúde, educação e segurança pública – mas, especialmente, para os pobres. Esse alto custo está refletido nas relações das famílias de baixa renda com o comércio e os serviços, em particular os de natureza financeira.

As compras dos mais pobres concentram-se em lojas próximas de casa, localizadas em comunidades de baixa renda. De menor porte, esses estabelecimentos se abastecem em atacadistas e varejistas grandes – e revendem a seus consumidores mercadorias com preços mais elevados. Assim, no dia a dia, ao realizar compras “picadas” no varejo da esquina, as famílias de baixa renda acabam por gastar muito mais do que o necessário. E mesmo quando fazem a opção de ir a um centro comercial mais competitivo, por serem em locais distantes,  os altos custos de transporte acabam por comprometer a economia realizada.

Nos serviços financeiros as diferenças também são grandes. A parcela com conta bancária dessa população tende a pagar tarifas mais elevadas (com exceção para poupança ou conta salário) e, sobretudo, incorrer em custos mais elevados para tomar empréstimos. Sem acesso a produtos financeiros mais baratos, o que lhes resta são os juros salgados do cheque especial ou do rotativo do cartão de crédito.

Para os sem conta bancária, a situação é mais desafiadora. Descontar cheques, por exemplo, pode ser um problema: aqueles comerciantes que se dispõem a fazer isso cobram bem pelo serviço. Da mesma forma, remessas de dinheiro pelo correio ou bancos também são taxadas, reduzindo ainda mais o valor original. No caso dos extremamente pobres, o desafio torna-se trágico. Para uma família que recebe recursos do programa Bolsa Família e reside em uma área rural do Norte ou Nordeste, chegar ao banco ou à loja lotérica mais próxima poderá comprometer até 20% do benefício.

Por isso, a equipe da Din4mo defende o empreendedorismo de impacto social; um empreendedorismo que apresenta soluções inovadoras para lidar com problemas cotidianos da baixa renda. Temos que repensar os modelos de políticas sociais; o Estado no Brasil consome 37% do Produto Interno Bruto (PIB) – esse é um dos índices mais altos para países do nível econômico do Brasil (no México não chega a 30%). E, apesar do alto investimento, as nossas políticas sociais são ineficientes. Então, somos obrigados a pensar em como fazer mais com menos; produtos e serviços para os mais pobres com menos custos. Uma das formas é fazer despertar para a questão do empreendedorismo de impacto. Existe, hoje, um conjunto de startups inovadoras de impacto social que estão mudando a forma de fazer negócios no Brasil; empreendedores com soluções viáveis para a saúde, educação, habitação e serviços financeiros.

Temos de pensar como seremos capazes de aproveitar essas soluções consistentes apresentadas pelos negócios de impacto social para reduzir a pobreza e desigualdade no País com recursos escassos; fazer mais com menos, fazendo caber na conta e usando os recursos disponíveis – e que não são infinitos.

 

(*) Marcel Fukayama

Administrador de Empresas, com MBA Executivo. Aos 17 anos decidiu empreender: criou uma das primeiras lan houses de São Paulo e o Aula Digital – programa pioneiro de inclusão digital com crianças de creches e escolas municipais em São Paulo. Fundou três associações de mercado para influenciar políticas públicas, estruturar o campo e regulamentar o setor em São Paulo e no Rio de Janeiro. Juntou-se ao movimento global de Empresas B e cofundou o Sistema B Brasil. É coautor de Negócios com Impacto Social no Brasil, primeiro livro sobre negócios sociais no País; e da obra Economia Criativa: um conjunto de visões. Pela atuação como empreendedor social foi reconhecido como “um dos 30 jovens de até 30 anos que estão transformando o País” (Forbes Brasil); “um dos 10 CEOs mais inspiradores” (GQ Magazine); e “um dos jovens líderes empreendedores globais” (Skoll Foundation e MasterCard Foundation). É sócio-diretor da Din4mo.

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