O impacto do fator ‘filho’ nos negócios

O impacto do fator ‘filho’ nos negócios

Para combater olhar ‘viciado’ de fundador da empresa, acolher a visão da nova geração pode ser solução para sacudir estruturas e crescer

CRIS OLIVETTE

27 de março de 2016 | 07h59

Jesse de Andrade, fundador do bistrô Josephine , com seu filho Paulo Henrique de Andrade.

Jesse de Andrade, fundador do bistrô Josephine , com seu filho Paulo Henrique de Andrade.

Iniciar o curso de administração fez com que Paulo Henrique de Andrade passasse a olhar o Josefhine Bistrô, criado pelo pai em 2000, com outros olhos. “Na faculdade, adquiri muitos conhecimentos e comecei a pensar em como aplicá-los no restaurante.”

O jovem de 23 anos conta que primeiro introduziu o menu executivo para atrair mais clientes no horário do almoço. “A ideia foi muito bem aceita. Hoje, vendemos cerca de 200 pratos de segunda a sexta-feira. No final do mês, são 800 pratos a mais do que antes”, diz o proprietário, Jesse de Andrade.

O universitário diz que a casa fica aberta das 12h às 23h. “Para alavancar o movimento, introduzimos o happy hour com grande carta de novos drinks, sendo que o campeão tem sido o caju amigo. Em relação aos petiscos, o carpaccio de polvo está entre os mais apreciados.”

De acordo com o pai, as iniciativas de Paulo Henrique chacoalharam o negócio. “Estamos vendendo cerca de 500 petiscos por mês no happy hour. Era um horário praticamente morto e agora atraímos cada dia mais pessoas. Há um pessoal mais jovem frequentando a casa e trazendo amigos”, comemora.

A meta da dupla, agora, é abrir mais uma unidade em um shopping center. E a partir de junho, pretendem lançar serviço de entregas com cardápio reduzido.

Em família. Consultor especializado em desenvolvimento das competências de liderança organizacional, educacional e pessoal, Eduardo Shinyashiki afirma que o acolhimento da proposta de inovação é a parte maravilhosa da relação familiar.

“É fantástico quando o pai acolhe, aceita e investe nessa nova visão. Quem está no negócio há muito tempo acaba criando um olhar viciado”, diz.

Segundo ele, muitas vezes o investimento na ideia pode não ser grande, mas o grande ganho é o afetivo. “Ao comprar a ideia do filho, o pai deixa evidente o quanto uma relação familiar equilibrada permite mudança.”

Shinyashiki afirma que pais empreendedores devem flexibilizar o olhar quando os filhos lançam nova visão sobre o negócio. “O difícil é quando o pai não quer abrir mão da postura de provedor. Quando fica na posição de que é ele quem sabe das coisas e diz: sempre foi feito dessa forma e está dando certo. Com essa atitude, vai invalidando as novas ideias e propostas.”

O consultor acredita que a essência da verdadeira liderança é permitir a rotatividade de liderança. “Isso agrega valor ao negócio e cria nova dinâmica.”

Rafael Marcos com o pai Ademir Marcos

Rafael Marcos com o pai Ademir Marcos

Há quatro anos, o advogado Rafael Marcos iniciou conversas com Ademir Marcos, seu pai, para apontar carências que identificava na Marcos & Farina Arquitetura, que está no mercado á 37 anos.

“Depois de adquirir experiência profissional em grandes corporações, aprendi como essas empresas funcionam. Vi como elas atuam no mercado, as ferramentas que utilizam e como operam a questão financeira. Com base nesse aprendizado, sugeri alterações. Casamos a experiência dele com minha visão de mercado”, diz.

Há quatro anos, Rafael passou a trabalhar em tempo integral na empresa do pai, como prestador de serviços. “Coincidentemente, desde então, o crescimento foi exponencial, mais por conta do bom momento da economia no segmento de logística no qual atuamos. Logística teve forte crescimento e fez o negócio crescer acima de 25% nos últimos quatro anos.”

Novidades. Entre as mudanças cita, por exemplo, o fim do uso de cheques e o uso do sistema online do banco. “Isso deu agilidade às transações financeiras e eficiência ao processo como um todo, além de dar mais segurança, uma vez que ninguém mais precisa ir ao banco. A aplicação de reservas em fundos de investimentos também resultou em melhoria financeira.”

Como advogado, Rafael passou a elaborar contratos com mais detalhamento dos escopos e das responsabilidades, resultando em maior segurança jurídica e transparência nas relações com os clientes.

Satisfeito, Ademir afirma que agora pode compartilhar visões e decisões com uma pessoa próxima e de confiança. “É muito bom ter uma opinião adicional para reflexão sobre os caminhos a serem desbravados ou em relação aos investimentos.”

Os dois afirmam que a aproximação e o privilégio de convívio diário serviu para estreitar a relação. “Enquanto tenho oportunidade de absorver centenas de histórias e experiências desse grande conselheiro profissional e da vida, posso ajudá-lo a ampliar sua visão de mercado e a introduzir inovações.”

FAMÍLIA UNIDA TAMBÉM NOS NEGÓCIOS

Há três anos, durante almoço familiar, as irmãs Ana Carolina Sales Viseu e Ana Leite questionaram o pai, produtor de cana, porque não havia caldo de cana industrializado.

 Ana Carolina Viseu e Ana Leite, sócias na empresa ACANA

Ana Carolina Viseu e Ana Leite, sócias na empresa ACANA

“Ficamos curiosas e começamos a investigar como seria a produção, por que ninguém tinha feito isso, que mercado teria etc”, conta Ana Carolina.

Com o estudo, ela constatou que havia uma oportunidade, porque a cana tem várias propriedades como flavonoides, vitaminas e minerais. “Vimos que havia muito espaço para entrarmos no mercado de alimentação saudável, que é uma grande tendência de mercado.”

Ao vislumbrar que este seria um produto inovador, elas construíram uma fábrica para processar o suco na fazenda da família. “Contratamos um engenheiro de alimentos para desenvolver o produto. Nascia, assim, a marca de caldo de cana em embalagem TetraPak batizada de Acana.”

Ela diz que a fazenda Santa Lourdes, localizada em São Carlos, no interior de São Paulo, está na família há gerações e sempre produziu cana para abastecer as usinas de açúcar e álcool.

“Há dez anos, no entanto, atendendo a pedidos de garapeiros da região, nosso pai iniciou o plantio, concomitante, de outra espécie de cana de açúcar, ideal para garapa. Depois, passou a fornecer cana in natura para comerciantes da cidade de São Paulo, abastecendo pastelarias e feiras livres”, diz.

Segundo ela, com a criação de Acana, perceberam que para o pai era mais interessante vender cana para elas no lugar de vender às usinas. “Assim, ele pode cobrar mais caro, porque compramos numa escala menor. Para ele é mais rentável.”

Hoje, a fazenda e a fábrica são negócios separados. “Ele toca a fazenda e a plantação e nós compramos cana dele. Mas ainda abastece as usinas. No futuro, o ideal é que essa cana toda venha para a industrialização do suco. Ele está empolgado com o projeto, pois pôde sair da sazonalidade do açúcar e álcool e diversificar a base de clientes.”

Segundo ela, o produto é 100% integral e sem adição de conservantes. “Hoje, está posicionado como produto premium, na mesma categoria do suco integral.”

Ana Carolina conta que a empresa está com dez funcionários. “O produto foi lançado em setembro de 2015 e por ser totalmente novo teve aceitação muito boa do varejo. Até o momento, não temos concorrentes e já conseguimos marcar presença em grandes estabelecimento como Walmart, Carrefour, San Marché, Zaffari, entre outros”, conta.

A empresária afirma que o produto nasceu bilíngue, de olho no mercado externo. “Queremos levar um pouco do Brasil para o mundo. Além disso, o mercado externo está maduro em relação aos benefícios dos produtos funcionais. Já vendemos para Canadá, Japão e Inglaterra. A meta é entrar nos Estados Unidos.”

Buscando inovar, jovem lança produto inédito

Em 2014, depois de estudar marketing no exterior, Felipe Carvalho começou a trabalhar na empresa fundada por seu pai, Antônio José de Carvalho, 20 anos antes. Sua missão: liderar o processo de inovação na empresa. Ele conta que a Amêndoas do Brasil se estabeleceu no mercado fornecendo, além da castanha de caju, o líquido extraído da casca da castanha, usado pela indústria química na fabricação de borracha, isolantes elétricos e plásticos, antioxidante para combustíveis, resinas, tintas, vernizes, entre outros.

Depois de estudar o mercado, decidiu investir na venda de alimentos saudáveis, criando A Tal da Castanha.

“Alimentação saudável é tendência de consumo mundial e o bem-estar é hoje, um mercado. O leite vegetal de castanhas foi a primeira de muitas novidades que estão por vir. Castanha de caju é um alimento muito rico. Vamos aproveitar esse valor nutricional para desenvolvermos novos produtos”, diz.

A marca também lançou linha de snack de castanhas de caju nas versões crua e assada. “É a primeira castanha assada do mercado, as demais são fritas em óleo vegetal. Oferecemos embalagens com 500g, 200g e 30gr. Estamos na busca incessante por produtos que aproveitem todos os benefícios da castanha de caju e sejam 100% naturais. Nossa meta é lançarmos um novo produto a cada trimestre.”

Além do leite de castanha, a marca também lançou três sabores de bebidas de castanha. Um com caju, outra com castanha do Pará, e com coco. “Até o fim do ano, lançaremos a farinha de castanhas.”